Especial

Um convite para falar de amor

Como um simples trailer se transformou numa jornada para discutir amor e relacionamentos na terceira idade

Lilian Liang

Capítulo 1 – A ideia
“Lili, o projeto é lindo, mas não sei se a indústria vai se interessar em patrocinar”, disse Debora Alves, gerente de marketing da Dínamo Editora. Sempre ponderada, ela se referia à ideia de um cinedebate que eu estava pensando em fazer, a partir do trailer do documentário “The Age of Love” (“A Idade do Amor”, em português). O diretor Steven Loring contava a história de idosos que participavam de evento de speed dating (eventos rápidos), abordando suas expectativas, sonhos e experiências. Num mundo em que a velhice é sempre associada a doença e perda de autonomia, falar de relacionamentos e a possibilidade de novos amores era uma brisa de ar fresco.
Debora tinha razão. Procuramos por patrocinadores por meses, mas embora todos se encantassem com o projeto, nenhum deles se animou a bancar a iniciativa. Além de o envelhecimento ser uma causa nova, a economia em 2015 não era das melhores.
Resolvemos, então, fazer como uma ação da própria Dínamo Editora. Em parceria com a consultoria Angatu IDH e o Centro de Referência do Idoso da Zona Norte (CRI Norte), realizamos duas sessões do cinedebate, com exibição do documentário legendado em português, seguida de uma discussão liderada pelas psicólogas Isabella Quadros e Valmari Cristina Aranha. Cada sessão contou com 150 idosos, de diferentes centros de convivência de São Paulo, que se divertiram e se emocionaram com o documentário. Minha intuição se confirmou: os idosos queriam falar de amor e participaram ativamente do debate. Quem disse que amor e terceira idade não combinam?

Capítulo 2 – A corrida
Depois dessa experiência, percebemos que o cinedebate tinha potencial para se tornar um projeto mais amplo. Submetemos então uma proposta ao PROAC – Programa de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo, que permite que empresas apoiem projetos culturais através de leis de incentivo.
O projeto enviado era composto de 10 sessões do cinedebate, juntamente com instituições parceiras. Os participantes receberiam um kit lanche e, caso fosse necessário, teriam transporte à disposição. Nosso objetivo? Incentivar a população 60+ a falar de amor e relacionamentos, porque eles são fundamentais para um envelhecimento de qualidade. Queríamos tirar o foco do binômio saúde-doença e trazê-lo para a construção de relações, amizades e redes. O projeto também previa uma 11a sessão, voltada para profissionais que trabalham com o envelhecimento.
O projeto foi submetido em março de 2016 e aprovado em agosto do mesmo ano, para nossa alegria. Entre os potenciais parceiros, foi o laboratório Aché, um dos maiores players da indústria farmacêutica nacional, que abraçou a causa e patrocinou a proposta. Para eles, o cinedebate era uma oportunidade para falar de longevidade de uma forma inovadora e em toda sua diversidade. Recebemos a boa notícia com festa e arregaçamos as mangas. Era hora de colocar o bloco na rua.

Capítulo 3 – O começo
No papel tudo funciona perfeitamente, mas na prática a história muda – imprevistos acontecem, agendas não batem, prioridades mudam. Felizmente, tínhamos uma equipe altamente engajada, com profissionais que muitas vezes assumiram responsabilidades que nem lhes diziam respeito e driblaram problemas sem nunca perder o bom humor.
Depois de muita expectativa, a ação foi finalmente inaugurada no dia 27 de setembro. As duas sessões iniciais aconteceram dentro da programação da Virada da Maturidade – a primeira na Unibes Cultural e a segunda no Espaço Itaú de Cinema Augusta. E, como no projeto piloto, os idosos se divertiram e se identificaram com muitas das situações retratadas no filme. As discussões, lideradas pelas psicólogas Isabella Quadros e Valmari Cristina Aranha, traziam reflexões alegres, tristes, engraçadas e sempre muito ricas. Mesmo os jovens que estiveram na segunda exibição participaram do debate, relatando suas experiências como filhos e netos. Falar de amor, quem diria, dava pano para promover também um diálogo intergeracional!

