Diálogos

A cor da pele como um fator de desigualdade no envelhecimento

Foram as conversas com a avó paterna, Sebastiana, que levaram Alexandre da Silva a direcionar sua atuação para a gerontologia, em um caminho diferente do inicialmente imaginado por ele. Jogador de basquete “por toda a vida” antes de entrar na universidade, como diz, tudo indicava que a graduação em fisioterapia pela Universidade Estadual de Londrina o encaminharia para a medicina esportiva. “Minha avó era minha principal incentivadora, e foram nossos bate-papos que despertaram em mim a vontade de estudar o envelhecimento”, conta Silva. Assim, em seu mestrado em reabilitação pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizou a tradução, a adaptação cultural e a validação de um instrumento que avalia o medo de queda em idosos. Especialista em gerontologia também pela Unifesp, pesquisou a importância da abordagem interprofissional para idosos acometidos por dor crônica.

Natural de Jundiaí, Silva tem 41 anos e atualmente é professor adjunto da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), onde atua como preceptor do internato na atenção básica, com ênfase na saúde do idoso, e docente da disciplina de medicina da família e da comunidade. É também docente na Universidade Cruzeiro do Sul, ministrando aulas e estágios sobre envelhecimento, bioestatística, epidemiologia, saúde coletiva e saúde do trabalhador nos cursos da área da saúde. Membro do Grupo de Trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, decidiu, ao ingressar na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, analisar como se dava o envelhecimento do idoso negro, buscando encontrar nos dados algo que explicasse o que via em seu dia a dia de atendimento: uma diferença significativa no acesso, no uso e nos desfechos da população negra em relação aos idosos brancos. Trabalhando com uma análise transversal do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) e considerando 1.345 idosos da coorte de 2010, o levantamento “Iniquidades raciais e envelhecimento: análise da coorte 2010 do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE)”, realizado por Silva e outros seis pesquisadores, aponta um cenário mais favorável para o envelhecimento dos idosos de cor branca em comparação com aqueles de cor parda ou preta, no tocante aos indicadores sociodemográficos, às condições de saúde ou de uso e ao acesso a serviços de saúde. Nesta entrevista à revista Aptare, ele comenta esses achados e destaca como os dados devem nortear a prática dos profissionais de saúde.

 

Aptare – O que motivou o senhor a buscar entender como se dão as disparidades raciais nos contextos das condições de saúde e do uso de serviços de saúde por idosos brasileiros?

Alexandre da Silva – Como um acadêmico negro, sempre mantenho um olhar atento ao meu entorno para essa questão e, na minha prática profissional, era fácil perceber que a qualidade do serviço que eu oferecia estava disponível apenas para parte dos pacientes. Não chegava aos idosos negros. No trabalho de atendimento residencial que eu realizava, via pessoas negras atuando como cozinheiras, faxineiras, copeiros, motoristas, funcionários de confiança de um determinado paciente branco, tratados até com carinho por ele, mas sem acesso a um serviço de saúde. E eles estavam envelhecendo também. Assim, enquanto uns conseguiam mudar a trajetória das incapacidades funcionais inerentes ao envelhecimento, havia um grupo que não conseguia. Eu via senhoras negras lavando louça apoiando os dois braços na pia porque não tinham mais força muscular. E na minha própria família havia isso: itinerários terapêuticos que nem sempre eram exitosos dentro dos sistemas de saúde. Quando cheguei à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, encontrei o ambiente favorável para produzir uma pesquisa e entender como era o envelhecimento do idoso negro no município de São Paulo, observando o que números e métricas traziam como dados para mapear essa realidade.

 

Aptare – Qual a importância de trabalhar cor/raça como indiciador social?

