Diálogos

Um Congresso para além dos especialistas

Por Renata Costa

O geriatra Marcelo Valente dá aula para residentes em geriatria na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, é o coordenador da cadeira de geriatria da Faculdade de Medicina do ABC – disciplina que ele criou na instituição em que se formou –, atende pacientes em seu consultório na capital paulista, e é presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia seção São Paulo (SBGG-SP). De jeito calmo e voz suave, ele conta que sempre quis se dedicar à população idosa e precisou pesquisar bastante para descobrir, à época de sua formatura, qual instituição oferecia vagas para a residência em Geriatria. Cumprida a residência na Santa Casa, tirou título de especialista pela Associação Médica Brasileira e pela SBGG. O amor pela profissão o levou a se associar a essa entidade, “sem jamais pensar em me tornar presidente”, revela.

Em julho de 2018, ele assumiu o comando da SBGG-SP e passou a encarar a atribuição como parte de sua missão de divulgar e ampliar para os profissionais de outras áreas da saúde os conhecimentos da geriatria.

Ele enxerga o 11° Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia, o GERP.19, como uma boa oportunidade para fazer isso. Além de contemplar aqueles que já são da área, Valente pretende atrair outras especialidades. “Hoje em dia todos os profissionais da saúde fazem algum tipo de abordagem com o idoso. O que tentamos sempre trazer no GERP para atrair também a esses outros especialistas são temáticas afins à geriatria, como oncologia, nefrologia, cardiologia e outras”, afirma. Essas discussões pretendem trazer o olhar da geriatria, da multidimensionalidade na abordagem ao idoso e o conceito de Avaliação Geriátrica Ampla para o radar dos outros profissionais que lidam de alguma forma com a população acima dos 60 anos.

A necessidade de chegar além dos geriatras e especialistas em gerontologia é, conforme atesta Valente, comprovada numericamente. Ele tem de cabeça os números. Por exemplo, o último estudo Demografia Médica, realizado pelo Conselho Federal de Medicina e pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 2018, relata que há 1.817 geriatras titulados no país. Desse total, 35,6% deles estão no estado de São Paulo. Alcançar as outras especialidades e aguçar nelas o olhar para o cuidado do idoso, portanto, faz todo sentido para ampliar o público com quem o GERP.19 pretende dialogar. “Queremos muito fazer esse intercâmbio no congresso”, diz Valente.

Aptare – O GERP é muito esperado pela comunidade da Geriatria e da Gerontologia por sempre trazer novidades. Quais os destaques desta edição de 2019?

Marcelo Valente – Os congressistas sempre esperam atualização nos principais temas da área e isso está garantido com o alto nível de palestrantes e o trabalho árduo da Comissão Científica. Vou pontuar, então, algumas novidades de formato muito interessantes. A primeira delas é que vamos disponibilizar o e-congress, ou seja, a gravação de todas as palestras e mesas redondas do GERP.19 em alta tecnologia, com imagem de muita qualidade, por meio de uma parceria com a Manole Educacional.

A segunda novidade é que teremos o estúdio Aptare, da Dínamo Editora. Será um estúdio de gravação, anexo à sala VIP, com a proposta de entrevistar os palestrantes, fazê-los falar sobre seus temas de maneira mais informal, em forma de bate-papo. Essa sala de mídia será toda transparente, para que os congressistas vejam o que está acontecendo lá dentro, será inédito. Uma iniciativa muito bacana.

Outra inovação que estamos trazendo para o GERP.19 externa nossa preocupação em valorizar os pesquisadores. Sabemos como é difícil ser pesquisador no Brasil, então decidimos, como incentivo, premiar em dinheiro os melhores trabalhos apresentados no congresso. Serão, no total, seis prêmios – três para geriatria e três para gerontologia. Os primeiros lugares de cada área receberão R$ 3 mil, R$ 2 mil os segundos e R$ 1 mil os terceiros.

