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Mercado imobiliário se prepara para atender público sênior

Por Sílvia Souza

Lugar de idoso não é numa instituição de longa permanência, mas sim em uma moradia que facilite a integração social entre várias gerações, que motive a mobilidade e incentive a prática de atividades físicas. Essa é a ideia do arquiteto alemão Mathias Hollwich, que passou a pesquisar a velhice e sua integração com a sociedade e a arquitetura quando completou 40 anos. Nesse momento, ele se deu conta de que, de acordo com as estatísticas, já havia vivido metade de sua vida e se propôs a descobrir como poderia viver dali para a frente com mais qualidade, pleno e feliz. De tudo que viu, surgiu o livro New Aging – Live Smarter Now to Live Better Forever (algo como Novo Envelhecimento: viva de forma mais inteligente agora para viver melhor para sempre), ainda inédito no Brasil.

Para ele, a sociedade precisar criar mecanismos para incorporar e manter ativas as pessoas com mais de 60 anos e a arquitetura é um dos pilares que possibilitam isso. Casas adaptadas e construídas em meio a uma estrutura que motive a integração devem ser uma realidade e são fundamentais para a população que chega na velhice.

Vida mais produtiva e saudável

Suas ideias vão ao encontro do que os especialistas veem em seu dia-a-dia: idosos mais ativos, produtivos e com vontade de manter sua independência pelo maior tempo possível. Para isso, é preciso viver em um ambiente que permita essa possibilidade. Essa discussão ainda é recente por aqui, mas é um assunto em alta em muitos países, como os Estados Unidos. Se a ideia é não precisar de uma instituição de longa permanência, por que não viver em um edifício voltado à senioridade? De olho nisso, construtoras começam a criar projetos que visam manter a vida produtiva aliada aos cuidados exigidos nessa faixa etária. “Empreendimentos planejados para esta faixa etária conseguem prover maior segurança, normalmente pensam nas questões da sociabilidade e serviços que são necessários para este público. Como todo negócio, quando ele é idealizado para um nicho de mercado, ele prevê a maioria de suas necessidades”, explica a mestre em gerontologia Denise Mazzaferro, da Angatu Integração e Desenvolvimento Humano, de São Paulo.

A Tecnisa é uma das construtoras que tem um projeto novo com essas características. Chamado Senior Living, será instalado dentro do bairro planejado Jardim das Perdizes, em São Paulo. Além de apartamentos equipados, o prédio ainda terá elevador com espaço para maca, enfermeiro de plantão e área comum estilo clube, com sala de ginástica, salão de jogos, área de caminhada, salão de beleza, biblioteca, restaurante e até área para instalação de consultórios médicos. O morador terá à disposição serviço de administração de medicamentos, cuidadores para apoiá-los em suas atividades diárias, acompanhamento nutricional e até atendimento de urgência. A ideia é que o edifício seja gerido por uma bandeira hoteleira e conte com a prestação de serviços assistenciais de um hospital.

Moradia adaptada é tendência

Para Denise, nos próximos anos as moradias voltadas aos idosos devem virar tendência já que estão diretamente ligadas ao envelhecimento populacional. “O mercado deve ampliar todos os produtos e serviços para atender esse novo nicho”, diz.

O Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais (Secovi) não tem estatísticas a respeito dessa nova fatia de mercado, mas sabe-se que devem aparecer novidades por aí nos próximos anos. “A população brasileira está envelhecendo, e é de suma importância pensar em atender esse público. O Brasil, que sempre foi um país de jovens, está se preparando em vários aspectos para o envelhecimento populacional e o mercado imobiliário não pode ficar de fora. O primeiro passo do setor é tornar as unidades adaptáveis até chegar ao atendimento do desenho universal”, explica Flavio Amary, presidente do Secovi-SP.

Outra construtora que está se preparando para essa realidade é a Vitacon. Ela se prepara para lançar nos próximos anos, em São Paulo, um empreendimento funcional para ser habitado por idosos e pessoas com necessidades especiais. O projeto prevê apartamentos com portas com vãos maiores, barras de apoio nos banheiros, piso antiderrapante nas áreas molhadas, ambientes sem degraus, tomadas em altura acessível e botão de alarme dentro das unidades para acionar a portaria em caso de alguma emergência. Além disso, os moradores receberão uma pulseira que monitorará seus sinais vitais. As áreas comuns terão mobiliário com apoio para braços e os tapetes serão banidos. Contará ainda com sistema pay-per-use (você só paga o que usa) de cuidadores, fisioterapeutas e profissionais especializados.

