Por Luis Gustavo Langoni Mariotti*

Nas últimas décadas, tem havido um aumento do número de pesquisas que avaliam os aspectos da religiosidade e espiritualidade (R/E) em diversas populações, settings clínicos e sua influência no bem-estar, qualidade de vida, remissão de doenças e mortalidade. Não por acaso, 59% das escolas médicas britânicas e 90% das escolas médicas americanas têm cursos ou conteúdos que abordam assuntos relacionados a R/E1,2. No Brasil, apenas 10% das escolas médicas apresentam algum curso específico sobre esse assunto3.

Entre as possíveis definições dos termos religião, religiosidade e espiritualidade no contexto da literatura científica, uma das mais utilizadas é a proposta por Koenig e seus colaboradores4:

  • Religião: envolve um sistema de crenças e práticas religiosas, privadas ou públicas, observado por uma comunidade, relacionado ao transcendente (Sagrado, Divino, Deus, Verdade Absoluta ou Nirvana);
  • Religiosidade: é o quanto o indivíduo exerce e manifesta suas crenças e práticas religiosas. Pode ser organizacional (participação na igreja, templo) ou não organizacional (preces, leituras religiosas, assistir a programas de TV/rádio, acender velas, usar acessórios);
  • Espiritualidade: é a busca pessoal do significado e propósito definitivo da vida, incluindo a relação com o transcendente, com o semelhante, a natureza, a arte e com pensamento racional.

A importância da religião e a frequência religiosa podem aumentar com o envelhecimento. Uma pesquisa americana de 2002 mostrou que a religião é muito importante para 60% da população entre 50 a 64 anos, para 67% na faixa entre 65 a 74 anos e para 75% daqueles acima de 75 anos. Quanto à frequência religiosa, 44% das pessoas entre 50 a 64 anos, 50% entre 65 a 74 anos e 60% com mais de 75 anos de idade relataram ter frequentado a comunidade religiosa na última semana5.

Entre os idosos americanos internados, 53,4% relatam frequentar serviços religiosos uma vez por semana ou mais, 58,7% oram ou estudam a Bíblia uma ou mais vezes e mais de 40% relatam espontaneamente que a fé religiosa é o fator mais importante que lhes permite lidar com o adoecimento6.

No Brasil, uma pesquisa que avaliou a qualidade de vida e a religiosidade entre 911 idosos do município de São Paulo mostrou que 49,5% deles frequentam quase semanalmente ou mais de uma vez por semana a igreja, 86,4% rezam uma ou mais vezes ao dia, 92,4% consideram a religião importante na vida, 88,5% consideram que a religião dá muita força para enfrentar as dificuldades e 85,9% pensam que a religião dá muito ou totalmente sentido à vida7.

 

Envelhecimento bem-sucedido

Atualmente, um assunto bastante estudado é o envelhecimento bem-sucedido. Alguns autores têm proposto que a dimensão espiritualidade seja considerada junto com os demais fatores que estão associados ao conceito de envelhecimento bem-sucedido (ausência de doenças e incapacidades, alto funcionamento físico e cognitivo e envolvimento na sociedade) devido aos efeitos das crenças religiosas e espirituais na saúde física e mental8.

Transtornos de humor são muito prevalentes entre idosos e podem levar a uma pior qualidade de vida de pacientes e cuidadores, incapacidade física, prejuízo na cognição, aumento dos custos dos cuidados e aumento da mortalidade (suicídio ou doença física). Um estudo envolvendo 850 homens idosos hospitalizados na Carolina do Norte (EUA) mostrou que 20% deles utilizaram a religião para enfrentar doenças e que os sintomas depressivos foram inversamente relacionados ao enfrentamento religioso, uma associação que persistiu após o controle de variáveis sociodemográficas e de saúde. Quando 202 homens foram reavaliados durante as admissões hospitalares subsequentes, em média seis meses depois, o enfrentamento religioso foi a única variável de base que previu escores mais baixos de depressão no acompanhamento9.

