Atualização científica

Atualização, criatividade e ousadia

Por Lilian Liang

Um sonho que se tornou realidade. Foi dessa maneira sucinta que o geriatra Vitor Last Pintarelli, presidente do 11º Congresso Sul-Brasileiro de Geriatria e Gerontologia (XI CSBGG), realizado entre 25 e 27 de julho em Curitiba, descreveu a sensação de ver de pé o evento que nos últimos dois anos existia apenas no plano das ideias.

O congresso, cujo tema foi “Boas práticas para o pró-envelhecimento”, reuniu cerca de 800 participantes, principalmente da região sul do país, e proporcionou atualização tanto sobre temas geralmente debatidos nos grandes eventos científicos quanto sobre questões pouco discutidas, porém igualmente relevantes, tais como aging in place, direção veicular, HIV, cirurgia bariátrica e síndrome pós-queda.

Não foram poucos os desafios ao longo desse período, segundo Pintarelli, e um dos principais foi o financeiro. Apenas quatro laboratórios entraram como patrocinadores do evento. “No entanto, tivemos uma participação maior de patrocinadores de outra natureza, como ILPIs, livrarias, empresas do segmento alimentício, serviços. Eles ocuparam um espaço que em outros tempos seria da indústria farmacêutica”, explicou.

O esforço valeu a pena e trouxe alguns ensinamentos ao geriatra. “Pode parecer lugar-comum, mas o grande aprendizado é que não fazemos sozinhos algo desse porte. Precisamos de uma equipe que trabalha harmonicamente, e não é fácil saber ouvir, conciliar preferências e modos de pensar”, compartilhou. “Outro grande aprendizado na verdade não é novo, mas é a consolidação de algo que já se sabia: que a geriatria e a gerontologia caminham de mãos dadas e são indissociáveis.”

Cerimônia de abertura

A cerimônia de abertura do congresso foi realizada na tarde do primeiro dia do evento e contou com a presença de Vitor Pintarelli, presidente da SBGG-PR; Simone Pinto, presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-PR; Carlos Uehara, presidente da SBGG nacional; Vania Herédia, presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG nacional; Juliano Schmidt, que representou Márcia Cecília Huçulak, secretária municipal de Saúde de Curitiba; João Senger, presidente da SBGG-RS; Hercilio Hoepfner Junior, da SBGG-RS; e Roberto Issamu Yosida, presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná.

Segundo Pintarelli, o XI CSBGG foi realizado num momento em que eventos científicos são cada vez mais necessários para promover atualização do conhecimento e integração entre profissionais. “À medida que os idosos saem da invisibilidade, há um denso nevoeiro de desinformação e fake news, promovendo terapias para combater o envelhecimento, disfarçadas de medicina anti-aging, medicina ortomolecular, modulação hormonal e outras estratégias que prometem a fonte da juventude. Isso é um desserviço aos profissionais sérios”, pontuou.

“O XI CSBGG é uma resposta maiúscula aos falsários, que atuam sem nenhum embasamento científico. Muitas das práticas pregadas por eles estão longe de ser inócuas – elas são comprovadamente nocivas. A geriatria e a gerontologia não entendem o envelhecimento como uma falha da natureza, que o profissional tem que evitar. Envelhecer é natural. Indo na contramão dessa moda, queremos falar do pró-aging. Precisamos garantir que o envelhecimento ocorra de maneira saudável, com qualidade de vida, funcionalidade, autonomia e independência e, quando necessário, paliação de sofrimento”, disse.

Simone Pinto, presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-PR, comemorou o fato de o evento reunir representantes de diversas gerações. “É a integração da geriatria e da gerontologia do Estado todo, espalhando-se para a região sul, numa multiplicação de tarefas e trabalho conjunto”, disse. O presidente do evento completou: “São pessoas que construíram o passado, que estão atuando no presente e outros que são a perspectiva futura da geriatria e da gerontologia.”

Para Carlos Uehara, da SBGG nacional, o XI CSBGG é um evento extremamente simbólico. “O sul tem bons exemplos de envelhecimento. As cidades de Veranópolis e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e Pato Branco e Esteio, no Paraná, são Cidades Amigas do Idoso. Santa Catarina tem a maior expectativa de vida ao nascer do Brasil. São fatos relevantes num país tão desigual”, destacou.

Vania Herédia, presidente do departamento de Gerontologia da SBGG nacional faz coro com Pintarelli, ressaltando a importância dos congressos como espaços de atualização e aprimoramento, organizados de forma harmônica. “É uma oportunidade de levar para casa novos conhecimentos e reflexões para nossas práticas diárias”, afirmou.

