Por João Senger – Médico pós-graduado em geriatria; mestre em saúde coletiva; pesquisador do Centro de Estudos do Envelhecimento/Instituto Moriguchi (Veranópolis-RS); professor colaborador do curso de pós-graduação em gerontologia da Universidade de Caxias do Sul (RS)

O aumento da longevidade do ser humano traz consigo a expectativa de que ela seja acompanhada de qualidade de vida. Essa qualidade de vida passa necessariamente pela manutenção da funcionalidade, que engloba a autonomia (funções cognitivas) e a independência (mobilidade). Nesse contexto, a mobilidade é o maior problema locomotor dos idosos e é geralmente comprometida por condições como distúrbios articulares, sarcopenia e osteoporose. Estudos mostram que é possível que os dois últimos tenham alterações fisiopatológicas semelhantes, porém em tecidos diferentes.  A sarcopenia é a perda de massa e função da musculatura esquelética, associada ao envelhecimento, que resulta na perda da performance e da capacidade física e, consequentemente, em má qualidade de vida (ICFSR, 2018).

Já a osteoporose é uma desordem esquelética caracterizada por comprometimento da resistência óssea (densidade óssea e qualidade óssea, comprometendo a microarquitetura), predispondo ao risco de fratura (NIH Consensus Development Panel 2001).

Fonte: Binkley N, Buehring B. Assessment of skeletal Health. J of Clinical Densitometry

A relação entre sarcopenia e osteoporose é clara por similaridade de causas, consequências e tratamentos. Alguns autores passaram a se referir a essa relação como uma nova síndrome geriátrica: a osteossarcopenia ou sarco-osteoporose, onde existe uma diminuição tanto de força muscular quanto de fragilidade óssea.        

RELAÇÃO OSSO / MÚSCULO 

Ponto de vista físico:

Carga ou tração muscular e consequente melhora ou piora da condição óssea. É necessário haver impacto, gerado pela contração muscular, para fortalecimento muscular e ósseo. Os exercícios indicados incluem caminhar, subir e descer escadas e dançar.

 Ponto de vista fisiológico:

A falta da secreção de fatores de crescimento pelo osso afeta as células do músculo. O mesmo ocorre na via oposta, já que a fraqueza do músculo provoca fragilidade do osso (Ocarino, 2006).

Ossos, músculos e tecidos associados, como tendões e ligamentos, precisam de peso de impacto para evitar atrofia e ganhar ou recuperar volume e força. Além de atuar como um órgão endócrino para a manutenção da massa óssea, a musculatura forte minimiza o risco de fraturas, sustentando melhor o equilíbrio e minimizando quedas, além de absorver/dissipar parcialmente as forças associadas a quedas.

Esses tecidos não apenas reagem à estimulação endócrina como também produzem hormônios que afetam o metabolismo e as atividades (Kawao, 2015). Além disso, músculo e osso atrofiados são geralmente substituídos por tecido adiposo. A infiltração significativa de gordura nos músculos e na medula óssea em pacientes com osteossarcopenia destaca o possível envolvimento de lipotoxicidade e inflamação local na osteossarcopenia associada à idade, principalmente nos casos que chamamos de obesidade sarcopênica (acúmulo de gordura e diminuição de massa magra) (Hirschfeld, 2017).

Ligação entre osteoporose e sarcopenia (Blümel, 2019)

Fatores de risco para osteossarcopenia (Pérez-Lopez, 2016)

  • Envelhecimento
  • Sexo feminino
  • Alta ingesta de bebida alcoólica
  • Uso de glicocorticoides
  • Menopausa (nas mulheres)
  • Baixa ingesta de proteínas
  • Baixa massa óssea
  • Tabagismo
  • Dieta pobre em cálcio
  • Hipogonadismo (baixa produção de testosterona em homens)
  • Hiperparatireoidismo
  • Obesidade
  • Artrite reumatoide
  • Insuficiência renal crônica
  • Baixa mobilidade e funcionalidade

Como diagnosticar?

Um histórico anterior de quedas e/ou fraturas em idosos deve alertar os médicos sobre a presença de osteossarcopenia. Sinais clínicos comuns de osteoporose incluem cifose (desvio da coluna dorsal para a frente) e diminuição da altura das vértebras, devido a fraturas patológicas destas após a meia-idade. Fraqueza muscular, quedas e diminuição da função podem indicar sarcopenia. No entanto, em muitos casos a osteossarcopenia é assintomática até que ocorra uma fratura catastrófica, justificativa para a avaliação regular da massa e da função óssea e muscular de idosos com fatores de risco para essa doença (Hassan, 2017).

Por razões econômicas e logísticas, o método de diagnóstico mais econômico para a sarcopenia é o DXA, que já possui indicações claras para o diagnóstico de osteoporose, sendo necessário incluir uma função de análise da composição corporal (Racgp, 2010).

A função muscular, no entanto, é medida por estimativa de força e função usando-se uma combinação de técnicas, como a velocidade da marcha, que pode ser facilmente medida na prática geral, e a força de preensão, avaliada através de um dinamômetro, seguindo protocolos e valores de corte bem estabelecidos. Em alguns casos, pessoas frágeis, mais velhas e com pouca mobilidade não podem deambular ou frequentar uma instalação com DXA. Nesses casos, a bioimpedância pode ser uma alternativa útil e de baixo custo, que pode ser combinada com a força de preensão para fazer o diagnóstico de sarcopenia. Embora menos precisa do que as máquinas BIA de alta qualidade, mas como uma alternativa de baixo custo e acessível, a composição corporal também está incluída em muitas balanças disponíveis, que mostram porcentagens de gordura, músculo e água (Cruz-Jentoft, 2010). O Consenso Europeu concordou que, mesmo na ausência de imagens ou BIA, os parâmetros clínicos (velocidade da marcha e força de preensão) são confiáveis ​​o suficiente para diagnosticar sarcopenia na prática clínica.