Além disso, buscamos trazer para o congresso não apenas a indústria farmacêutica, que já é patrocinadora conhecida de eventos da nossa área, mas também empresas de serviço e cuidados para idosos. Podemos citar, por exemplo, a Ottoboni, que tem instrumentos para avaliação de fragilidade e  sarcopenia, como aparelhos de bioimpedância e dinamômetro; e o Grupo Toniolo, que trará ao evento uma plataforma de serviços para idosos.

Teremos vários formatos de mesas, porque o público aprende mais com essa diversidade. O GERP contará com palestras, mesas redondas, casos clínicos, seja interativos para que quem estiver assistindo opine via keypad, mas também aqueles em que apenas os debatedores falam sobre o tema. Também teremos, como no GERP passado, o “Quiz Interativo – é fato ou fake”, em gerontologia e em geriatria. E ainda traremos um novo formato, que é o de hot topics sobre osteoporose e obesidade dinapênica. Os especialistas terão 15 minutos para discutir o tema, trazendo informações e conceitos rápidos.

Aptare Falando em valorização dos pesquisadores no país, o que o senhor destacaria em relação à pesquisa empírica realizada no Brasil e que estará na programação do GERP.19?

Valente – A nossa área tem tido muita pesquisa, apesar das dificuldades de financiamento no Brasil. Felizmente, o interesse no tema envelhecimento progrediu muito nos últimos anos e o crescimento das pesquisas é, em parte, resultado disso. Em todos os Congressos Paulistas abrimos espaço também para os estudos epidemiológicos e este ano optamos pelo ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros). Ele foi financiado pelo Ministério da Saúde e contou com a participação de pesquisadores de diversas instituições e universidades. Sempre tivemos no GERP estudos epidemiológicos consagrados no estado e na cidade de São Paulo, como o SABE (Saúde, Bem-estar e Envelhecimento) e o Fibra (Fragilidade em Idosos Brasileiros), mas este ano achamos interessante apresentar o ELSI, apesar de ser nacional, porque também é importante que tenhamos dados epidemiológicos da população como um todo, com suas diferenças regionais.

 Aptare – O que os congressistas podem esperar em relação aos minicursos e workshops?

Valente – Um dos minicursos será patrocinado pela Novo Nordisk, com o  tema “Terapias injetáveis para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2: abordagem prática”. Uma das grandes sacadas do curso é ensinar os profissionais a manusear as terapias injetáveis, os medicamentos da classe de antagonistas dos receptores GLP-I e as novas insulinas. Muitos médicos não sabem orientar seus pacientes – é preciso guardar em geladeira? Onde devo aplicar? Como se manipula a caneta? Devo trocar a agulha? É muito mais complexo do que receitar um medicamento e muitos geriatras têm medo de prescrever essas novas terapias simplesmente porque não têm segurança para orientar o paciente. Então, além da parte teórica, também haverá um cunho prático para que os profissionais possam aprender essa administração.

Outro tema muito atual será tratado no minicurso multidisciplinar “Transição hospitalar segura”, que abordará os desafios do cuidado ao idoso hospitalizado, como deve ser sua avaliação no contexto hospitalar e o planejamento da alta. Teremos ainda o curso “Manejo de feridas”. Em 2017, o foco foram as úlceras por pressão, mas este ano a abordagem será mais ampla nos tipos de feridas, inclusive pé diabético. Vamos falar de manejo, uso de laser, indicação de órteses, prevenção e tratamento.

O minicurso de oncogeriatria abordará o rastreio e a prevalência das principais doenças neoplásicas em idosos, porque sabemos que além das cardiovasculares, o câncer é outra grande causa de mortalidade nessa população. É também um curso multiprofissional, que incluirá a interface com os cuidados paliativos e o impacto do diagnóstico para o idoso.

Teremos ainda o workshop “Reabilitação cognitiva”, com foco em especialistas em Gerontologia. Vai tratar do papel dos games na reabilitação cognitiva, o trabalho dos grupos de memória e o papel do cuidador e dos familiares na estimulação.