Já Roberto Yosida, presidente do CRM-PR, destacou que a instituição que preside já tem o envelhecimento como um tema constante na pauta. Ele citou como exemplo o fato de o CRM-PR homenagear todos os anos profissionais com 50 anos de prática de medicina sem infrações éticas. “Em 2018 foram 100 pessoas reconhecidas. Em 2019, esse número subiu para 150”, contou. “E neste ano também concedemos quatro diplomas de honra ao mérito a colegas com idade entre 90 e 95 anos atuantes no interior do Paraná.”

Durante a cerimônia foi entregue o prêmio “Orgulho da Geriatria 2019” ao geriatra José Mario Tupiná Machado, professor adjunto de geriatria da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e chefe do Serviço de Geriatria da Santa Casa de Curitiba. Machado foi o fundador do primeiro serviço de residência médica em geriatria do Paraná e por muito tempo foi o único entre Porto Alegre e São Paulo.

O prêmio “Orgulho da Gerontologia 2019” foi concedido à enfermeira Maria Helena Lenardt, professora sênior da Universidade Federal do Paraná. Ela foi a criadora do Grupo Multiprofissional de Pesquisa sobre Idosos (GMPI) na mesma universidade, introduzindo o conceito de gerontologia na universidade antes mesmo da criação da disciplina de geriatria.

“O prêmio é concedido a pessoas com um histórico de contribuição para a geriatria e a gerontologia”, esclareceu Pintarelli. “São profissionais que participaram da fundação e do desenvolvimento inicial da SBGG-PR, contribuíram para a formação de outros profissionais e têm militância na área de geriatria e gerontologia.”

Novidades na programação científica

A programação científica do XI CSBGG primou pela variedade de temas inovadores – “fora da caixinha”, mas não “fora da casinha”, como brincou o presidente do congresso. A grade trouxe assuntos que muitas vezes não chegam aos grandes auditórios dos congressos.

“Fizemos isso com um duplo propósito. Primeiro, para trazer temas que, embora não sejam abordados com tanta frequência, são extremamente importantes. Segundo, para tornar a programação menos repetitiva, pois muitos eventos trazem os mesmos tópicos que às vezes são tidos como obrigatórios”, explicou Pintarelli.

Um dos destaques no âmbito da sarcopenia e fragilidade foi a palestra do geriatra João Senger sobre o conceito de osteosarcopenia. Segundo ele, as duas enfermidades – a sarcopenia, que é a perda de massa muscular, e a osteoporose, a perda de massa óssea –, geralmente tratadas de forma independente, são mais relacionadas do que se imaginava.

“O que se viu nos últimos anos é que essas duas condições têm um relacionamento muito próximo. Um músculo fraco acaba levando a um osso mais frágil. E a estrutura óssea também influi na massa muscular”, explicou.

Senger cita como exemplo um paciente que teve o braço imobilizado por 40 dias. Depois desse período, se for feito um exame comparativo entre o braço quebrado e o saudável, é possível ver que o que sofreu a fratura não apenas apresentou uma atrofia do músculo como também sofreu uma descalcificação. Da mesma forma, quando o paciente vai para fisioterapia, o músculo se recupera e o osso também. “Essa ligação é muito clara. Os fatores de risco de um e de outro são os mesmos. A falta de movimento leva à atrofia muscular e descalcificação. Fumo e álcool também causam danos ao músculo e ao osso”, esclareceu.

A osteosarcopenia acomete principalmente os muito idosos, que são mais frágeis. “Nessa população, uma fratura pode ser o divisor de águas entre a pessoa ser dependente e independente. Mas um paciente com menos massa muscular tem menos força e, portanto, mais risco de cair. E seus ossos também são mais frágeis, o que também aumenta esse risco. Esse é o grande problema da osteosarcopenia: ela aparece no final e compromete a qualidade de vida”, afirmou Senger. De acordo com o especialista, o tratamento para sarcopenia envolve exercício físico, adaptado para as condições do paciente, e uma dieta adequada, rica em cálcio, vitamina D, proteínas, entre outros.

No contexto da nutrição, chamou a atenção a palestra da nutricionista Magda Rosa Ramos da Cruz, professora de nutrição da PUC-PR, que falou sobre implicações da cirurgia bariátrica no envelhecimento. “Uma das principais dúvidas é se o idoso pode fazer cirurgia bariátrica. A resposta é sim, preferencialmente entre 60 e 65 anos, porque nessa fase a mortalidade é semelhante à do adulto jovem”, afirmou. “Mas não há limite de idade. Se constatarmos que o procedimento vai trazer melhora na qualidade de vida – se a perda de peso vai ajudá-lo a caminhar melhor, a controlar o diabetes, por exemplo –, ele tem indicação mesmo depois dos 65 anos.”

