Diálogos

Um envelhecimento diferente a cada geração

Yeda de Oliveira Duarte é enfermeira e doutora em enfermagem, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Envolvida com os principais estudos longitudinais sobre envelhecimento do país, é coordenadora do estudo SABE – Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, no município de São Paulo. Também é membro do grupo de pesquisa ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos) e organizou um estudo sobre as condições epidemiológicas e sociodemográficas dos idosos residentes em ILPIs registradas no Censo SUAS (Sistema Único de Assistência Social), do Ministério da Cidadania.

Todas essas informações podem ser coletadas do currículo Lattes de Yeda. Mas uma, em especial, chama atenção: a pesquisadora e epidemiologista Maria Lúcia Lebrão, falecida em julho de 2016, consta como coautora in memoriam mesmo nos trabalhos recém-lançados de Yeda relacionados ao estudo SABE. “Claro, foi ela quem começou tudo”, diz, quando questionada sobre a homenagem.

O SABE teve início em 2000, uma iniciativa da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), com o objetivo de avaliar de forma longitudinal como os idosos lidam com os desafios do envelhecimento. No início, sete grandes centros urbanos estavam envolvidos na pesquisa – São Paulo é um deles. O estudo tem sido desde então liderado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, agora encabeçado por Yeda. Inicialmente, o grupo acompanhado em São Paulo era de 2.143 idosos, mas outros foram inseridos ao estudo, que tem periodicidade de cinco anos. A próxima onda do estudo longitudinal será em 2020, ano em que estabelecerá marcos. “Será o único estudo nacional com 20 anos de acompanhamento da população idosa, o que faz muita diferença para o reordenamento das políticas públicas voltadas a essa população”, explica Yeda. “No âmbito internacional, ele também é o único estudo longitudinal com 20 anos feito em uma megalópole.”

Suas publicações em periódicos nacionais e internacionais da área do envelhecimento trazem inúmeros dados de suas pesquisas, que exibem não apenas um panorama bastante preciso do momento demográfico pelo qual passa o Brasil, mas também seus reflexos em termos de saúde pública, qualidade de vida e participação social do idoso. Nesta entrevista à revista Aptare os números ficaram de fora, mas, com base neles, Yeda expressou sua preocupação com as condições de saúde da atual geração que chega aos 60 anos e com a precariedade nos cuidados que os idosos enfrentam e, se nada mudar, enfrentarão(emos) nas próximas décadas.

Aptare – Qual o principal desafio hoje do envelhecimento no Brasil?

Yeda Duarte – A vulnerabilidade social. Na onda 2010 do SABE analisamos vulnerabilidade e fragilidade. Optamos por trabalhar com o VES-13, o protocolo de identificação do idoso vulnerável, que analisa a vulnerabilidade física. Unimos a ele o IPVS (Índice Paulista de Vulnerabilidade Social), desenvolvido pela Fundação Seade, a partir de dados do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dados nos mostraram uma semelhança entre a vulnerabilidade física e a fragilidade. Já aqueles que mais pontuam no IPVS nem chegam a ter fragilidade, porque morrem antes. Ou seja, os menos favorecidos socialmente não alcançam as idades mais longevas, em que a fragilidade é mais comum. Portanto, a desigualdade social ainda é um fator importante para a longevidade e um desafio ao envelhecimento.

 Aptare – A tendência é que as próximas gerações de idosos vivam progressivamente mais e com mais saúde?

Yeda – Não, isso é um mito. Para explicar, é preciso falar um pouco sobre como o SABE foi concebido. Ele nasceu da vontade de compreender como as pessoas em países em desenvolvimento estavam envelhecendo. Ou seja, as pessoas estão vivendo mais, mas de que maneira? Aqui em São Paulo – e o Brasil foi o único país a continuar a pesquisa – acompanhamos os idosos a cada cinco anos. A primeira coorte foi em 2000, com 2.143 pessoas. Além da amostra representativa da população, fizemos uma subamostra com as mais longevas, aquelas acima de 75 anos. Hoje, 20 anos depois, daqueles 2.143 iniciais, temos 380 vivos, com idade a partir de 85 anos. A riqueza de estudar o envelhecimento é esse acompanhamento com o transcorrer do tempo, para comparar os resultados com as mudanças da sociedade. Ou seja, com a história pregressa das pessoas. Então, uma geração é diferente da outra. Já analisamos pessoas que nasceram antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial. A geração atual é aquela dos anos rebeldes, a virada cultural que mudou a história da sociedade. E justamente esta última geração é muito diferente do que se costuma ver na mídia em relação ao envelhecimento saudável. Quando comparamos a coorte A, de 2000, à D, de 2015, esta última é bem pior funcionalmente. E isso, para quem estuda envelhecimento, já era esperado. Quem idealizou o SABE, na Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), já previa isso. Nesse hiato de 20, 30 anos entre as gerações de idosos, essa nova leva, que nasceu entre 1951 e 1955, está em piores condições, por causa das mudanças culturais que impactaram sensivelmente a sociedade. Basta pensar nos filmes dos anos 50. Fumar e beber era glamouroso e refinado, não havia um personagem que não fizesse isso. Era o comportamento socialmente esperado, e as pessoas entrariam na vida adulta quanto mais precocemente adotassem esses hábitos. Só foram orientadas a parar quando já estavam velhas ou doentes, mas passaram a vida toda fazendo isso. Outra vertente é a geração hippie, com a introdução do LSD. Já chegam aos 60 com maior índice de déficit cognitivo. Essa geração também não era habituada a praticar atividade física, não se falava sobre isso. Então eles chegam à velhice com incapacidades que os que hoje têm 80, 90 não apresentaram quando tinham aquela idade.

