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Gerontecnologia: muito além do atendimento em saúde

Por Renata Costa

As novidades tecnológicas que podem contribuir para que idosos permaneçam ativos na sociedade ou, em caso de necessidade de atendimento de saúde, recebam tratamento em casa ao invés de serem mantidos hospitalizados, enchem os olhos de especialistas em gerontologia, famílias e da imprensa em todo o mundo. No entanto, a gerontecnologia é mais do que simplesmente serviços e produtos que envolvem tecnologia voltados para a população com mais de 60 anos. Trata-se de uma área do conhecimento que está florescendo no Brasil, a exemplo do que acontece em outros países, e produzindo muita pesquisa com o objetivo de contribuir para a longevidade com qualidade de vida.

“Costumo definir gerontecnologia como um campo interdisciplinar de pesquisa científica em que a tecnologia é direcionada para atender às aspirações e proporcionar oportunidades aos idosos”, explica William Kerns, presidente da International Society for Gerontechnology e professor em Reabilitação e Aconselhamento em Saúde Mental pela Universidade do Sul da Flórida. “Ela tem como objetivo a boa saúde, a plena participação social e a autonomia do indivíduo até os anos mais avançados, por meio de pesquisa, desenvolvimento e design de produtos e serviços para melhorar a qualidade de vida”.

Para viabilizar os projetos de pesquisa, inovação e extensão, os pesquisadores do campo, nas universidades e institutos de pesquisa, contam principalmente com o financiamento de agências públicas como as Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No entanto, têm despontado parcerias com a iniciativa privada, por meio de empresas de todos os portes (das grandes até as startups).

 Tecnologia é apenas um pilar

Robôs que atuem como cuidadores, sensores que permitam que a família monitore a distância a frequência com que o idoso vai ao banheiro durante as madrugadas ou se ele tem saído de casa são apenas uma ponta – bastante inovadora, sem dúvida – do que é a gerontecnologia. No entanto, são as tecnologias do dia a dia adaptadas para os idosos o foco do campo. E isso não é simples como pode parecer.

“À medida que envelhecemos, nossas necessidades por produtos e serviços permanecem as mesmas, porque gostamos de nos comunicar com nossos entes queridos, precisamos de transporte, necessitamos comer, etc”, explica Kerns. “No entanto, devido a limitações sensoriais e físicas que ocorrem naturalmente com o envelhecimento, os produtos e serviços precisam ser modificados.”

O especialista cita como exemplo a perda de visão, que exige uma mudança no formato e no layout do telefone celular. Para ser usado com facilidade, a tela precisa exibir botões e imagens maiores para que o idoso tenha segurança e saiba quais comandos foram acionados. As limitações de memória do usuário idoso podem demandar que o telefone não tenha muitos recursos e aplicativos que sejam populares entre usuários mais jovens, mas que podem causar confusão em adultos mais velhos. Kerns cita ainda como exemplo a preparação de alimentos. “Imagine um idoso que vive sozinho e precisa de ajuda para abrir frascos difíceis. Um dispositivo simples pode ajudar, bem como um design melhor das embalagens plásticas”, diz.

“Ou seja, tudo isso diz respeito a abordagens de fatores humanos aplicadas a produtos e serviços para garantir que eles funcionem bem também para adultos mais velhos, não necessariamente apenas sejam exclusivos a eles”, afirma o especialista. Nesses casos, não basta apenas a tecnologia, já que é preciso design e orientação para que qualquer produto ou serviço seja efetivo para um idoso. E é isso que quem atua na área de gerontecnologia pode oferecer a empresas que queiram que seus produtos sejam usuais para o público com mais de 60 anos.

 Mais do que produtos e serviços

“Para além do desenvolvimento de produtos e serviços que contemplem as demandas das pessoas mais velhas, a gerontecnologia prioriza a inovação social, buscando as mudanças que permitam o pleno exercício da cidadania até em idades avançadas, considerando moradia, saúde, educação, lazer, cultura, trabalho, entre outros”, diz Marina Soares Bernardes, terapeuta ocupacional, mestre em bioengenharia e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Inovação e Tecnologia Assistiva (Lapitec) da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto.