 Aptare Além de serem abordados no minicurso de oncogeriatria, os cuidados paliativos também serão tratados em outras mesas redondas, palestras e até na miniconferência “Choosing Wisely SBGG”. Quais desafios o senhor, como geriatra, vê na prática diária em relação às escolhas de tratamento e de fim de vida?

Valente – A conferência Choosing Wisely SBGG pontuará decisões práticas e informações para os profissionais na hora de atuar com um paciente em cuidados paliativos. Antigamente, o médico era formado para curar o paciente que tinha a doença. Hoje, essa visão mudou e seu conceito é equivocado. Temos que melhorar a qualidade de vida do paciente, administrando suas multimorbidades, ainda que não haja cura. Muitas decisões terapêuticas hoje devem ser compartilhadas entre o médico, o paciente e família. Não se impõe mais ao paciente o que ele vai fazer. Ao contrário, devemos perguntar a opinião dele. Para isso, é preciso que ele seja bem informado. E o profissional de saúde é quem deve informá-lo, fornecer dados sobre a história natural da doença, seu prognóstico e efeitos adversos de tratamento para que o paciente participe da decisão de querer ou não aquele tipo de abordagem.

AptareEntre os palestrantes internacionais, temos especialistas que giram em torno do tema fragilidade sob diferentes aspectos. O senhor poderia falar um pouco sobre cada um deles e suas linhas de pesquisa e atuação? E por que a escolha desse tema?

Valente – O tema fragilidade é sempre muito relevante na nossa área. O nome principal este ano é Jeremy Walston, um dos precursores do conceito de fragilidade com a Linda Fried. A área de pesquisa dele é a de inflamação de baixo grau de doenças crônicas e seu efeito no idoso, bem como sua vulnerabilidade ao ter uma doença dessas somada à fragilidade. O David Marsh é ortopedista, seu foco é a ortogeriatria, abordando fragilidade óssea e osteoporose. Nossa convidada na área de gerontologia é Mary Yannakoulia, que é nutricionista por formação e desenvolve pesquisa associando a dieta do Mediterrâneo a alguns problemas de interesse da geriatria, como fragilidade, sarcopenia e declínio cognitivo. É um privilégio ter uma pesquisadora grega trazendo essa abordagem não farmacológica, sobre como uma alimentação saudável pode diminuir o risco desses problemas e ser usada até como parte do tratamento.

Aptare – Em gerontologia, quais os principais destaques?

Valente – A Comissão Científica quis discutir muito as diferentes velhices, questões de grupos que não são maioria, como os idosos encarcerados, LGBTs e o racismo. São abordagens muitas vezes esquecidas, mas são problemas reais, em especial no Brasil. Há países que valorizam muito o idoso, seu conhecimento e experiência de vida. Aqui estamos longe disso. Nossa cultura infantiliza essa população e temos pouco convívio intergeracional. Os idosos formam uma população que precisa ainda ser reconhecida em suas diferenças.

 Aptare Essa infantilização do idoso, entre outras questões, faz com que o tema sexo no envelhecimento seja um tabu. Esse também será um tema abordado no congresso. Em sua opinião, qual o papel dos profissionais de saúde, incluindo os médicos, em relação a isso?

Valente – É interessante que quando o idoso vem ao consultório do geriatra, automaticamente entra alguém da família para o acompanhar, como se ele fosse uma criança. Isso faz com que durante a consulta não seja possível abordar alguns assuntos pessoais com o paciente. Um cuidado que tomo sempre é perguntar se o idoso não quer ficar sozinho primeiro e depois chamo o acompanhante, normalmente o filho ou filha, para passar as orientações necessárias. Obviamente há assuntos que o idoso tem vergonha de abordar na frente do familiar, como incontinência urinária e questões sexuais. Por isso é importante conversarmos sobre isso no congresso. É essencial preparar o profissional da saúde para esses temas que têm tanto impacto na vida do idoso e que por uma questão de timidez ou falta de empatia ele não tem confiança para discutir.