Um estudo brasileiro avaliou a religiosidade de 110 idosos em uma clínica de reabilitação. Após o controle de variáveis, aqueles que davam pouca importância à religião tiveram mais sintomas depressivos e dor mais intensa. Também se verificaram melhor cognição e melhor qualidade de vida entre aqueles que relataram maior importância da religião em sua vida10.

A funcionalidade pode também ser afetada pela religiosidade. Uma pesquisa que avaliou mais de 2,9 mil idosos nos EUA, seguidos por até dez anos, mostrou que o envolvimento religioso (frequência religiosa) foi forte preditor independente contra o declínio funcional (71% menos limitações nas AIVDs, 77% menos nas ABVDs e 89% menos na mobilidade)11.

Alguns estudos têm mostrado a associação entre religiosidade e mortalidade. Um dos trabalhos, que envolveu o seguimento por 16 anos de 74 mil mulheres (Nurses Health Study), com idade média de 61 anos, mostrou que a mortalidade geral foi 33% menor, o risco de morte cardiovascular foi 27% menor e o risco de morte por câncer foi 21% menor entre aquelas cuja frequência religiosa era maior que uma vez por semana12.

Um outro estudo mais antigo que procurou avaliar essa associação acompanhou por seis anos 3.968 idosos de 61 a 101 anos13. Houve 1.777 mortes (29,7%). O risco de morte foi 46% menor entre aqueles que frequentavam mais de uma vez por semana a comunidade religiosa. Após o controle de variáveis, o risco de morte caiu para 28%, sendo relevante se comparado à redução de mortalidade promovida por outras intervenções em saúde, como a redução do risco de morte com cessação do tabagismo (29%), terapia com estatina (12%), uso de anti-hipertensivo para idosos (12%) e uso de aspirina em baixa dose para prevenção secundária de eventos cardiovasculares (18%).

Em relação à cognição, importante domínio da avaliação multidimensional do idoso, os aspectos religiosos e espirituais parecem estar associados com melhor capacidade cognitiva. Uma revisão recente de 17 estudos, alguns deles com seguimento de até sete anos, envolveu 35.741 participantes com uma faixa etária de 46 a 92 anos – entre eles, 506 tinham demência de Alzheimer, 680 tinham outras demências, 238 tinham comprometimento cognitivo leve e 310 tinham doença renal crônica. Cerca de 34.007 participantes não tinham informação detalhada sobre seu estado de saúde. A revisão identificou que 82% dos estudos relataram associações positivas (espiritualidade autorrelatada, práticas religiosas privadas) com função cognitiva14.

Um aspecto relevante a ser estudado são os comportamentos de saúde na população adulta jovem e idosa. Em relação ao tabagismo, por exemplo, na população em geral, 22 dos 25 estudos mostraram correlações inversas significativas entre envolvimento religioso e tabagismo5. Em uma amostra aleatória de 4 mil idosos (> 65 anos), aqueles com frequência religiosa de uma ou mais vezes por semana, com oração diária e que estudavam a Bíblia uma vez ao dia tinham 90% mais chances de não ser fumantes, em relação aos não religiosos15.

A relação dos aspectos religiosos e espirituais com os desfechos em saúde pode estar relacionada a alguns fatores, como redução do estresse, manejo de adversidades, promoção de sentido à vida (satisfação com a vida, otimismo, autoestima), favorecimento de respostas psicossociais (reduzindo sentimento de hostilidade e raiva, estimulando a humildade, compaixão, gratidão e altruísmo), oferecimento de suporte social (templos religiosos são também locais de apoio, de troca, atividades voluntárias) e estímulo a comportamentos saudáveis.

Portanto, faz-se necessário o treinamento pelos profissionais de saúde na abordagem dos aspectos religiosos e espirituais dos idosos, com a identificação de fontes de sofrimento espiritual, de valores e crenças que podem interferir no bem-estar físico, emocional e social e na tomada de decisões médicas.

