Atualização científica

Geriatria e acupuntura: uma excelente parceria

Por Flávio Augusto Pinto de Souza Gonçalves* e Rosmary Tatiane Arias Buse**

A geriatria, como especialidade médica, tem como um de seus principais objetivos a promoção do bem estar e a conservação da funcionalidade do idoso. Em muitas situações clínicas, promove parceria com a acupuntura, a fim de otimizar tais condições, além de vê-la como importante terapia adjuvante para controle de algumas doenças e seus sintomas.  

Flávio Augusto Pinto de Souza Gonçalves

A acupuntura é uma das técnicas que compõem a medicina tradicional chinesa (MTC). A MTC teve sua origem há cerca de três mil anos e é ciência alicerçada nos princípios filosóficos e espirituais da época. Em sua concepção, a natureza, o universo e o ser humano estão submetidos às mesmas influências e, portanto, a fisiologia do corpo humano obedece aos mesmos fenômenos observados na natureza. A partir disso, e baseado na observação da natureza, devemos compreender que a MTC se constrói sobre três pilares: o conceito do Yin ̸ Yang, o conceito dos Cinco Movimentos e o conceito do Zang Fu (órgãos e vísceras).

A teoria do Yin ̸ Yang traz o conceito de que tudo na natureza apresenta dois aspectos específicos e opostos, que se complementam e mantêm um equilíbrio dinâmico entre si. Em outras palavras, o Yin só pode existir na presença do Yang e vice-versa, e ambos devem estar em equilíbrio – para a MTC, um organismo será saudável se for mantido o equilíbrio entre Yin e Yang. Da mesma forma, o conceito dos Cinco Movimentos (ou cinco elementos) baseia-se na teoria de que os elementos naturais água, madeira, fogo, terra e metal interagem entre si em equilíbrio, regendo também funções do organismo humano. Quando esta interação é harmônica, caracteriza-se o estado de saúde plena, enquanto que se houver desequilíbrio entre esses elementos, surgirá o estado de doença ou de desarmonia.

Por fim, o conceito dos Zang Fu estipula que o organismo é composto por órgãos e vísceras que possuem três aspectos: energético, funcional e orgânico. Haverá, portanto, intensa troca energética entre órgãos e vísceras, e a esta “energia” circulante a MTC dá o nome de Qi. A circulação adequada do Qi é um dos princípios que garante o funcionamento adequado dos Zang Fu e consequentemente o estado de saúde física, emocional e mental.

Dentre as diversas técnicas na MTC para mobilização deste princípio energético, a mais difundida e de resultado cientificamente comprovado é a acupuntura, que consiste na estimulação de diversos pontos distribuídos pela superfície do corpo através de agulhas. Segundo a MTC, esses pontos fazem parte de uma rede de meridianos (canais de energia que se distribuem por toda a superfície do corpo), interconectados entre si e com os órgãos e vísceras (Zang Fu), por onde flui a energia vital do organismo (Qi). Atuando sobre esses pontos, é possível interferir na função dos órgãos, buscando corrigir desequilíbrios no fluxo da energia e promover a melhora clínica do paciente.

Mecanismos de ação da acupuntura médica ocidental

Rosmary Tatiane Arias Buse

A visão médica ocidental dos mecanismos de ação da acupuntura relaciona-se basicamente com o sistema neurológico e muscular para sua ação. Dentre os mecanismos estudados destacamos os de efeitos dos estímulos tanto em nível local, na medula espinhal, tronco cerebral, córtex cerebral e sistema límbico.

Efeitos locais se dão através de estímulo de fibras nervosas da pele mielinizadas (fibras Aδ) e músculos (tipo II/III) com liberação de neuropeptídeos, com efeitos vasculares locais e na resposta cicatricial. O potencial de ação do estímulo ao chegar na medula espinhal pelo corno dorsal estimula a produção de encefalina por células intermediárias, promovendo analgesia de forma segmentar à origem do estímulo. Quando o mesmo potencial chega até o tronco cerebral, ativa peptídeos opioides com efeito na supressão de dor, ação em funções sensoriais e controle autonômico, agindo de forma extrassegmentar como neuromoduladores.

