Tendências

Acompanhantes de idosos: mercado em ascensão

Por Silvia Sousa

Vamos combinar que o idoso já não é o mesmo de 20 anos atrás. Hoje vive-se mais e procura-se por mais qualidade de vida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 14,3% da população brasileira é composta por pessoas com mais de 60 anos, o que significa quase 30 milhões de idosos. E esse número deve aumentar nas próximas décadas, já que a expectativa de vida aumenta ano a ano. O brasileiro nascido em 2015 deve viver até os 75,5 anos. A tendência é que em 2050, chegue, em média, aos 81 anos. É um salto gigantesco se compararmos com 1940, quando a expectativa média da população do Brasil era de 45 anos de idade.

Além disso, foram adquirindo novos hábitos de vida. Quase a metade deles pratica alguma atividade física regularmente, não se importam em viver sozinhos e preocupam-se até com a qualidade do que consomem. Também estão cada vez mais engajados no mundo virtual. Uma pesquisa de 2016 da Ericsson ConsumerLab constatou que 60% dos idosos brasileiros usam mais as redes sociais agora do que faziam um ano atrás. O mesmo vale para o aplicativo de mensagens instantâneas. Isso faz com que aquela imagem da avó que passa o dia fazendo crochê enquanto o avô está de pijamas e chinelos na sala fique cada vez mais no passado.

Vida cultural agitada

Viajar, conhecer lugares novos ou simplesmente assistir uma peça de teatro são algumas opções de saídas para esse novo idoso. Mas o problema é que muitos deles já são viúvos ou, mesmo com seus parceiros, têm receio de saírem de casa sozinhos. A saída é optar pelos serviços do acompanhante cultural. “Essa é uma profissão nova ainda aqui no Brasil. Esse profissional vai acompanhar o cliente em passeios pela cidade ou até em viagens em passeio que duram uma tarde, um dia ou até um fim de semana”, explica a pedagoga Rita do Amaral, da ONG Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE), de São Paulo (SP), entidade que realiza um curso de acompanhante cultural de idoso para formar novos profissionais na área.

Também existem as empresas que organizam passeios para a terceira idade, que saem em grupos. “Nós assistimos peças de teatro, concertos de música, visitamos exposição de arte e fazemos até viagens curtas de um dia para cidades que ficam perto de São Paulo, como São Roque”, explica Darilma de Freitas Guimarães, 80 anos, e que há 20 anos é proprietária da Voivolto, uma das empresas pioneiras em organizar excursões para idosos em São Paulo. Ela conta que entrou no negócio para ajudar o irmão, que se aposentou e procurava uma nova ocupação, mas acabou se apaixonando pelo ofício. Para organizar os grupos, ela manda todos os meses a programação dos eventos culturais selecionados por email ou pelo correio aos clientes cadastrados. Os interessados se inscrevem e, a partir daí, ela traça o roteiro que consiste em buscar a pessoa em casa, levar ao evento (com ingresso incluso) e depois deixá-la em casa novamente. “Eu organizo tudo para que a pessoa não tenha dor de cabeça”, diz.

Esse tipo de serviço costuma atrair a população da terceira idade porque também é uma maneira de fazer novas amizades. Darilma conta que o grupo é bem variado, todos são muitos animados e que dos eventos culturais surgem até outros compromissos, como um almoço para celebrar as novas amizades.

Mínimos detalhes

O clima é descontraído, mas o trabalho é sério e exige comprometimento e planejamento detalhado. E, claro, em certas ocasiões, paciência. Isso porque, às vezes nem é o próprio idoso que se interessa pelo serviço, mas sim um filho que acha uma boa contratar esse serviço para os pais. Então, num primeiro momento precisa ter uma aproximação entre as duas partes. “O vínculo vai ser formado aos poucos. Algumas pessoas são mais fáceis, outras mais resistentes”, diz Rita. Ela sugere que os primeiros encontros sejam na residência do cliente. Ali, o acompanhante vai descobrir os gostos do cliente, porque ele contratou o serviço, e analisar suas limitações, como uso de cadeira de rodas. “Vale ficar atento ao seu cliente. O acompanhante precisa entender que o idoso nem sempre quer aquilo, mas é um desejo dos filhos. Por isso, os primeiros encontros podem ser caseiros, como tomar um chá juntos ou jogar baralho até criar afinidade”, ensina Denise Mazzaferro, membro do conselho gestor e uma das professoras do curso ministrado na OLHE. A partir daí, vai surgindo a programação de eventos.

Mas antes de levar o idoso ao local, cabe ao acompanhante uma visita para verificar a acessibilidade, os banheiros, os melhores horários de visita e outras condições gerais que interfiram no bem-estar do cliente. Também vale a pena agendar com antecedência e até analisar se pode haver trânsito para chegar ao local escolhido.

Além de pesquisar a programação e levar o idoso, o acompanhante deve estimulá-lo a pensar sobre a experiência que acabou de ter. “Tem que conversar sobre o filme ou a peça, não pode só ficar limitado ao leva e traz”, alerta Rita. Ou então estar preparado para propor outras opções de lazer. Pode ser uma tarde no parque ou então incentivá-lo a organizar um café com os amigos, por exemplo.

RELAÇÃO PROFISSIONAL

Mesmo convivendo de perto com o idoso, Denise Mazzaferro, do OLHE, alerta que antes de tudo a relação entre o acompanhante e seu cliente deve ser profissional. Por isso, apelidos como idosinho, velhinho, vovozinho, mesmo que carinhosos, devem ser evitados. Os detalhes da contratação são acertados com antecedência, principalmente quando é feito pela família, o que é muito comum. Acerte o valor que será pago, como será pago, o tempo que durará o serviço e até detalhes como o transporte (em carro próprio, no carro do idoso, de táxi), pagamento de despesas extras, como alimentação e outros detalhes que possam surgir. E até como será feita a prestação de contas.

Vale até mesmo criar uma planilha onde serão acrescentadas as informações de cada cliente, os locais que já foram visitados, outros lugares que podem ser visitados e os valores que envolvem o serviço. Como é comum ter mais de um cliente, a organização é fundamental.

CINCO DICAS PARA UM BOM ACOMPANHANTE

Veja quais são as características desejáveis num acompanhante de idosos:

  1. Ter interesse por eventos culturais: conhecer as peças de teatro e concertos de música que estão em cartaz, locais de lazer e outros eventos é fundamental.
  2. Ser um explorador da cidade: saber como se locomover ou onde levar o idoso é importante para o profissional.  Por isso, ele precisa se planejar para explorar a cidade em que trabalha.
  3. Pensar no interesse do outro: o acompanhante deve sempre pensar no que o idoso gostaria de fazer para incentivá-lo a sair de casa. Caso saiba que seu cliente tem interesse em algo que você não conhece, vale a pena estudar um pouco sobre o assunto.
  4. Ser paciente: lidar com os desejos e, mais, com as limitações do outro exige uma dose de paciência.
  5. Seguir as regras de etiqueta: vestir-se de acordo com a situação, comportar-se adequadamente e evitar gírias ao falar conta pontos a favor do acompanhante.

DIFERENTE DE CUIDADOR DE IDOSO

Diferente de cuidador de idoso

É preciso atenção para não se confundir. O acompanhante cultural não é um cuidador, profissional preparado para lidar com o envelhecimento e suas consequências, que tem foco no cuidado. “O acompanhante está preparado para entreter o idoso, conversar sobre o passeio que acabaram de fazer. Mas se a pessoa precisa de cuidados específicos, o ideal é que o cuidador ou alguém da família o acompanhe durante a saída”, explica Rita Amaral, da ONG OLHE.