A pesquisadora explica que, para a gerontecnologia, a silver economy (termo em inglês que designa a economia prateada ou economia do envelhecimento) não é um mercado, mas o que ela chama de “economia cruzada”. “O processo de envelhecimento da população é real e impacta todos os mercados, indústrias e setores, tais como os de transporte, hospedagem, indústria alimentícia, seguros, robótica, saúde e e-health, comunicação, internet, educação, esporte e lazer. Todos esses mercados já estão se adaptando ao processo de envelhecimento no mundo. No Brasil, este nicho importante é ainda pouco explorado. É, portanto, um campo aberto para novas oportunidades”. Para a gerontecnologia, segundo Marina, é preciso o desenvolvimento de uma economia que possa apoiar a população mais velha em suas necessidades em todos os aspectos da vida diária.

Marina cita a mobilidade urbana como exemplo. Considerando os meios de transporte, a sinalização de trânsito, a sensibilidade dos demais atores do trânsito em relação aos idosos e suas possíveis limitações, ela destaca ainda outros aspectos no contexto da economia prateada. “Esperamos que alguém tenha a sua habilitação para conduzir um carro pela primeira vez aos 18 anos, mas com as múltiplas velhices que vemos hoje, esse evento de vida poderá ocorrer aos 60 anos ou mais. Quem ensina os idosos a dirigir? Quais veículos podem ser mais adequados para eles? Quais as funcionalidades que um carro pode ter que favoreça o seu uso por um condutor mais velho? Quanto tempo um sinal de trânsito deverá durar para permitir a travessia de uma pessoa mais velha ou com mobilidade reduzida?”, questiona.

A resposta para essas e outras questões passa, segundo os especialistas da área, sempre por muita pesquisa, que una o conhecimento gerontológico aos serviços e tecnologias disponíveis ou a serem criados.

 Pesquisa avança em todo o Brasil

As pesquisas em gerontecnologia têm sido realizadas em diversos laboratórios em todo o país. Os estudos da área não só implicam ainda em atendimento comunitário – já que é essencial que toda a pesquisa seja feita com e para os idosos.

A fisioterapeuta Paula Costa Castro, professora do Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) destaca que, felizmente, há muitos centros no Brasil realizando pesquisas, a maior parte deles ligada a universidades. “Na região Sul, em Porto Alegre, o grupo de pesquisa Educação e Envelhecimento: múltiplas interfaces, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), se destaca por seu trabalho em educação ao longo da vida para empoderar as pessoas a envelhecerem participando ativamente da sociedade em seus papeis ocupacionais”, conta.

O desenvolvimento de instrumentos de avaliação e técnicas de intervenção usando tecnologia para monitoramento de quedas, treino cognitivo, aproximação das relações sociais e o papel ativo da população mais velha na rádio e no ciberespaço são os projetos do Programa de Pós-Graduação em Envelhecimento Humano da Universidade de Passo Fundo. Outro destaque que ela faz na região Sul é do projeto Inclusão Digital para Adultos e Idosos (IDAI) da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, para instrumentalizar os adultos de meia idade e idosos quanto ao conhecimento e utilização independente de equipamentos eletroeletrônicos, especialmente, o celular e seus aplicativos, utilizados em ambiente doméstico ou laboral.

Na região Sudeste há iniciativas na capital e no interior. O grupo de pesquisa Lapitec (Laboratório de Pesquisa em Inovação e Tecnologia Assistiva), junto à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, tem projetos para assistência à saúde, monitoramento via teleassistência de situações de risco para idosos que vivem sozinhos, design de ambientes e adaptação ambiental para pessoas com algum tipo de demência. Há também iniciativas de inclusão digital de idosos e de trabalhadores mais velhos com foco na alfabetização digital, buscando a melhora da qualidade de vida da população que envelhece por meio da comunicação, do domínio das tecnologias digitais com foco nas atividades da vida diária e do trabalho, dentre outros.

Um dos estudos realizados no Lapitec analisou a sensação de segurança de idosos que utilizavam o serviço de teleassistência, bem como a de seus familiares. O trabalho concluiu que o dispositivo com central de atendimento satisfaz os usuários no quesito segurança, em especial entre os idosos mais dependentes. Trouxe também contribuições para a empresa operadora, a fim de promover melhorias do dispositivo, como a necessidade de adequar a sinalização para que seja ouvida pelo usuário em todos os cômodos da casa.

Outro núcleo de destaque, segundo Paula, é o Tamie (Tecnologia Assistiva para Moradia e Independência no Envelhecimento), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), que desenvolve projetos de monitoramento de risco de quedas, jogos digitais para treino cognitivo e atividade física, bem como design de produtos voltados para comunicação em rede.