Um dos pontos levantados foi a questão da mudança de hábitos, já que não é fácil adotar um novo estilo de vida depois de 60 anos. Segundo Magda, muitos pacientes têm uma visão romântica da cirurgia bariátrica. “Muitos pensam: faço a cirurgia e, ao invés de tomar dez medicamentos, tomo cinco vitaminas. Sim, vai haver essa troca, mas junto com isso será preciso melhorar a mastigação para evitar vômito, aprender a comer com calma e consumir frutas e verduras todos os dias”, relatou.

Ela observou, no entanto, que, quando a obesidade mórbida começa a comprometer muito a qualidade de vida, a pessoa se dispõe a abrir mão de qualquer coisa para mudar a situação. “O tamanho do sofrimento define quanto a pessoa está disposta a mudar no pós-operatório”, disse. E, segundo ela, muitas vezes a cirurgia acaba sendo o empurrão necessário para essa mudança, porque a pessoa começa a perder peso, muda a alimentação, passa a se movimentar mais e se adapta a essa nova rotina.

A nutricionista destacou que o número de idosos interessados em se submeter à cirurgia bariátrica aumentou muito nos últimos anos e que as taxas de sucesso no pós-operatório, se as recomendações forem seguidas corretamente, são as mesmas de um adulto jovem. “O sucesso depende de quanto ele está disposto a investir na mudança de estilo de vida. Para as pessoas que querem mudar, com certeza vale a pena.”

Ênfase na comunicação

O XI CSBGG reservou uma sessão especial para falar sobre estratégias de comunicação com o paciente idoso. Gisele dos Santos, especialista em geriatria e cuidados paliativos, destacou alguns desafios encontrados na comunicação entre médico e paciente.

Do lado do médico, o ageísmo, também conhecido como preconceito etário, e a concepção biomédica do adoecimento têm um grande impacto na forma como o profissional lida com o idoso. “A maneira como o médico entende o adoecimento é importante: ele está tratando a doença ou a pessoa?”, questionou. Já do lado do paciente, a redução da capacidade de compreender e produzir linguagem, bem como o déficit visual e o déficit auditivo, podem comprometer a comunicação. Segundo ela, alguns ajustes podem ajudar. No caso de perdas visuais, a iluminação adequada da sala, o uso de imagens contrastantes e o uso de tecnologia como leitor de texto podem auxiliar o paciente na consulta. Quando o paciente apresenta perdas auditivas, cuidar dos ruídos no ambiente, verificar se ele está usando prótese auditiva e falar devagar, articulando bem as palavras, também pode ser de grande valia no estabelecimento de uma boa comunicação.

No caso de pacientes com declínio cognitivo, Gisele fez uma recomendação bem específica. “Fale com o paciente como se ele estivesse entendendo. Isso faz bem até para a família. Eu não tenho como provar seu grau de compreensão, então na dúvida aja como se ele estivesse entendendo”, disse. “E evite demonstrar impaciência ou irritabilidade.” No caso da linguagem, algumas medidas também podem facilitar: fazer perguntas que exijam apenas “sim” ou “não”; repetir o que foi falado; elaborar sentenças simples; usar outros termos para transmitir a mesma ideia, se necessário; e focar sempre no que o idoso deve fazer. “O ideal é passar mensagens como ‘O senhor deve caminhar’ ao invés de ‘O senhor não deve ficar sempre parado’. Se passarmos mensagens do que ele não deve fazer, o cérebro tende a descartar o ‘não’’’, complementou.

Ela abordou também a questão dos familiares e cuidadores no contexto da comunicação. Para ela, é importante identificar o papel que a pessoa tem na vida do idoso e sempre perguntar ao paciente se essa pessoa pode participar da consulta. Entre as recomendações citadas, Gisele destacou a importância da proximidade: sentar perto do idoso e do cuidador e manter contato ocular com ambos ajuda a construir uma relação de confiança entre os envolvidos. No momento da conversa, o ideal é escutar tudo o que o familiar deseja falar. “Mas sempre inclua o idoso na conversa, mesmo que ele tenha declínio cognitivo. E cuide para não assumir a posição de nenhum, esteja sempre atento aos dois”, afirmou.

A forma como o profissional trata o idoso também foi um tópico de destaque durante a apresentação. Expressões como “vô”, “vó”, “querido”, “meu anjo” e “vozinho” devem ser evitadas a qualquer custo, bem como o uso do chamado elderspeak, que é a fala cantada e com entonação alta, como a usada para falar com bebês. A especialista também alertou sobre a importância de usar termos acessíveis e evitar o jargão médico quando conversar com o idoso e a família.

