Diálogos

Para tirar idosos LGBT da invisibilidade

Por Luciana Fleury

A admiração de Diego Felix Miguel por pessoas mais velhas vem desde a infância. Nos encontros familiares e sociais, na primeira oportunidade trocava a companhia das crianças para conversar com um idoso. “Saber que aquela pessoa tinha vivido muito mais que eu e trazia experiências de um mundo que eu ainda não conhecia me fascinava muito mais que os contos de fadas”, conta.

A tendência tornou-se ainda mais relevante quando, na adolescência, seu pai foi diagnosticado com câncer e Miguel tornou-se seu principal companheiro durante o tratamento, podendo conhecer muito mais sobre sua história, sua relação com a família de ascendência libanesa e as dificuldades sociais enfrentadas em sua infância. “Com seu falecimento, esse encantamento pelos mais velhos continuou”, aponta ele, lembrando que a mãe sempre o levava a instituições de longa permanência para visitar idosos que não recebiam visita de seus familiares. As idas a esses locais o instigavam mas ao mesmo tempo o constrangiam – não era fácil ver idosos pintando desenhos mimeografados e fazendo atividades que pouco valorizavam suas experiências e, por muitas vezes, subestimavam suas capacidades.

Aos 18 anos, tendo iniciado estudos em teatro, Miguel começou a ministrar aulas de teatro para idosos, buscando dar mais sentido às atividades propostas para essa faixa etária. Desde então, vem desenhando sua trajetória profissional e acadêmica na área do envelhecimento, na coordenação de cursos e gestão de serviços de centros de convivência para idosos, trabalhando em diferentes territórios em projetos específicos nas áreas de cultura, assistência social e saúde e buscando dar visibilidade para as necessidades dessas pessoas. Seu passo mais recente foi dado em direção ao envolvimento com um público ainda mais invisível: as pessoas idosas LGBT.

Miguel é mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em gerenciamento da saúde de idosos pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/ OMS), especialista em linguagens da arte (USP) e atualmente é gestor do Centro de Convivência e Comunicação do Centro de Referência do Idoso da Zona Norte – CRI Norte. Docente em cursos de pós-graduação em gerontologia, tem título de especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e é membro do Conselho Estadual do Idoso de São Paulo. Padrinho da EternamenteSOU, – primeira organização social no Brasil voltada à visibilidade, capacitação e atendimento às Velhices LGBT –, tem desenvolvido uma série de ações para o debate dos direitos de idosos LGBT.

Nesta entrevista à revista Aptare, ele fala sobre esse trabalho e sobre a importância de os especialistas em geriatria e gerontologia adotarem uma postura de acolhimento a essa população.

Aptare – Como o tema do envelhecimento de pessoas LGBT passou a fazer parte do seu dia a dia?

Diego Felix Miguel – Um marcador importante que me fez olhar para essa temática foi ter participado da 12ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, realizada em Brasília, em 2016. Eu estava lá como um dos representantes dos direitos da pessoa idosa, da mesma forma que havia grupos defendendo os direitos de crianças e adolescentes, de LGBTs, de deficientes. Além de perceber um distanciamento e até certo estranhamento entre esses públicos, soube que, na conferência LGBT, foram tratadas questões sobre o envelhecimento dessa população, como o depoimento de um homem trans que comentou do medo que tinha caso precisasse ser institucionalizado na velhice. Ele questionava quem garantiria que iriam respeitar a identidade de gênero dele numa situação assim. E aí notei que esse tipo de debate não tinha aparecido em nenhuma forma no grupo dos idosos.

Voltei muito inquieto. Percebi que nunca havia me atentado para isso – e eu já trabalhava com envelhecimento fazia uma década. Não lembrava de quantas vezes havia tido contato com uma pessoa idosa LGBT. Como isso poderia ter acontecido?

Foi algo que me tocou, e então comecei a projetar a minha velhice. Caso eu precise de uma ILPI ou de um atendimento médico, será que vou me sentir à vontade para que o profissional saiba que eu sou gay e respeite toda essa trajetória construída ao longo da minha vida? Percebi que eu precisava trabalhar para a construção de uma velhice digna.