 

Referências bibliográficas:

  1. Neely D, Minford EJ: Current status of teaching on spirituality in UK medical schools. Medical education 2008, 42:176–182.
  2. Koenig HG, Hooten EG, Lindsay-Calkins E, Meador KG: Spirituality in Medical School Curricula: Findings from a National Survey. Int J Psychiatry Med 2010, 40:391–398.
  3. Lucchetti G, Lucchetti AL, Espinha DC, de Oliveira LR, Leite JR, Koenig HG. Spirituality and health in the curricula of medical schools in Brazil. BMC Med Educ. 2012;12:78.
  4. Koenig HG, McCullough ME, Larson DB: Handbook of religion and health. USA: Oxford University Press; 2001.
  5. Gallup G. The religiosity cycle. Gallup Tuesday Briefing June 2, 2002 [on-line].
  6. Koenig HG. Religious attitudes and practices of hospitalized medically ill older adults. Int J Geriatr Psychiatry. 1998 Apr; 13(4): 213–224.
  7. Abdala, Gina Andrade et al. Religiosidade e qualidade de vida relacionada à saúde do idoso. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 49, 55, 2015.
  8. Lucchetti, Giancarlo et al. O idoso e sua espiritualidade: impacto sobre diferentes aspectos do envelhecimento. Rev. bras. geriatr. gerontol. [online]. 2011, vol.14, n.1.
  9. Koenig, H. G., Cohen, H. J., Blazer, D. G., et al. Religious coping and depression among elderly, hospitalized medically ill men. The American Journal of Psychiatry, 1992, 149(12), 1693-1700.
  10. Lucchetti G, Lucchetti AG, Badan-Neto AM, Peres PT, Peres MFP, Moreira-Almeida A, et al. Religiousness affects mental health, pain and quality of life in older people in an outpatient rehabilitation setting. J Rehabil Med, 2011.
  11. Celia F. Hybels, Dan G. Blazer, Linda K. George, Harold G. Koenig, The Complex Association Between Religious Activities and Functional Limitations in Older Adults, The Gerontologist, Volume 52, Issue 5, October 2012, Pages 676–685.
  12. Li S, Stampfer MJ, Williams DR, VanderWeele TJ. Association of Religious Service Attendance With Mortality Among Women. JAMA Intern Med. 2016;176(6):777–785.
  13. Harold G. Koenig, Judith C. Hays, David B. Larson, Linda K. George, Harvey Jay Cohen, Michael E. McCullough, Keith G. Meador, Dan G. Blazer, Does Religious Attendance Prolong Survival? A Six-Year Follow-Up Study of 3,968 Older Adults, The Journals of Gerontology: Series A, Volume 54, Issue 7, July 1999, Pages M370–M376.
  14. Shera Hosseini, Ashok Chaurasia, Mark Oremus, The Effect of Religion and Spirituality on Cognitive Function: A Systematic Review, The Gerontologist, Volume 59, Issue 2, April 2019, Pages e76–e85.
  15. Harold G. Koenig, Linda K. George, Harvey J. Cohen, Judith C. Hays, David B. Larson, Dan G. Blazer, The Relationship Between Religious Activities and Cigarette Smoking in Older Adults, The Journals of Gerontology: Series A, Volume 53A, Issue 6, November 1998, Pages M426–M434.

 

*Luis Gustavo Langoni Mariotti – Médico com especialização em geriatria (EPM/Unifesp), com título de especialista em geriatria pela Associação Médica Brasileira (AMB) e área de atuação em medicina paliativa (AMB); professor colaborador do Instituto Paliar, coordenando as disciplinas de Sintomas Gerais e Emergências e Religiosidade e Espiritualidade em Cuidados Paliativos; médico assistente do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas de Botucatu (HCFMB/Unesp); coordenador do Departamento de Cuidados Paliativos da Associação Médico-Espírita do Brasil