Opinião

Vacinas: um dos pilares da prevenção para o envelhecimento saudável

Por Maisa Kairalla*

As doenças infecciosas são responsáveis por elevadas taxas de morbidade, internações e mortes em idosos. A importância clínica das infecções nesta população está relacionada a menor capacidade de reserva funcional, alterações nos mecanismos de defesa (disfunção imunológica e alterações intrínsecas à fisiologia do envelhecimento) e concomitância de doenças crônicas degenerativas. É sabido que a imunização é uma das armas que temos à mão para usar na prevenção de doenças.

Os conhecimentos desses fatos implicam na discussão sobre a utilização da prática de imunização específica em idosos. Com a ênfase sendo dada as medidas de prevenção e promoção de saúde, médicos e outros profissionais da saúde devem se responsabilizar pela orientação da população geriátrica e seus familiares quanto a necessidade da utilização deste recurso simples e de comprovado custo-benefício.

Os benefícios das vacinas para a saúde da população são inquestionáveis. Porém, ainda não alcançamos os índices dos programas pediátricos entre a população idosa. Em comparação aos adultos jovens, o público 60+ tem maior risco de adquirir doenças infecciosas, aumentando o número de hospitalizações, morbidade e a mortalidade. Sem dúvida, é nesse grupo que encontramos a maior lacuna entre a possibilidade e a necessidade da utilização dos recursos de imunização, bem como o desconhecimento dos profissionais sobre as indicações formais e precisas da vacinação.

Para a população idosa imunocompetente, a SBIM (Sociedade Brasileira de Imunização) e a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) preconizam a utilização das vacinas: influenza, infecções pneumocócicas, tétano-difteria, hepatite A e B e herpes zoster. No caso da febre amarela, o idoso deve ser vacinado nas mesmas condições do restante da população, ou seja, em caso de viagem ou moradia em locais de risco, tendo sua condição avaliada pelo seu médico. Esse profissional analisará os riscos e os benefícios segundo cada indivíduo, em especial se ele apresentar alguma doença.

Vale ressaltar que algumas doenças de incidência na infância, como sarampo, caxumba, coqueluche e rubéola, e passíveis de prevenção com a vacinação, também podem acometer os adultos. No entanto, essas doenças apresentam menor taxa de incidência em adultos do que em crianças e, por isso, nenhuma dessas vacinas tem indicação formal na população geriátrica.

A prevenção ganha ainda mais peso quando se sabe que a população geriátrica apresenta importante declínio funcional após um evento estressor, como infecção ou internação hospitalar. Um exemplo disso é a pneumonia, cuja incidência aumenta com a idade e o número de comorbidades e que não raro leva a interações hospitalares. Metade das internações pela infecção no Brasil são de pacientes idosos.

Outro exemplo é a herpes zoster e sua principal complicação, a neuralgia pós-herpética. Trata-se de uma afecção que causa grande impacto na qualidade de vida, promovendo disfunção para as atividades da vida diária e maior dependência. Estima-se que 1 em cada 3 idosos a partir dos 75 anos poderá apresentar a doença.

Sabe-se também que idosos portadores de comorbidades como o diabetes melittus, pneumopatias ou cardiopatias, apresentam maior incidência de doenças infecciosas, em especial influenza e pneumonia. No entanto, uma vez infectados, sofrem uma exacerbação dos sintomas clínicos, com maior taxa de incidência de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, entre outras complicações.

A imunização deve estar presente do nascimento à velhice. Do lado dos profissionais, a vacinação deve ser encorajada como prática médica e fazer parte da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA). Do lado do paciente, a educação sobre a vacinação é fundamental para evitar doenças e promover qualidade de vida e saúde na velhice. No Brasil, a adesão dos idosos às campanhas de imunização ainda é baixa, em parte devido ao desconhecimento e até um certo estigma em relação à segurança e à efetividade da vacinação.

Por isso, é fundamental trazer o tema à reflexão e ampliar o conhecimento sobre ele, de forma a reduzir as barreiras que impedem o idoso de aderir à imunização como ferramenta de prevenção de doenças. Mesmo que ele já tenha sido imunizado quando criança ou na idade adulta, é recomendada a vacinação a partir dos 60 anos, quando, devido ao envelhecimento, pode haver uma baixa no sistema imunológico, responsável por garantir as defesas de seu corpo contra doenças.

A educação para o envelhecimento saudável está diretamente relacionada à prevenção. Assim, é preciso lembrar a a importância de se ter uma vida saudável, em que sejam incluídas uma alimentação saudável, uma rotina de atividades físicas e medidas como a vacinação.

O envelhecimento precisa ser planejado, tanto nas esferas social, econômica e saúde. A prevenção é uma forte – talvez a principal – aliada para o envelhecimento bem-sucedido. Neste cenário, a vacinação deve ser promovida e encorajada em benefício de um melhor envelhecimento.

Leitura recomendada:

1. Tratado de Geriatria e Gerontologia – 4ª Ed. 2016, capítulo Vacinas

2. Guia de Vacinação Geriatria 2016/2017 – SBIm e SBGG

3. Calendário CDC ACIP 2016/2017