Tendências

Aplicativos para idosos, um mercado cheio de desafios

O celular, o tablet e, em menor medida, o computador não são apenas objetos de desejo dos jovens. Cada vez mais a população que está no topo da pirâmide etária tem atração por esses equipamentos. De 2005 a 2011, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) –, aumentou em 222,3% o número de brasileiros com 50 anos ou mais de idade que acessaram a internet.

Entre as faixas etárias pesquisadas, essa foi a que teve maior crescimento relativo no período, de acordo com o instituto. Em dados populacionais, isso significa que mais de 5,6 milhões de pessoas acima de 50 anos passaram a acessar a internet.

É um número ainda pequeno se comparado a outras faixas etárias, mas certamente é um contingente que tende a crescer, segundo avaliação de especialistas da área.

Em razão desse cenário, cresce paralelamente o desenvolvimento de aplicativos – os chamados apps (termo que vem do inglês application) – voltados para a turma que já passou dos 60 anos. “É um mercado em pleno desenvolvimento, muito atrativo, que certamente irá atingir patamares bem elevados nos próximos anos”, prevê Evandro Abreu, consultor em tecnologia da informação da consultoria Provider, no Rio de Janeiro.

No entanto, ele faz algumas observações para quem transita nessa área. “As empresas que desenvolvem softwares vão ter de pensar diretamente nesse público, o que eu não vejo ocorrer agora”, afirma. Com base em sua experiência como desenvolvedor de sistemas, ele acha que ainda falta, para quem trabalha no setor, uma compreensão maior das necessidades e dificuldades do idoso. “Os produtos carecem do conceito de usabilidade – traduzindo, não oferecem facilidade de navegabilidade”, explica Abreu.

“Existem alguns fatores inibidores para o idoso não utilizar tanto os aplicativos. Um deles é o receio de estar muito vulnerável. Ele evita também porque não compreende bem a que se destina o aplicativo e porque não tem o seu domínio”, observa. O aplicativo mais utilizado, sem dúvida, é o WhatsApp – um dispositivo de comunicação. Já o internet banking, para acesso em contas bancárias, é o mais temido. “O WhatsApp seduz porque é simples, objetivo. E é assim que esse tipo de produto deve ser”, diz Abreu.

O mercado brasileiro, segundo o especialista, caminha a passos mais lentos que o internacional. “É claro que isso tem a ver com a cultura da longevidade, mas sinto que aqui há um enorme potencial. É necessário afinar a linguagem e os produtos às demandas desse público”, insiste.

Luciano Palma, engenheiro eletrônico e também desenvolvedor de aplicativos, usa o termo “oceano azul” para se referir ao espaço que há para esses produtos. “Há poucos concorrentes ainda. Quem souber ocupar esse nicho vai nadar de braçada”, garante. Mas, segundo ele, a realidade do país não leva muito em consideração o público idoso. “No geral, a população tecnologicamente ativa no Brasil ainda é muito pequena. E está mais concentrada na classe média e média alta, e, claro, entre os jovens.”

Palma lembra que os sistemas operacionais Android e iOS têm boa acessibilidade. “Eles oferecem recursos interessantes, para melhorar a leitura e a audição. Também têm um sistema para controlar os cliques em pessoas que têm doença de Parkinson. É preciso habilitar um dispositivo que não entende os toques consecutivos como um duplo clique”, afirma. “Ou seja – os sistemas de base estão preparados para isso, mas quem faz os apps tem de estar preparado também, o que não acontece.”

Entre os aplicativos brasileiros, chama atenção o desenvolvido pelo médico Paulo Camiz, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e médico do Hospital das Clínicas. Denominado Mente Turbinada, o produto foi elaborado há quatro anos pelo especialista, em conjunto com uma equipe de neuropsicólogos, e conta com cerca de 40 mil usuários. Ele pode ser usado gratuitamente até certo ponto. Caso a pessoa queira se valer de mais recursos, deverá pagar pelo uso. O objetivo, como diz o próprio nome, é estimular o desenvolvimento cerebral. São oferecidos jogos que trabalham atenção, concentração e memória.

Outro produto brasileiro que merece destaque, embora não esteja ainda disponível para o público em geral, foi elaborado numa parceria entre o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação de São Carlos (ICMC), da USP, e o curso de gerontologia da mesma universidade, que funciona na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH).

“O SENSEM é um aplicativo que vem sendo desenvolvido desde 2016 pelo meu grupo no ICMC”, explica a professora responsável pelo sistema, Maria da Graça Pimentel.

“O objetivo do aplicativo é permitir o acompanhamento remoto de indivíduos de modo programado e customizado. Por exemplo, esse acompanhamento se dá por meio de um programa planejado por profissionais de saúde que acompanham seus pacientes, ou por profissionais de educação que acompanham seus alunos”, diz Maria da Graça.

A colaboração com a EACH permitiu que, desde o segundo semestre do ano passado, o aplicativo fosse utilizado como ferramenta de apoio à aprendizagem dos alunos dos cursos de introdução ao uso de smartphones do ICMC e da EACH, ambos no contexto da Universidade Aberta à Terceira Idade da USP.

Nesse caso, o aplicativo funciona com um ajudante digital para os idosos: são enviadas para o grupo de alunos mensagens, programadas pelos profissionais que ministram o curso, com lembretes sobre o conteúdo e com instruções para a realização de atividades diárias. “Em comparação com turmas anteriores, temos notado que o uso do SENSEM como ajudante digital tem estimulado os idosos a interagir mais com os aplicativos ensinados em sala durante o curso. Como resultado, eles acabam revendo o conteúdo e levam dúvidas para a aula seguinte. Temos percebido, ainda, maior autonomia no uso dos smartphones”, afirma Maria da Graça.

