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Suicídio de idosos, um drama silencioso

É o tabu dos tabus. Se suicídio é um daqueles temas de que pouco se fala, o suicídio de idosos é simplesmente ignorado. E não porque seja raro, ao contrário. O índice de suicídios entre idosos é tão alto quanto o de adolescentes, estes sim, invariavelmente nas manchetes, na esteira de séries como 13 Reasons Why ou do fenômeno Baleia Azul. Ou celebridades, como a estilista Kate Spade e o chef e apresentador de TV Anthony Bourdain. Empresária bem-sucedida, casada, mãe de uma menina de 13 anos, Kate Spade, de 55 anos, foi encontrada morta no dia 5 de junho. No ano passado, ela tinha vendido sua empresa Kate Spade New York por 2,4 bilhões de dólares. Kate lutava havia anos contra uma depressão. Três dias depois, foi o suicídio do chef, escritor e apresentador de TV Anthony Bourdain, de 62 anos, que chocou o planeta.

O lado positivo dessas histórias, se é que se pode dizer isso, é que sua divulgação tira o suicídio daquele canto escuro do armário e o transforma em objeto de discussão. O fenômeno é mundial e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma prioridade para a saúde pública. De acordo com a OMS, 800 mil pessoas cometem suicídio a cada ano em todo o mundo e 78% deles ocorrem em países de renda média ou baixa. Um suicídio abala pelo menos dez pessoas. O suicídio é a segunda causa de morte na faixa dos 15 aos 34 anos, e o principal fator de risco na população em geral é uma primeira tentativa. Nos países ricos há uma associação clara entre transtornos mentais, notadamente depressão e consumo de álcool, mas muitos casos ocorrem de forma impulsiva, diante de uma situação como perda financeira, perda de um cônjuge ou a notícia de uma doença grave. Situações como desastres naturais, guerra, violência, abusos e sensação de isolamento também aparecem como fatores. Refugiados, imigrantes, vítimas de discriminação e presidiários também registram índices de suicídio mais altos que os da população em geral.

Países como Canadá, Grã-Bretanha e Nova Zelândia implantaram com sucesso programas de prevenção. No Brasil, o Ministério da Saúde apresentou em 2006 a Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio, visando a diminuir as mortes, as tentativas, os danos associados e o impacto na família. No mesmo ano foi lançado o Manual de Prevenção do Suicídio para Profissionais das Equipes de Saúde Mental, para detectar precocemente condições associadas ao fenômeno e realizar medidas de prevenção.

Psiquiatra especializada em suicídio, Alexandrina Meleiro mantém a rotina de consultório, aulas e palestras em todo o país falando sobre o tema. Aposentada do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), a especialista ensina bombeiros e policiais a lidar com os chamados provocados por tentativas de suicídio.

 Aptare – Houve um aumento nas taxas de suicídio entre idosos?

Alexandrina Meleiro Não. Na verdade, pouco se fala do suicídio entre idosos, porque as taxas são estáveis há anos – e elas são quatro vezes maiores que nas demais faixas etárias. O que acontece é que as taxas de suicídio entre adolescentes e adultos jovens, na faixa dos 15 aos 34 anos, cresceram muito, particularmente nos últimos dez anos, o que chamou a atenção das autoridades de saúde e do público em geral. A cada 200 tentativas de suicídio entre adolescentes, uma têm êxito, por assim dizer. Mas, entre idosos, a cada quatro tentativas uma têm êxito.

 Aptare – Por que a letalidade é maior entre idosos?

Alexandrina – Porque o idoso é mais determinado. É preciso ter sempre em mente que o suicídio tem múltiplas causas, ao contrário do que diz o senso comum, que busca uma causa imediata para essa morte, como uma desilusão amorosa, a perda de uma fortuna ou algo assim, como vimos, aliás, nas reportagens sobre o suicídio das duas celebridades que você mencionou. Em princípio elas eram ricas, bem-sucedidas, famosas, e as pessoas têm uma sensação de estranheza porque, afinal, pareciam ter uma vida perfeita, ao menos na imagem pública que apresentavam. Na vida real, essas histórias são outras. Existem fatores sociais que pesam bastante, como idade, crença religiosa, orientação sexual, nível cultural, situação socioeconômica e inclusive a qualidade de vida no país em que se vive. Se é um país pobre, com altos índices de desemprego, educação de baixa qualidade, serviços de saúde precários, pensões e aposentadorias de valores baixos, esses índices são mais altos. Tudo isso contribui para intensificar a sensação de desesperança, que é um dos cinco Ds que indicam risco iminente de suicídio.