 Testes recomendados para identificar causas secundárias de osteossarcopenia

(Hassan, 2017):

  1. Dosagem 25(OH) vitamina D
  2. Dosagem cálcio sérico
  3. Dosagem hormônio PTH
  4. Creatinina sérica/valor estimado de filtração glomerular
  5. Albumina sérica
  6. Testosterona sérica nos homens

 Recomendações para prevenção e tratamento

Um estilo de vida saudável, incluindo ingesta adequada de proteínas e cálcio e a prática regular de exercícios que envolvam força e equilíbrio, é a opção de prevenção e tratamento de primeira linha para a osteossarcopenia. Paralelamente à intervenção farmacológica, os pacientes devem receber instruções sobre prevenção de quedas e fraturas (Hassan, 2017).

Estilo de vida saudável – Parar de fumar, beber álcool com moderação.

Atividade física – Treinamento de resistência e equilíbrio pelo menos duas vezes por semana, durante pelo menos 30 minutos por sessão.

Vitamina D e cálcio Particularmente naqueles com baixos níveis de vitamina D (ou seja, <50 ng/mL). O objetivo é mantê-lo acima de 75 ng/ml para garantir a eficácia antiqueda e antifratura. No caso do cálcio, a ideia é manter, preferencialmente, uma meta de de 1,2 g/dia (Duque, 2017).

Tratamento farmacológico para osteoporose Deve ser iniciado em todos os pacientes com escore T da densidade mineral óssea (DMO) < 2,5 desvio-padrão (DP) ou em pacientes em uso de corticosteroides (7,5 mg/dia por mais de três meses e um escore T na DMO < 1,5 DP). Isso inclui tratamentos de primeira linha, como bisfosfonatos (alendronato, risedronato e ácido zoledrônico) ou antagonista de RANKL (denosumab). Teriparatida (anabólico ósseo) deve ser considerada em pacientes de alto risco que fraturam em uso de antirreabsortivos por mais de 12 meses e têm histórico de escore T da DMO < 3 SD (DUQUE, 2013).

Consumo de proteínas Além da proteína na dieta, a suplementação proteica de alta qualidade (até 2 g/kg/dia em pacientes com função renal normal e um máximo de 1,2 g/kg/dia em pacientes com insuficiência renal), especialmente combinada ao exercício, melhora consistentemente função e força muscular (Phu, 2015).

Em conclusão, é vital aumentar o conhecimento geral sobre osteossarcopenia entre pacientes e profissionais da área médica, particularmente os clínicos gerais, como sentinelas da prevenção, controle e tratamento de doenças.

Referências bibliográficas:

  1. BINKLEY N, Buehring B. Assessment of skeletal Health. Journal of Clinical Densitometry, 2009;12(4);413-6.
  2. BLÜMEL JE, Artega E, Vallejo MS, Chea R; The Links Between Osteoporosis and Sarcopenia in Women; Postmenopausal Diseases and Disorders. Springer, Cham; pp 395-404, 2019.
  3. CRUZ-JENTOFT AJ, Baeyens JP, Bauer JM, et al. Sarcopenia: European consensus on definition and diagnosis: Report of the European Working Group on Sarcopenia in Older People. Age Ageing 2010;39(4):412–23.
  4. DUQUE G, Daly RM, Sanders K, Kiel DP. Vitamin D, bones and muscle: Myth versus reality. Australas J Ageing 2017;36 Suppl 1:8–13.
  5. DUQUE G. Osteoporosis in older persons: Current pharmacotherapy and future directions. Expert Opin Pharmacother 2013;14(14):1949–58.
  6. ICFSR – International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia: screening, diagnosis and management. J Nutr Health Aging, 2018;22(10):1148-1161.
  7. KAWAO N, Kaji H. Interactions between muscle tissues and bone metabolism. J Cell Biochem 2015;116(5):687–95.
  8. HASSAN E B, Duque G; Osteosarcopenia: A new geriatric syndrome; Chest pain. Nov 2017; 849-853.
  9. HIRSCHFELD HP, Kinsella R, Duque G. Osteosarcopenia: Where bone, muscle, and fat collide. Osteoporos Int 2017.
  10. NIH Consensus Development Panel 2001, Osteoporosis prevention, diagnosis, and therapy. JAMA.2001 Feb 14;285(6):785-95.
  11. PÉREZ-LOPEZ FR, Ara I. Fragility fracture risk and skeletal muscle function. Climacteric 2016;19(1):37–41.
  12. PHU S, Boersma D, Duque G. Exercise and sarcopenia. J Clin Densitom 2015;18(4):488–92.
  13. OCARINO NM e Serakides R; Efeito da atividade física no osso normal e na prevenção e tratamento da osteoporose; Rev Bras Med Esporte _ Vol. 12, Nº 3;2006.
  14. RACGP- The Royal Australian College of General Practitioners. Osteoporosis prevention, diagnosis and management in postmenopausal women and men over 50 years of age. Melbourne: RACGP, 2010. Available at www.racgp.org.au/your-practice/guidelines/musculoskeletal/osteoporosis.