 Aptare – E como isso aconteceu, na prática?

Miguel – Em 2017 conheci Rogério Pedro. Ele estava iniciando os trabalhos da EternamenteSOU, uma ONG criada para fomentar a implantação de serviços e projetos voltados ao atendimento psicossocial a pessoas LGBT60+. Virei padrinho da ONG, com a missão de levar conhecimento científico para embasar as ações. Foi quando construímos a proposta de criar o primeiro seminário de velhices LGBT, exatamente para reunir informações sobre esse tema.

 Aptare – Como foi organizar esse seminário?

Miguel – Foi um projeto ousado, que sofreu bastante preconceito e críticas. Chegaram a dizer que eu ia ficar estigmatizado ao passarem a me ver como um profissional que trabalha com idosos LGBT. Com muita dificuldade conseguimos fazer o evento. Sem muitos recursos financeiros, viabilizamos algumas parcerias. Até para encontrar pessoas idosas LGBT foi difícil. Elas viveram na exclusão a vida toda, sofreram violência de todos os tipos; é natural o receio de não encontrar um local de acolhimento. Mas vencemos essas barreiras. Nos dias 26 e 27 de junho deste ano realizamos a terceira edição do seminário, e a cada vez ganhamos mais visibilidade e encontramos menos resistência. Mais do que contar com especialistas e trazer experiências exitosas, o objetivo é abrir um espaço de fala. Tanto que a primeira mesa do evento deste ano foi uma roda de conversa, protagonizada por pessoas idosas LGBT, sobre histórias de resistência e luta contra o preconceito e a violência.

Atualmente, a EternamenteSOU tem diversos projetos, como coral, dança, terapia, atendimento psicológico. Há também um encontro mensal chamado Café & Memórias LGBT50+. Em 2018 tivemos a primeira turma do curso de introdução a velhices LGBT, e há previsão de novas turmas em breve.

 Aptare – Com essa experiência dos seminários e na busca por dados que ajudem a compreender a dinâmica dessa população, já foi possível identificar como estão o acesso e o uso dos serviços de saúde por pessoas LGBT?

Miguel – Não temos estudos que tragam a realidade aqui no Brasil. Em um trabalho de revisão bibliográfica de estudos internacionais realizada por Milton Crenitte, docente em gerontologia e saúde pública, com o qual colaborei, os dados apontavam uma forte tendência ao isolamento social e à solidão, a piores controles de doenças crônicas, como diabetes, e menor adesão a exames preventivos, como mamografia ou papanicolau, no caso das mulheres lésbicas. No fim da vida, inclusive, as pessoas LGBT relatam, em pesquisas, o medo de ficar sozinhas, de ser discriminadas e de morrer com dor. Em outro estudo, com 144 idosos, 25% não tinham “assumido” sua orientação sexual para o médico, 26% expressaram que nunca iriam revelar a sua orientação sexual e 20% apresentavam receio da reação do profissional de saúde caso ele descobrisse a sua identidade LGBT.  Já outra pesquisa mostrou que pessoas trans preferiam suicidar-se se tivessem que depender de uma instituição ou de pessoas que não respeitassem as suas identidades. E esses dados são de países onde a questão LGBT está muito avançada do que aqui no Brasil.

Nos seminários da EternamenteSOU ouvimos depoimentos que dão uma ideia da realidade nacional: uma idosa trans contou que precisava fazer o exame de próstata mas o médico negou o atendimento porque não se sentia à vontade de fazer o exame nela. Mais de uma mulher lésbica idosa disse que precisava esconder sua orientação sexual para a família cuidar dela na velhice. Eram mulheres solitárias, que precisavam de cuidados de saúde, e a condição que a família impunha era a de que “elas deixassem de ser lésbicas”. Uma delas comentou que não frequentava o centro de convivência perto de casa porque lá a esposa tinha que ser apresentada como se fosse uma amiga.

Aptare – Com relação às políticas públicas para essa população, qual a realidade no Brasil?