Outro projeto de destaque está sendo feito por meio de uma parceria entre o Instituto de Ciências Matemáticas e da Computação da Universidade de São Paulo em São Carlos e o Departamento de Gerontologia da UFSCAR. O trabalho analisa o uso de um acelerômetro – um pequeno aparelho que mede a alteração de velocidade em um percurso – para detectar tendências que podem levar idosos a quedas no futuro próximo. A vantagem seria justamente a previsão futura, pois o que já existe, inclusive disponível no mercado, são soluções que detectam a queda de idosos que já sofreram esse tipo de acidente anteriormente. Os testes foram feitos com o acelerômetro colocado na altura do umbigo do idoso, para que colete alguns dados, como o tempo que ele leva para levantar de uma cadeira, caminhar três metros em linha reta e voltar para o assento. A pesquisa, realizada no âmbito de um mestrado, conta com uma bolsa fornecida pelo Google.

Ainda na UFSCAR, no Laboratório de Biologia do Envelhecimento (Laben), foi desenvolvido um sensor que permite, com um simples exame de sangue, isolar a proteína ADAM10, um biomarcador para Alzheimer, possibilitando o diagnóstico com bastante precisão mesmo nas fases iniciais, sem manifestação da doença. A patente já foi registrada e os pesquisadores buscam parceiros para o licenciamento comercial.

Na região Centro-Oeste, em Brasília, são desenvolvidos estudos sobre economia e o mercado consumidor para orientar o desenvolvimento de produtos para maiores de 60 anos. No Norte, na Universidade Federal do Amazonas, projetos voltados à atenção básica de saúde e localização por GPS apoiam idosos que residem longe das unidades de saúde. No Nordeste, o forte são os trabalhos com sensores avançados em formatos de adesivos na pele, como na Universidade Federal do Piauí.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por exemplo, uma pesquisa utiliza sensores e realidade virtual para mensurar o risco de quedas, por meio da medida dos limites de estabilidade dos idosos.

“As pesquisas no Brasil e fora dele nos fazem perceber que pequenas adaptações em produtos ou ambientes poderiam permitir uma vida mais funcional e independente para uma pessoa mais velha. Isso porque, em geral, o problema não está nos idosos ou no indivíduo que mudou a sua condição, mas no produto que não é ergonômico ou na residência que não está mais adequada para este usuário e que precisa de modificações”, diz a terapeuta Carla Santana, professora da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto e presidente da Sociedade Brasileira de Gerontecnologia (SBGTec).

 O idoso como cidadão

Embora as pesquisas tenham ganhado corpo no país, no mercado brasileiro, o que há de mais abundante já disponível são aplicativos para celular que permitem ao idoso e aos familiares cuidarem da agenda de cuidados de saúde, como horários de medicamentos, e retornos médicos.

Em sociedades que enfrentam o envelhecimento da população há mais tempo, como a Europa e mesmo os Estados Unidos, que já possuem 50 milhões de idosos, não param de surgir serviços e produtos para esse público que vão muito além da questão de saúde.

Uma seleção publicada pelo Miami Herald, jornal do estado da Flórida, por exemplo, elegeu cinco startups que estão na vanguarda para a população acima dos 60 anos. Redes sociais que conectam idosos a universitários para troca de serviços, tradutores para que idosos que só falam espanhol possam ser compreendidos em inglês fazem parte da lista – soluções que enxergam o idoso como  cidadão, consumidor e que participa da vida social.

“Se abrirmos a nossa mente para pensar sobre quem são estas pessoas, e suas necessidades como cidadãos, talvez evitaríamos equívocos com termos como creche do idoso, celular para idoso, ou mesmo as imagens que identificam essa pessoa com aquele velhinho com a coluna dobrada com uma bengala na mão, ou seja, com deformidades e problemas de mobilidade. Embora as pessoas com alterações na funcionalidade façam parte da população mais velha, essa condição não a traduz de maneira uniforme”, afirma Carla.

Uma história recente

A gerontecnologia surgiu como disciplina na Universidade Técnica de Eindhoven, na Holanda, em 1989, sustentada em pilares da ergonomia, design industrial de produtos de consumo e em estudos das mudanças psicológicas e fisiológicas advindas do envelhecimento.  “No final dos anos 1970 e início dos anos 1980 surgiram as primeiras aproximações entre a gerontologia e ciências mais técnicas, como engenharia, arquitetura e outras”, explica Johannes Doll, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Gerontecnologia (SBGTec).