Ela conta que, no âmbito da universidade, há outros projetos nessa linha. “O SENSEM é um aplicativo flexível que pode ser utilizado em vários contextos e, inclusive, de modo integrado a outros aplicativos. Fizemos, entre outros, a integração com jogos simples desenvolvidos por nosso grupo para o público idoso. Além disso, com o SENSEM está sendo realizado um estudo, em parceria com pesquisadores do Reino Unido, com o objetivo de diminuir o sentimento de solidão de idosos que moram sozinhos. Outro trabalho em andamento é um programa de apoio a cuidadores de idosos com demência, em parceira com pesquisadores da USP/Ribeirão Preto.”

Para garantir boa usabilidade – um item nem sempre observado por desenvolvedores de softwares, segundo aponta Evandro Abreu –, na elaboração do SENSEM estão sendo utilizados recursos de navegação e de design de interface similares aos de outros aplicativos que usuários de modo geral, e idosos de modo particular, já conhecem.

Maria da Graça compactua com a fala de Abreu. Para ela, ainda faltam produtos de fato adequados ao público idoso, que sejam projetados para eles, particularmente.

A mesma impressão do mercado tem os professores de tecnologia para idosos ouvidos pela reportagem: Ana Nakamura, Gisnelli Mincache e Gastão de Freitas – todos com mestrado em gerontologia social na PUC-SP.

“Eu sinto que os sistemas aqui ainda são pouco atraentes para o idoso. Porque ele tem receio de usar, porque não se sente seguro, acha difícil, porque o aplicativo não é de fato feito para ele, mas muitas vezes para quem vai cuidar dele, como um filho, por exemplo. Outro fator que pega: muito idoso não gosta de ser visto como idoso. Então é preciso fazer algo que atenda a uma necessidade própria do envelhecimento, mas sem deixar isso muito claro. É um mercado cheio de desafios, mas com muitas demandas”, diz Gisnelli.

Ana Nakamura acredita que os desenvolvedores devem investir mais no chamado design universal (ou total, inclusivo). Ou seja, aquele que é acessível a todos. “Meus alunos relatam dificuldades no manuseio de vários aplicativos. Os produtos precisam evoluir”, pontua.

Gastão também segue a mesma linha de raciocínio das colegas. “Percebo que a maioria dos meus alunos não se sente confortável ao usar alguns aplicativos, por não serem acessíveis e não atenderem de fato às especificidades desse público. Temos um longo caminho a percorrer aí. Mas é claro que é um mercado que vai evoluir. O idoso do futuro já estará mais familiarizado com a tecnologia. Agora, é preciso pensar no conteúdo desses produtos e na forma como ele será apresentado para atrair os mais velhos.”

O geriatra Jader Santos Andrade aposta nesses produtos como um estímulo a mais para o idoso estar inserido na sociedade e também para que se sinta seguro. “É importante que o idoso tenha noção de que esse mercado existe, para que possa escolher se quer ou não utilizar essas ferramentas.” Ele ressalta, porém, que os produtos não são para todos, obviamente, mas podem ser aliados importantes na hora de acessar a memória e no tocante também a questões de segurança.

Para as empresas que estão nesse segmento ou desejam entrar nele, o empresário Evandro Abreu deixa uma mensagem: “Não se esqueçam de investir em usabilidade. Lembrem-se de que a comunicação tem de chegar perfeitamente, sem interferência. Quanto mais intuitivo for um aplicativo, melhor – e isso vale não só para o público idoso, mas para todos. A questão da segurança é extremamente importante, e não vale apostar em produtos que se relacionem apenas a doença, deficiência. O idoso tem uma capacidade enorme de consumo e necessidade de integração – é preciso pensar em aplicativos mais lúdicos também.” No desenvolvimento desses apps, o ideal, diz Abreu, é mesclar pessoas de várias idades trabalhando e opinando no produto final.

UM MUNDO DE OPÇÕES

Uma pesquisa rápida na internet mostra que, de fato, há bastante oferta de aplicativos. Segundo os especialistas ouvidos, os que têm a função de segurança são muito procurados –mais cuidadores do que por idosos. Aqui, uma breve lista de alguns desses produtos:

  • iDosos: oferece tutoriais interativos, para explicar as funções básicas de um smartphone.
  • Phonotto: aumenta o tamanho dos ícones e aplica cores chamativas para facilitar a memorização.
  • Cartilha do Idoso: traz informações sobre direitos dos idosos, como aposentadoria e benefícios sociais, entre outros.
  • Easy Idoso: traz uma série de atividades voltadas para esse público e ajuda a encontrar serviços nas proximidades em que a pessoa está.
  • MyTherapy: ferramenta para lembrar a hora de tomar a medicação.
  • Onde Parei? e Parqd: facilitam a localização do carro, valendo-se de localizadores que registram onde ele foi estacionado.
  • 1password: reúne informações de senhas em um local só.
  • Fone Fácil (Elite): oferece um botão de emergência configurável para um contato específico. Útil para solicitar ajuda.
  • Estou Bem: na mesma linha do anterior, avisa aos familiares o que o usuário está fazendo.
  • Helpking: permite que o usuário acesse de qualquer lugar a rede de suporte ligada à assistência médica, polícia e bombeiros.