Miguel – Especificamente para idosos LGBT não há nenhuma ação desenvolvida. Existem algumas para LGBT, mas para idosos LGBT não. Essa é uma das questões importantes do EternamenteSOU. Nós sabemos que estamos inseridos num contexto enrijecido, preconceituoso, mas queremos caminhar pelas fissuras. Existem estruturas importantes por meio das quais conseguimos dar visibilidade a essas causas e a essas pessoas que são silenciadas pelo próprio pelo sistema, como conferências e conselhos, apesar do momento de fragilidade pelo qual tudo isso está passando na política federal atual.

O maior desafio é começar a trabalhar com os serviços, para que eles tenham essa sensibilidade. A EternamenteSOU é muito procurada para dar palestras e capacitações em programas de acompanhamentos de idosos, em cursos de cuidadores de idosos, em eventos etc. Esse é um bom caminho.

 Aptare – Como tornar um centro de convivência mais atrativo e amigável para pessoas LGBT?

Miguel – O esforço dever ser para que essas pessoas se sintam em um ambiente seguro. É claro que uma instituição séria e comprometida consegue capacitar e garantir um ambiente seguro na perspectiva dos profissionais, mas é preciso descobrir como criar esse ambiente amigo da diversidade entre os usuários. Não há um modelo pronto, ele precisa ser construído e fazer parte de um processo cotidiano, como estar em filmes, em conversas informais, sem ser algo tão marcado como uma palestra, por exemplo. A partir do momento em que eu sou um profissional gay e não escondo isso no meu trabalho, isso já gera uma quebra de preconceito e de estereótipos. É importante saber que a reação não é padrão. Às vezes a gente acha que um idoso não vai receber bem uma pessoa LGBT e ele pode ter uma postura até mais acolhedora do que o profissional, porque tem essa realidade na família.

Um questionamento válido é se estão sendo oferecidas atividades que dialoguem com toda essa identidade e repertório cultural que essa pessoa teve ao longo da vida. Muitas vezes, as propostas acabam naquela coisa tradicional, como se todas as mulheres desejassem fazer tricô e crochê e todos os homens quisessem praticar atividade física. Por isso, abrir espaço para uma escuta é fundamental, garantir o lugar de fala e trazer os idosos para a construção da programação, para que eles se tornem proponentes. Isso vale para todos, inclusive para as pessoas LGBT.

Outro ponto interessante diz respeito às representações naquele espaço físico, como usar os cartazes informativos para reforçar a diversidade sexual, usando imagens com um casal de lésbicas idosas em um comunicado sobre exames preventivos, por exemplo, ou colocar uma bandeira LGBT no crachá dos profissionais.

 Aptare – O que um especialista em geriatria e gerontologia pode fazer para tornar seu atendimento mais acolhedor a pessoas LGBT?

Miguel – Primeiro, entender a diferenciação entre gênero, sexualidade, orientação sexual, identidade e expressão de gênero. Tem quem fale que é uma “sopa de letrinhas” e que “cada vez aumenta mais”, mas é fundamental derrubar esse tipo de pensamento e saber que essas letras são usadas para nomear realidades totalmente diferentes, com impacto direto na forma como deve ser o atendimento em saúde. Existem muitas organizações, associações e autores que são referências no tema, com manuais e dicas simples para ajudar nesse entendimento. Um material muito bom é o Manual de Comunicação LGBTI, que foi lançado no ano passado pela Aliança Nacional LGBTI+ e pela Rede Gay Latino, disponível para download gratuito na internet. Há um curso de saúde LGBTI da Fiocruz, também gratuito, na modalidade ensino a distância. É importante, nesse processo, buscar o autoconhecimento, se despir de preconceitos e começar a enxergar o outro como um ser livre, independente e diferente.

Um dos cuidados é não partir do pressuposto de que a pessoa idosa que nós atendemos é heterossexual; seguir com um atendimento hétero-cis-normativo já é uma violência.

 Aptare – Como fazer isso na prática diária?

