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Sem medo de desafios

Egídio Lima Dórea

Por Maria Lígia Pagenotto

Para migrar da atenção quase exclusiva ao paciente renal crônico a um olhar diferenciado sobre o envelhecimento, o médico Egídio Lima Dórea não precisou de nenhuma formação específica.

Com sua sensibilidade aguçada, logo se deixou tocar por uma campanha de prevenção de quedas em idosos que conheceu numa viagem de estudos a Vancouver, no Canadá.

Ele conta que chegou lá em 2007 para um fellowship na sua especialidade – doença renal crônica pré-dialítica. No hospital em que atuava, chamou sua atenção uma intensa mobilização em torno da prevenção de tombos – tão frequentes – na população mais velha.

“Fiquei instigado com esse trabalho: era um hospital inteiro voltado para essa questão. O problema realmente é sério, mas pode ser evitado, por isso a campanha. Então voltei para o Brasil com vontade de fazer algo parecido”, conta Egídio Dórea, coordenador do ambulatório de clínica médica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU – USP), onde está desde 2003.

De fala tranquila, o nefrologista de formação é baiano de Salvador, graduado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Em São Paulo, fez residência médica na USP, onde também se doutorou – sempre pesquisando temas relativos à nefrologia. No entanto, a viagem ao Canadá abriu seus horizontes. Hoje ele é também um defensor do envelhecimento ativo, conceito lançado pela Organização Mundial de Saúde, em 2002, tendo à frente o médico Alexandre Kalache, de quem Dórea se aproximou ao trabalhar com a temática.

Na área do envelhecimento, chama atenção o grande interesse do nefrologista por diversos projetos – uns já acontecendo, outros por vir. É sobre eles que Dórea fala aqui nessa entrevista.

 

Aptare – O senhor conta que em Vancouver foi tocado pelo trabalho de prevenção de quedas. Como foi trazer isso para o Brasil?

Dórea – Num hospital, a gente lida diariamente com o processo de envelhecimento. Quis trazer a experiência canadense para cá, então comecei a pesquisar sobre o assunto. Também tive a oportunidade de conhecer, em Madri, uma praça de exercícios totalmente focada na prevenção das quedas. Juntei o conhecimento adquirido com esses exemplos e montei a primeira praça com esse fim, no Parque da Água Branca (chamada da Praça de Exercícios do Idoso), em 2008. Foi um projeto realizado em conjunto com o governo de São Paulo, que se multiplicou. Virou Projeto de Lei e hoje o estado conta com cerca de 600 praças desse tipo.

 

Aptare – Qual o diferencial desses espaços?

Dórea – Tudo ali foca na conscientização do idoso para o risco da queda. O espaço fornece orientações e promove, através de uma série de equipamentos próprios, melhoria do equilíbrio e da marcha; fortalecimento da musculatura; ampliação do movimento das articulações e também possibilidade de mais flexibilidade. No Brasil, estudos mostram que 32% das pessoas entre 65 e 74 anos já sofreram alguma queda. E isso, sem prevenção, tende a aumentar. No idoso, uma queda aumenta muito o risco de perda de independência, com impacto emocional muito forte, tendo por consequência, se não acompanhada, o maior risco de morte.

 

Aptare – E como foi levar essa experiência para o Hospital Universitário, a exemplo do que foi visto no Canadá?

Dórea – No HU, eu implantei o Grupo de Prevenção de Quedas (GPQ), em 2010, com abordagem multidisciplinar. Num hospital, os idosos acabam sendo maioria, então o tema logo sensibilizou as pessoas que circulam por aqui. Antes de implantar esse projeto, eu participei de um treinamento na Yale University School of Medicine, nos Estados Unidos. Lá, tive contato com a equipe de Mary Tinetti, referência no assunto. Ela elaborou a avaliação de marcha mais utilizada no mundo. O GPQ atende pessoas acima de 60 anos, que já tenham tido pelo menos um episódio de queda ou algum outro problema de marcha relevante. Essas pessoas chegam até nossa equipe via pronto-socorro ou ambulatórios. E estavam lá justamente porque caíram.

 

Aptare – De que forma a equipe trabalha?