Capítulo 4 – As sessões
Os números não mentem: o envelhecimento é um fenômeno feminino. Todas as sessões tinham um público sempre composto majoritariamente por mulheres.
Além da Unibes Cultural e do Espaço Itaú de Cinema Augusta, o documentário foi exibido nos seguintes locais: NCI Capão Redondo, Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia, SESC Bom Retiro, PUC-SP, Congregação Israelita Paulista, Espaço Itaú de Cinema Shopping Bourbon, Enkyo e CRI Norte, com um público médio de 100 pessoas.
O projeto previa que as sessões acontecessem para audiências variadas e em diferentes regiões da cidade, exatamente para atingirmos idosos de realidades distintas. Essas diferenças ficaram muito claras durante as exibições. Um exemplo: em locais menos privilegiados e com menos acesso a cultura, o conceito de speed dating era algo completamente novo e tinha que ser explicado na discussão; nas regiões onde os participantes tinham maior poder aquisitivo e mais acesso a cultura, já havia uma familiaridade com o conceito e as nuances eram mais facilmente compreendidas.
No entanto, essas diferenças contavam muito pouco nas conversas que seguiam o filme, já que todos tinham uma experiência para contar. Um dos aspectos mais gratificantes era o fato de muitos participantes se sentirem à vontade o suficiente para compartilhar seus sentimentos e desejos. “Sou viúva há 20 anos, graças a Deus, e não pretendo ter outro relacionamento”, disse uma das idosas participantes na CIP. “Se eu encontrasse alguém como o Jon (um dos personagens do filme), aí estaria aberta para outro relacionamento”, disse outra senhora, no SESC Bom Retiro. “Casamento é muito difícil e eu e meu marido somos casados há 50 anos”, disse uma outra idosa, recebendo aplausos. “Mas hoje somos só amigos, se é que vocês me entendem”, completou, enquanto a plateia caía na risada.
Um dos poucos homens que se manifestaram nas sessões foi um senhor que completaria 90 anos no dia seguinte ao da exibição. Prestes a entrar na centésima década de vida, ele dividiu sua sabedoria: “Muita gente deixa se relacionar porque o/a companheiro/a anterior causou muito sofrimento. Mas o que a nova pessoa tem a ver com isso? Temos que estar abertos a novas pessoas e novas experiências.”
Os participantes eram convidados a responder um breve questionário no final das sessões, com perguntas como “Você gostaria de ter um namorado?” ou “Você participaria de um evento de speed dating?”. Para nossa surpresa, grande parte dos idosos responderam sim para as duas perguntas.

Capítulo 5 – O outro lado
Falar de amor, sexo e relacionamentos ainda é tabu na terceira idade. Por isso, muitos idosos deixam de mencionar a solidão, a falta de contato (inclusive físico) e a ausência de uma rede de amigos como fatores que impactam a qualidade de vida no envelhecimento.
Por outro lado, os próprios profissionais não estão preparados para abordar tais temas. Diante de uma conversa delicada sobre as dificuldades do sexo ou a importância de uma rede de suporte, muitos preferem se esquivar. As consequências disso já começam a aparecer: com aplicativos de paquera cada vez mais populares, medicamentos para disfunção erétil cada vez mais disponíveis e a ausência de uma cultura de uso de preservativos, o índice de soroprevalência na população idosa só faz aumentar.
Veio desse descompasso a ideia de fazer também um workshop para profissionais que trabalhem com o público 60+. O projeto não pretende apenas incentivar os idosos a falar sobre esses assuntos, mas também preparar os interlocutores para tanto. Assim, após a 11a exibição, haverá um bate-papo com o diretor do documentário Steven Loring (veja entrevista exclusiva no box); com a presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Carmita Abdo; e a psicóloga do Serviço de Geriatria do HCFMUSP Valmari Cristina Aranha.
Estudos mostram que relacionamentos, sejam eles amorosos ou não, contribuem amplamente para a longevidade. Sabe-se que ter um parceiro para a vida adiciona três anos à expectativa de vida. Com o cinedebate, nosso desejo é estimular essas conversas, de modo que idosos e profissionais entendam que se trata de um aspecto essencial para um envelhecimento produtivo e de qualidade.

Capítulo 6 – As lições
As lições que aprendemos com esse projeto não são particularmente inéditas, mas quantas vezes esquecemos do que está bem na nossa frente? De tão óbvio, muitas vezes um fato acaba se tornando novidade. É como olhar para seu companheiro de anos e, de repente, se lembrar de todas as razões por que se apaixonou por ele.
Talvez a principal lição do cinedebate tenha sido a confirmação de que amor e relacionamentos são temas universais, que interessam a todos, independentemente da idade, do sexo, da localização, do nível socioeconômico ou cultural. Todo mundo quer viver ou já viveu uma história de amor. Todo mundo quer se relacionar. Todos buscam companheirismo, identificação, senso de pertencimento. Porém, apesar da obviedade, continuamos excluindo os idosos dessa troca tão bacana e fundamental, baseados num critério tolo e, ouso dizer, preconceituoso, de idade.
No caso do cinedebate, a bagagem dos participantes é que tornou tudo mais interessante. Ser confrontado com os desejos, os sonhos e as expectativas de quem muitas vezes tem o dobro da sua idade foi realmente um privilégio, que por si só já teria valido todo o trabalho envolvido na concretização desse projeto.
Termino com uma história que resume bem as experiências vividas nessa iniciativa. Numa das sessões, fui cumprimentada por uma senhora que, conversa vai, conversa vem, disse que não tinha nenhum interesse em ter um novo relacionamento, pois já era viúva há 50 anos. Ao final do filme, veio novamente conversar comigo, dessa vez animadíssima: “Vocês precisam fazer um evento desses pra gente! Eu ajudo a organizar!”. Para ela, não ficou dúvida de que se relacionar pode ser algo saudável, desejável e até divertido, mesmo que ela mesma não quisesse um novo relacionamento. Para nós, foi a maior prova de que nossa missão estava sendo cumprida.