Gisele também ofereceu dicas para explorar a maneira como o paciente entende sua doença, o tratamento e as consequências desse processo, principalmente em casos graves:

Sentimento relacionado à doença que enfrenta: o objetivo é tirar o foco da doença e o que ela causa, para discutir os sentimentos do paciente em relação a isso.

Ideia e explicações dos sintomas e da doença: entender o que o paciente pensa que pode estar acontecendo, como o que causou a doença e o que a dor significa, por exemplo.

Funcionalidade, como o impacto da doença na vida diária: ajudar o idoso a compreender de que forma a condição afetou o cotidiano, as relações e os objetivos de vida.

Expectativa relativa a assistência da equipe e da doença: discutir o que o paciente espera do tratamento e as expectativas sobre o que pode acontecer em decorrência da doença.

Gisele levantou também algumas questões delicadas, que geralmente requerem um tato maior no quesito comunicação: habilidade de dirigir, suspeita de abuso ou negligência, sexualidade, incontinência urinária, institucionalização e fim de vida. Para ela, a chave para a boa comunicação é a boa escuta. “A habilidade de escuta é uma peça fundamental nessa relação. É preciso saber ouvir, escutar o paciente. Se não há escuta, não há comunicação”, finalizou.

 

Falando sobre suicídio

Suicídio foi o tema da palestra da geriatra Amanda Valim Kampa, coordenadora do serviço de geriatria do Hospital Universitário da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná.

De acordo com a especialista, as taxas de suicídio na população geral são de uma morte para cada 25 tentativas de suicídio. Na população idosa, essa taxa é de um para cada quatro tentativas. No Brasil, segundo a médica, as taxas de suicídio são consideradas baixas: 5,7 para cada 100 mil habitantes. No entanto, se forem 100 mil idosos, esse número sobre para 8. “Isso quer dizer que, se o idoso fez alguma tentativa, deve disparar um alarme de que, em algum momento, o ato vai se consumar”, explicou. “Os idosos conseguem tirar a vida com mais êxito. Nos EUA, 75% dos idosos conseguem fazê-lo na primeira tentativa.”

Entre os fatores de risco, a depressão grave aparece como o principal, seguida de doenças graves e degenerativas, dependência física, distúrbio e sofrimento mental. Também constam da lista falta de suporte, família em conflito, ausência de parentes e de amigos, privação social e solidão.

Para Amanda, a prevenção passa por uma avaliação de risco do paciente. “Tentativas de suicídio resultam de um complexo de fatores estressantes presentes em toda a vida e que ganham força na velhice”, explicou. “Uma tentativa nunca deve ser encarada como um fato isolado. Não é porque a pessoa ficou viúva, por exemplo, que ela tentou o suicídio. Há um acúmulo de coisas antes. A morte do cônjuge é o fator de gatilho.”

A avaliação de risco depende, entre outras coisas, das habilidades da equipe multiprofissional. “É preciso estabelecer relações empáticas, dar atenção especial a circunstâncias, expectativas, qualidade de vida, história de doenças e sofrimento”, disse. “Muitas vezes o paciente conta sua história e depois pede desculpas, diz que ‘Fica falando da vida e gastando meu tempo’. Mas ele precisa entender que a história dele tem valor.”

Para Amanda, a prevenção do suicídio de uma pessoa idosa inclui medicamentos e psicoterapia, mas não pode deixar de fora a espiritualidade, o suporte social e a integração na família e na comunidade. Acima de tudo, é fundamental ajudá-lo a encontrar um propósito de vida. “Só se previne o suicídio apontando para um propósito de vida. Quem não tem objetivo não sonha, não tem algo por que viver, não encontra os meios para chegar lá e dá cabo da própria vida”, disse.

Outras atividades

Além da intensa programação científica, o XI CSBGG contou com diversos eventos paralelos, como o Telegero, uma reunião científica mensal transmitida por videoconferência diretamente do local do congresso para mais de dez polos, distribuídos entre cidades de todas as regiões do Brasil e também de Portugal. Trata-se de uma iniciativa da Disciplina de Geriatria do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, sob a liderança do geriatra Wilson Jacob Filho, em parceria com a Disciplina de Telemedicina do Departamento de Patologia da mesma instituição, coordenado pelo professor Chao Lung Wen.

Ainda aconteceram o VII Simpósio Idoso na Atenção Primária, evento focado nas situações habituais vivenciadas na rede pública e destinado prioritariamente a profissionais atuantes nesse cenário, e o Encontro das Ligas Acadêmicas de Geriatria e Gerontologia.