Diálogos

#QUEM FAZ: Vera Anita Bifulco

Envelhecer não se improvisa, adoecer não se improvisa e morrer não se improvisa. As pessoas se assustam com essa minha afirmação, mas é o que vejo acontecer ainda, infelizmente. Aos 49 anos, já psicóloga de formação, fui fazer Gerontologia Social – na época, minha mãe havia falecido em decorrência do Alzheimer. Cuidei dela por sete anos, ela morreu em 2002. Quando adoeceu, ela era cuidada por um cardiologista, mas hoje tenho claro que ela não teve a abordagem terapêutica correta. Demorei para dar a condução correta ao caso por puro desconhecimento. Sempre tive inquietação para estudar, mas com o acompanhamento de minha mãe sobrava-me pouco tempo.

Com seu falecimento, mergulhei de cabeça e fui da prática à teoria – talvez por isso minhas falas toquem as pessoas que passam por problemas similares. Sei quanto a informação fidedigna é importante na hora de cuidar de alguém nessa situação. O conhecimento é a base do cuidar, pois só cuidamos do que conhecemos. Quando não há cura, as doenças precisam ser administradas, como é o caso das demências. Isso significa minimizar sintomas e desconfortos e buscar alternativas terapêuticas para retardar ao máximo o rápido declínio e ajudar o paciente e família a manter uma perspectiva mais positiva perante a vida.

São 17 anos à frente do grupo de cuidadores e há três as reuniões acontecem no Hospital 9 de Julho em São Paulo. São encontros mensais de aprendizagem, troca de experiências e reflexões sobre a tarefa de cuidado. Tenho o esmero de construir uma programação anual com temas relevantes, atuais, que contemplem todos os aspectos do cuidar de um portador de demência e sua família. A doença é da pessoa, mas o diagnóstico é da família, que possui duplo papel: de cuidadora e de merecedora de cuidados. Tenho um grupo fiel que me acompanha nesses anos todos, pois a demência é a mais longa doença em cuidados paliativos, chegando a 20 anos de sobrevida se bem cuidada.

Por que mantenho um grupo de apoio quando já tenho minha vida profissional como psicóloga clínica e psico-oncologia já estabelecida? Respondo que todos nós nascemos com um talento que desenvolvemos com a maturidade e precisamos devolver à sociedade um pouco do muito que recebemos. Como cuidadora principal de minha mãe aprendi muito. Percebi que a criatividade por vezes vale mais que a teoria, pois somos únicos. Seria injusto reter isso só para mim, se posso com isso beneficiar tantos outros cuidadores que se aventuram, como um dia eu fiz, na divina tarefa de cuidar.