Silva – É algo essencial. A genética já comprovou que cor não é um indicador biológico, ou seja, quando se busca analisar diferenças genéticas entre supostos “tipos de raças”, como branca, parda, preta, amarela, elas são inexistentes. No entanto, elas existem como marcador social. Quando alguém diz “uma pessoa preta”, o que vem à mente de quem escuta não é uma pessoa rica, com alta escolaridade, morando num lugar bom. Mas, quando a referência é sobre uma pessoa branca e loira, é comum que essas características venham à tona. A questão é quando a pessoa negra frequenta determinados espaços e usa alguns serviços – ela sempre é vista por aquilo que vem primeiro, que é o seu corpo, ou seja, sua cor, formato de rosto, cabelo etc. Assim, independe se ela tem renda, boa escolaridade, se é da classe média: será tratada de forma diferente. Recentemente, uma juíza incluiu em uma decisão a afirmação de que “o réu não possui o estereótipo padrão de bandido, possui pele, olhos e cabelos claros”*, uma frase que não abrange nenhuma questão de renda ou classe social. Os estudos frequentemente tentam considerar o impacto das diferenças sociais, acreditando que basta nivelar pela renda e pela classe social para se conseguir indicadores bons para a análise. Porém, minha pesquisa, feita em conjunto com mais seis pesquisadores, mostra que isso não é suficiente.

*disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/juiza-reu-nao-parece-bandido-branco.pdf

 

Aptare – Qual o principal achado da pesquisa?

Silva – De que há uma situação de iniquidade social para idosos negros, que carregam uma série de discriminações ao longo da vida, afetando negativamente os comportamentos, as condições de saúde e o acesso e uso de bens e serviços de saúde. Mesmo que o SUS (Sistema Único de Saúde) tenha permitido a chegada de idosos pretos e pardos, muitas vezes o andamento dali para a frente não será tão exitoso como poderia ser.

Em conjunto com os professores José Leopoldo Ferreira Antunes, da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Luiz Eduardo Batista, do Instituto de Saúde da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, coautores do estudo, aplicamos modelos matemáticos e estatísticos nos dados retirados do SABE (Estudo Saúde, Bem-estar e Envelhecimento) para entender as diferenças com relação à capacidade funcional existentes entre idosos brancos e negros. A modelagem considerou grupos de pessoas iguais em diversos quesitos, como idade, renda, escolaridade, número de filhos, e a única explicação encontrada para essas discrepâncias foi o racismo.

Os dados do estudo falam do envelhecimento, mas é possível facilmente construir uma trajetória de menos oportunidades para as pessoas de pele escura – e, quanto mais escura, pior –, como dificuldade para ter acesso a educação e a bons postos de trabalho, o fato de ter de fazer grandes deslocamentos para chegar ao local de trabalho e ter menos condições de repouso etc. Isso acontece desde a infância, o que promove um acúmulo de desigualdades.

Aptare – Com relação a acesso e uso do sistema de saúde, o que o estudo aponta?

Silva – O levantamento mostrou que os idosos pretos e pardos foram os que menos possuíam plano privado de saúde, sendo também os que pagavam os menores valores médios por esses planos. Enquanto 53,10% dos brancos informaram ter plano privado, 30,20% dos pardos e somente 25,70% dos negros responderam positivamente a essa questão.

Algo interessante de se notar é que, apesar da visível diferença no tipo de serviço de saúde público ou privado usado por negros e brancos, não houve diferença entre os grupos nas dificuldades em acessar os serviços de saúde. Vale ressaltar, entretanto, que para 25% dos idosos, em todos os grupos raciais, ainda existe dificuldade em acessar os serviços de saúde, independentemente de ser públicos ou privados.

Outro aspecto notável foi não haver diferença entre os grupos raciais em relação ao acesso à solicitação de exames complementares e a medicamentos. Contudo, há diferença no tempo decorrido entre a solicitação do exame e a sua realização, visto que 77,3% dos brancos afirmaram ter realizado todos os exames solicitados, ao contrário dos pretos e pardos, que responderam só terem marcado os exames, situação apontada por 25,6% e 22,7% respectivamente, ou só terem conseguido marcar alguns deles, resposta dada por 12,5% dos negros e também por 12,5% dos pardos. Essa realidade é algo que desfavorece se chegar a um bom diagnóstico e, também, dar início ao tratamento.