Dórea – Fazemos um agendamento dessas pessoas que sofreram queda, para que possam ser atendidas por nossa equipe. Com horário marcado, elas chegam ao HU às 11 horas e ficam até por volta das 16 horas, passando por médico, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista, farmacêutico. Numa entrevista com elas, é feito um rastreamento dos fatores de risco para a queda. Aplicamos escalas para avaliarmos força, marcha, equilíbrio, cognição, depressão, medo de cair, entre outros aspectos importantes. O passo seguinte consiste em intervir em cada um dos fatores de risco levantados. Os pacientes então são encaminhados para um atendimento mais especializado – por exemplo, oftalmologista, fonoaudiólogo, psicoterapeuta, entre outros. Também temos materiais escritos, que fornecemos aos pacientes, como panfletos, com orientações e exercícios, e uma espécie de diário, onde devem anotar sua rotina, as atividades que fazem para evitar as quedas e os episódios relativos ao assunto.

 

Aptare – Os idosos retornam depois de quanto tempo para acompanhamento?

Dórea – O retorno presencial é feito trimestralmente. Mas nossa equipe entra em contato por telefone periodicamente, para termos notícia dos pacientes atendidos.

 

Aptare – E quais os resultados obtidos com essas medidas?

Dórea – Olha, é muito gratificante ver como os percentuais de queda reduzem. Para você ter uma ideia, 30% dos idosos que chegam aos hospitais de forma geral têm histórico de queda. Desses, 50% voltam a cair depois de um ano ou mais. Com nosso trabalho, temos conseguido reduzir essa reincidência para 15%, no máximo 20%. É bem significativo.

 

Aptare – Conte um pouco sobre sua aproximação com o médico Alexandre Kalache e o que isso impactou em seu interesse pelas questões do envelhecimento.

Dórea – Eu conheci o Kalache na época do lançamento das praças, numa cerimônia de premiação do governo. Fiquei conhecendo na ocasião o projeto Cidade Amiga do Idoso e o Bairro Amigo do Idoso. Pensei em implantar o conceito no Butantã, onde fica a USP. Cheguei a escrever esse projeto, fiz todo o planejamento, mas acabei deixando arquivado, por ser algo muito grande, e difícil de tocar sozinho. Mas aí surgiu a questão do Hospital Amigo do Idoso, e eu já havia implantado o GPQ. Achei que seria muito bom para o HU participar disso, então inscrevi a instituição. Afinal, 60% dos pacientes que frequentam o hospital são idosos. Por nosso trabalho no GPQ, recebemos o selo de Hospital Amigo do Idoso. Fora isso, a unidade foi toda reestruturada para melhor receber esse público. Mobilizei os funcionários todos e perguntei a eles o que entendiam sobre envelhecimento. Fiz um levantamento dentro de cada área para saber as políticas que tinham aqui para o idoso e busquei parcerias para sensibilizá-los para essa questão junto ao curso de Gerontologia da USP. Essa medida teve muitos impactos, desde o atendimento em horários diferenciados para os mais velhos, passando pela coleta de exames, com hora marcada, visitas nutricionais para pacientes internados, com medidas mais específicas, e a organização de campanhas e ações concretas para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. O projeto de Hospital Amigo do Idoso é contínuo, temos de ir alcançando metas, é um desafio a que me propus, muito importante. E foi tão relevante aqui que resolvi extrapolar algumas dessas ideias para fora do HU. Desde 2015 resolvi levar para o campus o conceito de envelhecimento ativo.

 

Aptare – Como isso funciona na universidade?

Dórea – É um trabalho que estamos fazendo já há dois anos, exclusivo para funcionários não docentes da Cidade Universitária. Já são várias unidades envolvidas já. Vamos até elas, damos uma palestra explicando o que é o projeto do Envelhecimento Ativo, estimulando-os a se engajarem. Na etapa seguinte, os vários especialistas envolvidos (médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e economistas) dão um workshop, contando como trabalham dentro da proposta. Aos que aceitam participar, determinamos objetivos e metas, que vão sendo acompanhados. Aí trabalhamos com a individualidade. Alguns precisam emagrecer, outros, parar de fumar, por exemplo. Para todos, no entanto, oferecemos a possibilidade de sair mais cedo do trabalho, duas vezes por semana, para fazer uma atividade física no Cepeusp, o Centro de Práticas Esportivas da universidade. Trabalhamos em várias frente, pois o conceito de envelhecimento ativo é amplo. Buscamos incentivar a saúde mas também um relacionamento ativo na família e no trabalho, maior participação na sociedade e também orientamos sobre questões financeiras, porque isso é muito importante.

 

Aptare – Os funcionários reagem bem à proposta de forma geral?