Na capital mineira, a Talent Construtora também tem essa preocupação. Embora não seja totalmente voltado à melhor idade, o edifício Bossa Nova, já em construção, tem à disposição dos interessados a planta Care+. Nesse caso, o apartamento conta com portas e corredores mais largos, quinas abauladas, tomadas mais altas, fechadura invertida para facilitar o manuseio, piso antiderrapante e sem brilho, barras de apoio nos banheiros, banco basculante dentro do box do chuveiro e botão de emergência. Serviços como supervisão médica e fisioterapia estão previstos no projeto, assim como uma academia totalmente preparada para o público 60+.

Mais do que adaptar os ambientes, todos esses empreendimentos têm um foco na qualidade de vida, fator que se mantém essencial quando o assunto é longevidade. Por isso, as áreas comuns são voltadas para atividades que atraem o público sênior e que permita que ele tenha contato com outras pessoas, mantendo sua vida ativa e ao mesmo tempo cercada de cuidados.

COHOUSING É OUTRA POSSIBILIDADE DE HABITAÇÃO

Além desses novos edifícios, começa a surgir um outro tipo de moradia que pode atrair o público sênior. São as cohousings, uma espécie de vila comunitária de casas ou apartamentos com alguns serviços compartilhados como cozinha, biblioteca, área de lazer, sala de atividades e outras mordomias que atendam à necessidade dos moradores. Ainda recente no Brasil, esse conceito existe desde a década de 60 na Dinamarca e desde os anos 80 nos Estados Unidos, com foco multigeneracional. Por aqui, um dos primeiros empreendimentos desse tipo está sendo em fase de planejamento. A Vila ConViver é uma iniciativa dos professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e visa a troca de experiência entre o grupo e o apoio mútuo. Nesse caso específico, o empreendimento será totalmente voltado ao público idoso, mas isso não é uma regra.

A psicóloga Lilian Shibata, fundadora da Aqal Consultoria, vem estudando o assunto há anos e para ela uma das vantagens desse tipo de moradia é unir diferentes gerações num mesmo espaço. “O fato de poder fazer trocas com crianças, adolescentes e pessoas de outra faixa etária traz uma gama de estímulos e desafios para o idoso. Além disso, foi feito um estudo que mostrou que uma das premissas básicas que garantem sobrevida com saúde, seja espiritual, emocional ou física, às pessoas é a rede de relacionamentos que ela constrói de amigos ou familiares ao longo da vida. Isso é importante para manter a longevidade saudável”, diz Lilian. Mas por outro lado, sabe-se que pessoas nessa faixa etária querem manter a sua solitude – um estado de privacidade, mas sem se sentir só. Portanto, a cohousing se encaixaria perfeitamente nesse conceito. “A população de mais de 50 anos quer um canto para chamar de seu, mas ao mesmo tempo quer compartilhar uma área de alimentação, uma lavanderia, uma biblioteca, fazer uma pequena horta com os vizinhos ou participar da coleta e reutilização de materiais sustentáveis”, diz a psicóloga, que junto com duas arquitetas criou até um projeto de implantação de cohousing, o Viver 21.  Para ela, esse espaço é ideal para o idoso por que consegue manter sua independência e autonomia. “E ele tem ao seu redor uma rede de afeto, de troca, de respeito um ao outro, que garantem uma longevidade saudável”, completa.

QUANDO A OPÇÃO É CONTINUAR NA PRÓPRIA CASA 

Ainda que existam outras opções de habitação, há uma parte dos idosos que não quer sair da própria casa. Na maioria das vezes, o local está rodeado de boas lembranças e histórias que não devem ser esquecidas. “E isso faz muito sentido”, diz a arquiteta Flavia Ranieri, especialista em gerontologia. Pensando nisso, ela criou a Casa que Envelhece com Você. Trata-se de um projeto arquitetônico que será apresentado na próxima edição da Casa Cor São Paulo.

“Quero mostrar que é possível ter uma casa bacana, mas com alguns cuidados que irão deixar o dia-a-dia do idoso muito mais fácil”, diz a arquiteta. Ela explica que adaptar o espaço não significa tirar objetos e móveis da frente ou jogar fora itens considerados perigosos, mas sim ajustar, mudar de lugar ou trocar a função de um determinado objeto, preservando a memória e a identidade da pessoa. Um exemplo clássico é o tapete. Se ele se tornou algo perigoso pois pode provocar uma queda, uma solução é pendurá-lo na parede criando um lindo painel. Ou reorganizar a cozinha e instalar prateleiras mais baixas que permitem que o morador tenha acesso a todos os seus utensílios sem que seja preciso subir num banquinho. Isso permite manter a sua independência, a sua identidade e faz com que o idoso se sinta confortável e seguro no local que ele sempre morou.