 Aptare – Quais são os outros?

Alexandrina – Desesperança, desespero, delírio, desamparo e depressão. E há também três Is que qualificam o sofrimento dessa pessoa: para ela, esse sofrimento é intolerável, parece interminável e insuportável. Transtornos como depressão, por exemplo, estão presentes em 94% dos suicídios, mas não são condição suficiente para provocá-los. No caso da depressão, por exemplo, 85% dos pacientes não pensam em morrer, mas 15% não só pensam como tentam. No adolescente, por exemplo, a dinâmica familiar pesa bastante, bem como a incapacidade de lidar com dificuldades. No idoso, são outros os fatores que pesam.

Aptare – Que fatores são importantes quando se trata do suicídio do idoso?

Alexandrina – Vamos considerar como idosa aqui aquela pessoa acima dos 65 anos. Nesses casos, temos depressão, dor física e problemas familiares, como perda de um cônjuge, a notícia de que ele sofre de uma doença grave como câncer ou Alzheimer, por exemplo, e isolamento social. Um fator vai se somando aos outros e potencializando cada um deles. Quando se pensa em risco de suicídio, para qualquer faixa etária, se pensa em algumas características importantes, começando pelo desejo de morte. É importante levar a sério quando alguém diz que preferia estar morto, que quer morrer e, no caso dos idosos, eles podem dizer que não querem mais ser um “fardo” para a família. Esse é outro sentimento comum aos suicidas, a menos valia, a impressão de que eles pouco importam, de que são inúteis, o que não é incomum num idoso que passou a vida trabalhando e, de repente, se vê aposentado sem ter o que fazer e sem se sentir necessário para nada. Não são raros os que vivem com filhos e netos e se sentem um estorvo. E a família nem percebe que seu idoso está com problemas.

Aptare – Como assim?

Alexandrina – Para a família, ele é um velho bonzinho, que não dá trabalho nenhum, pouco fala, não incomoda, não se queixa, fica ali “no canto dele” sossegado, o dia inteiro no computador ou na frente da TV. E isso pode ser um sinal de alerta, curiosamente tanto no idoso quanto no adolescente.

 Aptare – Você se refere às redes sociais?

Alexandrina – Também. Nas redes sociais, todo mundo parece levar uma vida maravilhosa e extremamente feliz e, de certa forma, as redes sociais escondem a depressão. Para quem não está bem, isso é o mesmo que ver que todo mundo está feliz, menos você. Essa é uma característica dessas relações virtuais. Um contato frente a frente com um amigo real, uma conversa cara a cara, deixaria perceber que aquela pessoa não está bem. Tanto adolescentes com ideação suicida como idosos passam muito tempo no computador lendo o que seus amigos virtuais estão postando, mas raramente eles mesmos postam ou interagem com as pessoas de suas relações. E eles também estão buscando na internet meios e métodos para cometer suicídio, estão pesquisando, procurando. A outra coisa que vale a pena mencionar é que eles vão atrás de conteúdos depressivos, tanto em posts e notícias como quando assistem a um filme ou série de TV que reforça a sensação de desesperança, de que a vida não vale a pena. Essas pessoas nunca vão atrás de um filme com uma bela história de superação.

 Aptare – O que as pessoas próximas podem fazer para perceber sinais de risco, por exemplo?