Miguel – Mudar a forma de abordar e construir perguntas mais neutras. Ao invés de perguntar ‘Qual o nome de sua esposa?’, pergunte “Com quem você se relaciona?”, “Você possui alguma relação afetiva?” ou “Com quem você convive?”, por exemplo. É importante conversar de maneira que a pessoa fique à vontade para dizer qual é o gênero com o qual ela se identifica. Além disso, saber lidar e dar o atendimento adequado para situações que fujam do que considera “normal”, como uma pessoa idosa que se prostitui, uma realidade bem distante da imagem estereotipada de uma avó que fica em casa cuidando dos netos. Obviamente muitas dessas informações irão surgir conforme a pessoa atendida for criando um vínculo, construindo uma relação de afeto e confiança com o profissional. Temos de lembrar que essas pessoas sofreram muito preconceito ao longo da vida. Estuda-se na geriatria e na gerontologia que os aspectos biopsicossociais são fundamentais para a compreensão de saúde do ser humano, então, quando se trata de grupos que fogem das normas socialmente estabelecidas, isso tem que ser considerado de forma muito mais aprofundada.

 Aptare – É comum ouvir que “tratar diferente é que é ser preconceituoso”…

Miguel – Sim, é muito comum depararmos com esse discurso. No entanto, a ideia de igualdade é uma ideia perversa. Ela só não seria perversa se todos tivessem exatamente as mesmas oportunidades numa perspectiva sociocultural, o que não é real. Nós vivemos em uma sociedade machista, racista, LGBTfóbica. O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT no mundo, só por elas serem LGBT.

Precisamos trabalhar com o princípio da equidade, segundo o qual se consideram as diferenças existentes para poder proporcionar aquilo de que a pessoa necessita. Além disso, não é que o atendimento precise ser diferente só porque se trata de uma pessoa LGBT. O que é necessário é criar um modelo de atendimento que acolha a diversidade, para que essas pessoas se sintam tão bem recebidas quanto todas as outras.

 Aptare – Com relação a instituições de longa permanência, há um modelo ideal? É positivo haver instituições exclusivas para pessoas LGBT?

Miguel – Não há uma solução única. O ideal é uma ILPI que tenha uma cultura de acolher a diversidade. O jornalista Neto Lucon fez um levantamento jornalístico envolvendo 40 ILPIs na cidade de São Paulo, perguntando se havia um idoso gay entre os moradores. Recebeu respostas como: “No asilo não tem nenhum gay, querido. É só velho, mesmo”; “Não, não trabalhamos com homossexuais”; “São senhoras muito religiosas, nenhuma lésbica, muito menos bissexual”.

Nos Estados Unidos existem duas modalidades de ILPIs: uma para todos os públicos, com cultura de acolhimento, de valorização da diversidade; e a outra específica. É a pessoa LGBT que decide em qual delas ela se sente à vontade para ficar. Porque, às vezes, ela já passou por tanta violência e violação de direitos que não quer se arriscar. Já alguns não querem sentir que estão em um lugar que tem um rótulo que os diferencia, preferem estar entre iguais. É um desafio essa questão, são várias as nuances, e devemos respeitar o direito de escolha de cada um.

 Aptare – O contato com todas essas questões tem, de alguma forma, lhe proporcionado mudanças pessoais?

Miguel – Sim. Percebi que tenho uma dívida histórica com as pessoas idosas LGBT. Muitas das coisas que eu posso viver foi graças a um histórico de luta. Os depoimentos me emocionam bastante porque as pessoas das gerações anteriores passaram por coisas que talvez eu nunca passe na minha vida, graças às conquistas já alcançadas. Então, o que eu posso fazer para compensar isso é pensar no que eu vou deixar de legado. Pode soar pretensioso, mas não é. É o desejo de fazer o que for preciso para que eu e outras pessoas LGBT cheguemos à velhice com dignidade, com respeito às nossas histórias e identidades. Se eu tiver uma demência, por exemplo, pode ter certeza de que a minha história vai permanecer comigo, não vai ser apagada por uma violência de um familiar ou de quem estiver na condução dessa situação.