Dórea – Sim, estamos com um grupo bem interessado, de cerca de 500 pessoas. São funcionários da Escola Politécnica, Veterinária, Matemática, Física, Biologia, Oceanografia, Educação, Psicologia, da administração do campus, da Guarda Universitária, entre outros. Muitos já conseguiram atingir suas metas. Sentimos, no entanto, que a maior dificuldade é ainda a adesão às atividades físicas e às mudanças na alimentação. Modificar alguns hábitos é sempre o maior desafio. Mas trabalhamos com algumas técnicas motivacionais, promovemos uma confraternização no final do ano, e os que atingem as metas são premiados por suas unidades. Temos conseguido bons resultados de forma geral.

 

Aptare – Qual a faixa etária dessas pessoas que participam? E há mais mulheres, suponho?

Dórea – Sim, mais mulheres, mas muitos homens estão aqui também. Até porque há unidades em que eles predominam, como a Guarda. A faixa etária predominante é dos 40/50 anos, mas há alguns mais jovens também, na faixa dos 20/30 anos.  O envelhecimento é a única certeza que temos, né? Então aos poucos as pessoas vão vendo a necessidade de se preparem melhor para essa etapa da vida.  O interessante é que esses funcionários acabam sendo multiplicadores dessas ideias, porque eles levam o que aprendem para seus familiares, amigos.

 

Aptare – O senhor pretende que essa proposta chegue a outros campi?

Dórea – Gostaria muito, aos poucos com certeza chegaremos lá. Por enquanto estou focado também em transformar o campus aqui do Butantã num campus que seja amigo de todas as idades. Para tanto, vamos fazer um levantamento da população que frequenta esse espaço, para saber o que acham sobre isso. Nossa ideia é avaliar a adequação de vários equipamentos, como bebedouros, ciclovias, bancos, tudo o que possa estar associado a um ambiente mais amigável para esse usuário. Outra coisa que notamos é que as unidades da USP se comunicam pouco. Para que seja um campus amigo de todos temos de mudar isso. Queremos que os frequentadores possam ficar sabendo do que ocorre em cada uma das unidades, que possam participar das atividades que são oferecidas ao público, por exemplo.

 

Aptare – São muitos projetos. Fora isso o senhor ainda coordena a Universidade Aberta da Terceira Idade, não?

Dórea – Sim, estamos reformulando várias coisas por lá. Vamos ter um site exclusivo, com tudo o que é oferecido para toda a população idosa. Queremos mais participação, é muito importante que o idoso esteja em contato com a universidade, que amplie seus horizontes, que conviva com os mais jovens.  Vamos oferecer, no segundo semestre, alguns workshops também na Universidade Aberta. O primeiro será sobre finitude, em agosto, com a professora Maria Júlia Kóvacs. Queremos com isso nos aproximar mais dos idosos, ouvi-los mais, interagir com eles.

 

Aptare – O senhor coordenou recentemente o seminário sobre Envelhecimento Ativo aqui na USP, com vários especialistas e temáticas. Foi o primeiro? Pretende fazer outros?

Dórea – Foi o primeiro e a intenção é fazer mais, vamos ver se conseguimos já para o próximo ano. Mas, antes disso, em outubro agora, vamos fazer aqui na USP um míni-fórum da longevidade, um evento que ocorre sempre no Rio de Janeiro, paralelamente ao Fórum da Longevidade, promovido anualmente pela Bradesco Seguros e coordenado pelo Kalache. Estou me mobilizando para isso, queremos trazer palestrantes nacionais e internacionais para falar sobre resiliência, o tema do próximo fórum. Ainda em outubro, faremos também aqui na USP um evento sobre imunização na terceira idade, para um público amplo. Vamos divulgar mais para frente.

 

Aptare – Com tantas ideias sobre envelhecer, como o senhor avalia a forma como esse tema é tratado hoje no Brasil?

Dórea – Acho que estamos avançando bastante, mas temos um longo caminho a percorrer. O envelhecimento aqui ainda é recente. O que eu sinto é que falta valorizar mais o idoso. Como diz a professora Eclea Bosi, ele é um depositário de memórias. Uma sociedade não vive sem o seu passado. É muito importante ouvir as experiências de quem já viveu muito, e sinto que os jovens, de forma geral, ainda não estão dispostos para isso. Sempre toco nesse ponto, é de extrema relevância essa valorização do idoso.