Alexandrina – A primeira coisa é tirar da cabeça essa ideia de que o idoso é uma pessoa normalmente triste e isolada. Quem convive com o idoso deve estar atento a mudanças de comportamento, inclusive em coisas cotidianas, como não tomar banho ou não trocar de roupa, ou aquela pessoa que costumava ser tranquila e passa a se mostrar nervosa e agitada. É importante dar atenção quando o idoso, ou qualquer pessoa, diz que a vida não vale a pena, que gostaria de sumir, desaparecer, ou que seria melhor para todos se ela morresse. Idosos que pensam em suicídio tendem a deixar tudo em sua vida arrumado: a casa, a papelada da casa, documentos… eles chegam a fazer testamento. Outra coisa importante é dar apoio em casos de diagnóstico de doenças como câncer ou Alzheimer, especialmente nos três primeiros meses, quando a pessoa fica mais vulnerável. Depois desse período, começa o tratamento, o paciente se sente melhor e mais fortalecido.

Aptare – Existem estratégias para lidar com essa sensação de menos valia a que você se referiu?

Alexandrina – Existem, claro. São coisas até bem simples, como permitir que o idoso se sinta útil na família, realizando pequenas tarefas, e estimular seu convívio social, a participação nos encontros de família, a convivência com antigos amigos de trabalho, a presença em grupos da igreja, se a pessoa for religiosa, acompanhar numa caminhada, que é uma boa oportunidade para conversar, manter um hobby, enfim, manter o idoso ativo e participativo em coisas que lhe deem prazer.

Aptare – Qual o papel do médico que acompanha esse idoso na questão da depressão e tendência ao suicídio?

Alexandrina – Um dos principais fatores que arrastam o idoso para esse quadro é sua saúde e, principalmente, a dor. Conviver com dor, e me refiro à dor física, não é fácil, e o idoso tende a apresentar condições crônicas que tornam, sim, a vida dele mais difícil, às vezes até com limitação de alguns movimentos. É importante que o médico dê atenção às queixas desse paciente e faça o possível para tornar sua vida mais confortável, especialmente se ele estiver numa fase mais difícil de alguma doença. Se alguém está em sofrimento, precisa ser cuidado. Em sofrimento, ninguém quer viver. E, se detectar sinais de depressão, encaminhar o paciente a um psiquiatra.

Aptare – Existe uma certa resistência, por parte do médico, a indicar um psiquiatra, e, por parte do idoso, a aceitá-la?

Alexandrina – Não se o médico abordar o assunto com naturalidade. O que muitas vezes causa resistência no paciente à ideia de consultar um psiquiatra é justamente a atitude do médico que faz a recomendação. Se ele tiver preconceito contra a psiquiatria, o paciente vai mesmo ser refratário à ideia. O papel do médico é desconfiar de uma depressão e encaminhar para tratamento, porque é difícil para o geriatra, o clínico ou mesmo o pediatra perceber ideação suicida numa consulta que costuma ser muito breve e focada nos aspectos físicos do paciente. Existem pesquisas que mostram que 70% dos suicidas passaram por alguma consulta médica 30 dias antes de cometer suicídio e esse profissional não percebeu sinais de que algo estava errado. É preciso que o médico também seja treinado para reconhecer os sinais de depressão.

Aptare – Existem programas governamentais focados na prevenção e na redução das taxas de suicídio?

Alexandrina – Existem. Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia e Canadá são alguns exemplos, e esses programas de prevenção começaram justamente por causa do aumento do número de suicídios entre jovens. Eles envolvem controle rígido do acesso a meios de suicídio, como pesticidas, armas e determinados medicamentos, introdução de políticas que reduzam o uso abusivo de bebidas alcoólicas, treinar jornalistas para noticiar o suicídio de forma responsável, identificar e atender pessoas com transtornos psiquiátricos e dependência química, dores crônicas e que estejam passando por momentos de grande dificuldade, treinar pessoal não especializado, como bombeiros, policiais e paramédicos, para identificar e saber lidar com suicidas, e manter programas de acompanhamento para pessoas que já tentaram suicídio. Há ainda intervenções pontuais muito interessantes, como a da ponte Mapo, em Seul, na Coreia do Sul. Muita gente se suicidava ali. Então a Samsung Life Insurance, com a ajuda de psicólogos e psiquiatras, instalou sensores no corrimão da ponte de modo que, quando a pessoa se apoia ali, frases e imagens para desencorajá-la aparecem. E a estratégia funcionou. Por aqui, infelizmente, o projeto de prevenção do suicídio, elaborado em 2006, continua engavetado no Ministério da Saúde.