 

Aptare – Quais outros dados chamaram atenção?

Silva – A questão do estado marital e do número de filhos. Sabemos o quanto ter uma família presente contribui para os cuidados com a saúde. No entanto, os dados mostram que os pretos são os mais solitários; 18,9% deles moram sozinhos e 9% são solteiros, enquanto esses percentuais são de 15,3% e 2,7% para os brancos. Eles também têm poucos filhos vivos: 10,2% afirmam não ter nenhum filho, contra 4,2% dos brancos. Trata-se de um retrato conhecido da população negra, em que os filhos homens morrem jovens, por violência, e as filhas morrem, também jovens, por complicações na gravidez e no parto.

O lazer, outro grande contribuinte para a saúde e bem-estar, como já demonstraram várias pesquisas, é outro ponto de desigualdade. Nada menos do que 64,8% dos negros afirmaram nunca sair de casa – a não ser para o trabalho – resposta dada por 40,1% dos brancos. A questão aqui é que os idosos negros não sabem ter lazer, porque não tiveram isso ao longo da vida. Não sair de casa e não convidar pessoas para ir à sua casa é um comportamento que ocorre mesmo entre os negros que têm condição financeira para isso.

Com relação aos aspectos econômicos, houve concentração de pardos e pretos entre os que responderam não possuir renda suficiente para as despesas diárias, o que dialoga com os dados de escolaridade, pois são os mesmos grupos nos quais se observaram as maiores proporções de analfabetos e a menor média de número de anos de escolaridade. A maior proporção (23,2%) dos que não sabiam ler ou escrever um recado estava entre os pretos.

 

Aptare – Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que o brasileiro está vivendo mais. Isso acontece de forma equilibrada no contexto racial?

Silva – Não. Aliás, um dado de destaque da nossa pesquisa com relação aos pardos está, exatamente, relacionado com a idade. Eles são maioria na faixa dos 60 aos 64, representando 42,3% do total, enquanto os brancos são 28,2% e os pretos 26,7%. No entanto, esse percentual vai decaindo absurdamente nas demais faixas. Os pardos são 27% dos entrevistados com idade entre 65 e 69; 13,6% entre 70 e 74; e 6,6% na casa dos 74 a 79 anos; reduções que não se verificam na mesma equivalência entre brancos e negros.

Isso é sinal de que os idosos pardos morrem muito precocemente, demandando não só um olhar de políticas públicas para isso, mas também para diversos outros temas. Um deles é a reforma da Previdência, por exemplo, porque esse idoso pardo está contribuindo e não vai usufruir, é uma ampliação da desigualdade. Eu defendo que a reforma é necessária, no entanto, precisa ser feita com calma, considerando aspectos como esse, porque a verdade é que parte da população nem vai envelhecer.

 

Aptare – Como todos os dados se traduzem na realidade do atendimento de saúde?

Silva – Os dados nos permitem ver que há idosos negros e idosas negras chegando aos serviços de saúde e tendo dificuldades em seu uso. A baixa escolaridade leva a uma maior dificuldade na compreensão das orientações; a ida sozinha ao posto, seja pela ausência de familiares, seja porque os familiares precisam trabalhar e não podem acompanhar esse idoso, faz com que não haja alguém que ajude no entendimento ou que faça questionamentos adicionais. Há dados que mostram que, no SUS, pessoas negras têm um tempo de consulta menor do que a maioria. Essas pessoas acabam sendo rotuladas pelos profissionais de saúde por “não levarem a sério a própria saúde”, porque retornam aos serviços sem terem mudado seus hábitos ou nível pressórico ou glicêmico, quando, na verdade, isso não é culpa delas – elas apenas não compreenderam as orientações ou não tiveram condições de segui-las.

 

Aptare – O que é necessário acontecer para mudar essa realidade?