A disciplina foi consequência da publicação de um artigo, em 1981, considerado hoje referência na área, por Alphonse Chapanis, um dos fundadores da Sociedade Americana de Fatores Humanos e Ergonomia (Human Factors and Ergonomics Society of America – HFES), sobre engenharia voltada aos idosos. Em 1985, a HFES criou o Grupo Técnico em Envelhecimento (Technical Group on Aging), o primeiro a ter como foco de estudos um grupo populacional, e não sistemas.  O passo seguinte foi a criação, pela Gerontological Society of America, de um grupo interessado em pesquisar tecnologia.

“Pelo lado da gerontologia, no início dos anos de 1980, num dos primeiros congressos voltados para a questão da tecnologia em relação ao envelhecimento, a discussão era em torno da pergunta se novas tecnologias seriam boas para as pessoas idosas e se estas as aceitariam”, conta Doll. “A gerontecnologia uniu os dois campos – gerontologia e tecnologias – em torno de dois tópicos. Por um lado, a constatação que as novas tecnologias, principalmente as digitais, entraram em todas esferas da vida, também dos idosos. Por outro, a preocupação de como cuidar no futuro do grande número de pessoas idosas, especialmente em idades avançadas. Diante dessas questões, concluiu-se que as tecnologias podem oferecer um apoio valioso às estruturas necessárias de cuidado que as sociedades do futuro vão enfrentar”, diz.

A Sociedade Internacional de Gerontecnologia (International Society for Gerontechnology – ISG) foi formada em 1996 para criar uma área para cientistas se reunirem, discutirem e compartilharem seus pontos de vista com designers e produtores de produtos tecnológicos. Hoje, a ISG reúne membros de 26 países.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Gerontecnologia – SBGTec, foi fundada em setembro de 2017, na cidade de Ribeirão Preto (SP), com a finalidade de desenvolver o conhecimento sobre a tecnologia de apoio à vida da pessoa idosa, congregando profissionais, segundo o site da instituição.

Em 2016 e 2017 foram realizados os 1º e 2º congressos brasileiros de Gerontecnologia no campus da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Entre as temáticas abordadas, estavam robótica social e de serviço, a inclusão e a alfabetização digital, tecnologia assistiva, uso de exergames (jogos em vídeo que servem como exercício físico), cidades amigáveis aos idosos, casas inteligentes, teleassistência, desenvolvimento e uso de aplicativos para apoiar o cuidado e a vida independente, dentre outros. O próximo Congresso da Sociedade Brasileira de Gerontecnologia será realizado no 2º semestre de 2019 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

O futuro pertence à gerontecnologia

Com o envelhecimento da população mundial, cresce ainda mais a importância do desenvolvimento de novos produtos, serviços e de uma economia baseados em pesquisas e estudos da gerontecnologia se torna ainda mais crítica, segundo Kerns, da ISG. “A tecnologia tem que intervir, porque não teremos cuidadores disponíveis para todos. Robôs serão necessários para limpar as casas, levar o idoso a uma loja, ajudar nas tarefas domésticas e exercer outras funções para que os membros mais jovens da família possam trabalhar e fazer girar a economia”, explica.

Ainda não estão disponíveis comercialmente robôs que façam todas essas atividades, mas em alguns países, como os Estados Unidos, Alemanha e Japão, a inteligência artificial já permite que idosos tenham a companhia de pequenos robôs que facilitam, sob comando de voz, fazer ligações no celular, sugerem filmes e programas de TV e mesmo incentivam que o idoso saia de casa para passear, caso o clima esteja favorável para uma caminhada.

Carla, da SBGTec, reforça que na sociedade do envelhecimento, instituições formadoras e de pesquisa, empresas públicas e privadas, e usuários (neste caso, a população mais velha), têm que estabelecer parcerias e conhecer as necessidades uns dos outros. “Isso perpassa o descobrimento de ‘quem é esta nova velhice?’ ‘O que ela quer?’ ‘Quais são as suas necessidades no que tange à saúde, educação, lazer, trabalho, atividades da vida cotidiana, dentre outras’”, afirma.

Conhecimento e tecnologia é, na visão da gerontecnologia, portanto, a saída para um mundo que enfrenta o envelhecimento demográfico. “Os avanços tecnológicos fornecem um meio de lidar com a tempestade que se aproxima, e muitas nações, especialmente as da Ásia, estão pulando a bordo e enxergam o enorme potencial de mercado de bens e serviços para atender a essas necessidades não atendidas”, diz Kerns.