O potencial de ação pode ter efeito de regulação central ao chegar no córtex cerebral, estimulando também hipotálamo e sistema límbico (este último ligado ao processamento e resposta à dor), ativando sistemas reguladores que atuam no sistema autônomo, hormonal e condições simpático-dependentes, desencadeando efeitos secundários (ainda não totalmente elucidados). Estes efeitos incluem melhoria do sono, estados emocionais mais positivos, e até mesmo sensação de euforia, relaxamento e paz. De forma semelhante, a inativação de pontos-gatilho miofasciais (trigger points) pela acupuntura aliviam a dor da região afetada, bem como a dor visceral frequentemente associada a eles.

Nas últimas décadas tem se desenvolvido diversos estudos clínicos de melhor qualidade em acupuntura, especialmente pelo reforço recente da RNM funcional, bem como estudos sobre os mecanismos de ação profunda, como ação em células da glia e alterações de neurotransmissores e seus receptores.

Benefícios da acupuntura em geriatria

São inúmeras as indicações do uso da acupuntura e muito efetivos seus resultados, não somente para alívio de quadros álgicos, como também para o controle de diversas doenças crônicas e tratamento de patologias agudas, como infecções e paralisias, como a paralisia de Bell.

Os idosos são intensamente acometidos por doenças crônicas que levam a quadros dolorosos de difícil controle, tais como doenças degenerativas articulares (osteoartrose, artrite reumatoide, etc), além de outras condições como neuralgia pós herpética e dores oncológicas, uma vez que o fenômeno da imunosenescência contribui para a maior incidência de neoplasias nesta população.

Atualmente, podemos encontrar na literatura diversos trabalhos que comprovam a eficácia do efeito da acupuntura no tratamento de dores de diversas origens.

Na doença de Parkinson, como terapia adjuvante, a acupuntura tem mostrado benefícios no controle e melhora de sintomas (especialmente do tremor), propiciando redução das doses de medicações convencionais, reduzindo possíveis efeitos adversos. Essa ação pode estar relacionada à ativação de regiões do cérebro, tentando compensar a perda de neurônios dopaminérgicos na substância nigra. Revisões de pesquisas sugerem ainda que a acupuntura tenha efeitos neuroprotetivos contra estresse oxidativo, antiinflamatórios e antiapoptóticos. Sua ação em sintomas não motores tem benefício claro, mas age ainda em quadros motores moderados com melhora parcial dos sintomas.

Em casos de neuropatia pós-herpética, estudos de revisão não sugerem superioridade da acupuntura em relação aos tratamentos convencionais, mas destacou-se que, pela sua segurança e efeito comprovado no controle dos sintomas álgicos, pode entrar como mais uma ferramenta para o tratamento desta condição.

É importante também salientar a ação da acupuntura na reabilitação pós acidente vascular encefálico (AVE), indicada como tratamento adjunto pela OMS desde 1979, e que se mostrou efetiva na redução da severidade da paresia, a depender da extensão acometida pelo evento. Casos agudos do tipo isquêmico, tratados nas primeiras 36 horas, parecem ter melhor resultado, especialmente com a abordagem do tipo escalpeana (aplicação de agulhas somente no segmento cefálico) e com eletroacupuntura (utilização de eletrodos ligados às agulhas). Nos casos de tipo hemorrágico, sugere-se inicialmente estabilizar o quadro nas primeiras semanas antes de fazer a abordagem terapêutica através de acupuntura.

Como podemos concluir, a técnica da acupuntura apresenta diversas indicações para auxiliar no controle de quadros álgicos, agudos ou crônicos, e até mesmo como terapia adjuvante em doenças de característica degenerativa, sendo portanto, grande aliada na abordagem clínica da população idosa. A acupuntura tem sido cada vez mais procurada pelos pacientes e indicada pelos profissionais, principalmente pelos geriatras, sobretudo como alternativa para a diminuição da medicalização de seus pacientes. Isso gera menor risco de efeitos colaterais medicamentosos, menores custos de tratamento e melhora na qualidade de vida dos idosos.

 

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*Médico com especialização em infectologia pela Universidade Federal do Pará/Hospital João de Barros Barreto; especialização em acupuntura pela Associação Médica Brasileira de Acupuntura (AMBA)

**Médica geriatra, especialista pela Sociedade Brasileira de Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG); área de atuação em cuidados paliativos pela Associação Médica Brasileira (AMB); especialização em acupuntura pela Associação Médica Brasileira de Acupuntura (AMBA); atual diretora científica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Seção São Paulo (SBGG-SP)