Silva – São necessárias mudanças reais, não ajustes paliativos. É preciso reforçar a atenção primária de saúde, pois ela pode ajudar de fato quando está completa e tem todos seus atores – médicos, agentes comunitários, enfermeiros – presentes. E aliar a isso programas bem estruturados, desenhados para as demandas específicas dessa população. Uma iniciativa interessante nesse sentido e que é um bom exemplo é o PAI – Programa de Acompanhantes de Idosos, da Prefeitura de São Paulo. Ele inclusive nasceu de dados extraídos do SABE, que indicaram que quase 20% dos idosos apresentavam algum tipo de incapacidade funcional. Para tentar evitar o isolamento ou até mesmo a institucionalização, formou-se uma equipe de perfil distinto do agente comunitário para ajudar os idosos em alguma atividade da vida diária que eles não desempenham bem. Infelizmente o que vemos, no entanto, são retrocessos, com as ações da Política Nacional de Atenção Básica passando por um processo de desconstrução ou de não evolução.

Por outro lado, devemos repensar a formação dos profissionais de saúde. Isso é importante. Eu faço parte de um Grupo de Trabalho da Associação Brasileira de Saúde Coletiva chamado “Racismo e Saúde”, e a percepção clara é que o estudante, o graduando nas diversas áreas da saúde, não é preparado para lidar com essas questões na sua futura prática profissional. Há até disciplinas voltadas para o tema diversidade, mas os conteúdos não abordam essa realidade. Queremos propor um plano de ensino básico para que isso seja pautado sempre na formação dos alunos dos cursos de saúde. Assim, eles chegarão aos serviços mais preparados. Um indicador de como há despreparo para lidar com as questões raciais é ver que a informação sobre cor/raça na maioria das vezes não é preenchida nos prontuários. Há o espaço para esse dado, porém na maioria das vezes o médico não pergunta, com medo, veja só, de “ofender”.

                                             

Aptare – Há dificuldade de falar sobre racismo no atendimento de saúde?

Silva – Muita. As pessoas precisam entender que falar sobre racismo não é se assumir racista; é entender que, muitas vezes, o racismo está presente na instituição da qual se faz parte. É algo que precisa ser conversado para que as pessoas saibam como podem combatê-lo e até perceber que ele pode estar presente em suas próprias atitudes, por desconhecimento, já que estamos falando de construções historicamente criadas. É dever dos profissionais de saúde olhar para isso, pois os dados mostram que o racismo está deixando as pessoas mais doentes.

 

Aptare – Como esses dados devem impactar o trabalho do geriatra ou profissional de saúde que trabalha com esse grupo?

Silva – Ao deparar com um paciente idoso negro, principalmente se ele estiver desacompanhado, o profissional precisa entender que ali está uma pessoa que, muito provavelmente, teve um itinerário terapêutico repleto de obstáculos. Não só por causa de suas limitações, mas por causa do contexto em que ela estava ou ainda está inserida. São coisas como a dificuldade de marcar a consulta, de conseguir realizar os exames complementares e ter um diagnóstico fechado, de seguir recomendações que estão fora do alcance financeiro dela. Todo profissional do campo da geriatria e da gerontologia deve saber acolher, ouvir e não desistir do paciente. Entender as particularidades e condições existentes para só depois propor uma solução para cada caso. Como sugerir caminhadas ao paciente se o bairro em que ele mora é violento? Como recomendar uma alimentação mais saudável se o paciente só conta com feira um dia na semana e não consegue consumir alface com a frequência que o médico está solicitando porque o produto não dura uma semana? As orientações devem caber no orçamento e na realidade do paciente. E, também, na sua capacidade de compreensão. Ele pode não ter seguido o recomendado simplesmente porque não entendeu. Isso é bastante comum quando o idoso chega sozinho ao posto de atendimento, sem ninguém que o ajude na formulação das perguntas e na resolução de dúvidas ou faça a intermediação entre o que o médico diz e o que ele tem condições de entender. Isso tudo quer dizer dedicar um tempo maior àquele atendimento e praticar, verdadeiramente, o tão falado modelo de cuidado centrado na pessoa.