Aptare – Mas a geração anterior também não tinha a questão da atividade física em seu dia a dia…

Yeda – Sim, mas é uma geração que trabalhou na roça e não tinha TV, portanto, não tinha controle remoto. Eles se alimentavam em casa, de forma mais saudável, mais natural. E não fumavam, porque os pais não permitiam. Claro que essas pessoas viveram em uma época sem antibiótico, sem vacina e com baixo acesso a serviços de saúde, mas, dessa geração, quem era mais fragilizado já morreu. Quem sobreviveu é porque adquiriu imunidade melhor. Por mais frágil que seja hoje, é mais forte que a geração atual.

Aptare – Podemos inferir que o país não está preparado para essas diversas velhices?

Yeda – Sem dúvida, não está. Essas diferenças precisam ser valorizadas, mas não são. Ao invés de compreendermos, culpabilizamos o próprio idoso. E, sem entender de onde ele veio, sem conhecer sua origem, falamos que ele tem que se alimentar de forma saudável e fazer exercício físico. No entanto, o que temos de positivo é que parte dos adultos que estão chegando bem agora aos 60, 70 é mais escolarizada e está discutindo seus direitos. Eles têm de chamar atenção para o outro lado de sua geração – os idosos que não estão tão bem de saúde e o que é preciso para cuidarmos bem deles.

 Aptare – Mostrar essas diversas velhices é um dos principais destaques do estudo SABE?

Yeda – Nosso principal objetivo com o SABE é apontar esse panorama do envelhecimento, não para alimentar as universidades e publicar papers, mas para ajudar a reordenar as políticas públicas para que estejam mais de acordo com as necessidades da população idosa. Olhamos para os resultados como se eles fossem impactar os velhos de hoje. Não vão. O que sabemos hoje deve apontar soluções para as gerações futuras. Veja a política de envelhecimento ativo da Organização Mundial da Saúde, por exemplo. A ideia original é garantir que todos os idosos tenham a possibilidade de participação social, independentemente de sua condição social. Para isso, a sociedade precisa ser mais inclusiva e solidária. As pessoas precisam se importar mais umas com as outras, porque as redes de relacionamento são muito importantes. São elas que vão garantir cuidado, interação, diminuir o isolamento social. Tudo isso tem um impacto muito positivo na saúde do idoso. E são medidas simples de ser feitas.

Aptare – Como?

Yeda – O Programa Porteiro Amigo do Idoso, por exemplo. É uma iniciativa incrível e não precisa ser formal. Todo prédio pode ter, basta conversar com o síndico e o zelador. O primeiro passo é saber quantos idosos vivem sozinhos e, com base nisso, deixar combinado: os funcionários do prédio têm que falar ou ver o idoso uma vez ao dia. Se ele não sair, deve-se ligar lá no apartamento. Se o idoso não atender, é preciso ir até lá e tocar a campainha. Se ele não responder, chama-se um parente ou alguém que tenha a chave. Basta, portanto, que as pessoas estejam atentas a isso. Outro bom exemplo são as UBS (Unidades Básicas de Saúde), que fazem reuniões em grupos para diversas situações – de dor a doenças crônicas. Li que, em uma delas, em uma periferia, uma enfermeira percebeu que as frequentadoras idosas eram as mesmas, em todos os grupos, todos os dias. Elas passavam a maior parte do tempo cada uma em sua casa, sozinhas. Então essa enfermeira propôs que elas, que moravam próximas umas às outras, começassem a cozinhar uma vez por semana para as demais. Então, no dia em que uma prepara o almoço, ela organiza a casa para receber as outras, se arruma. As outras também se arrumam para sair de casa, levam um bolinho ou uma florzinha. No fim, acabaram ficando amigas, começaram a sair e largaram as reuniões da UBS, porque até os sintomas das doenças crônicas melhoraram. Ou seja, tudo o que elas precisavam era de interação social. Embora morassem na mesma comunidade, faltava alguém para promover o elo. É isso o que perdemos em grandes centros urbanos como São Paulo. Há idosos que nos ligam para saber quando a equipe do SABE vai visitá-los, porque não recebem a visita de mais ninguém.

Aptare – A falta de interação social nas grandes cidades é um problema maior do que a oferta de serviços de saúde?

Yeda – Na minha opinião, acho que a questão de serviços de saúde não é o principal problema. O que existe em São Paulo, por exemplo, é desigualdade de condições. O idoso que depende do atendimento público consegue marcar consultas e exames, mas o que dificulta é o acesso aos serviços. Na primeira geração do SABE, os idosos moravam principalmente em regiões centrais. Agora, nas demais, não. Muitos vieram de outros locais e moram em regiões mais periféricas. Se precisarem de um exame mais qualificado, não será nas estruturas de saúde locais. E esse idoso não consegue circular pela cidade com tanta facilidade, pode ter dificuldade de chegar até os serviços. Não é uma cidade amigável para o idoso. E em muitos casos ele não tem suporte familiar ou social para acompanhá-lo ou levá-lo à consulta. E isso, sim, pode prejudicar em termos de saúde. Então ele ficará em casa, mas não com o cuidado suficiente. Aliás, aqui em São Paulo os idosos ajudam mais as famílias do que são ajudados. Eles têm papel significativo em termos financeiros, na manutenção estrutural e de conjuntura da família. São eles quem cuidam do neto. Se o filho perde o emprego, volta para a casa dos pais. Por isso muitos ainda trabalham, seja porque precisam ou porque gostam.

 Aptare – Com as famílias cada vez menores, quem vai cuidar dos idosos dependentes?

Yeda – Sobre cuidados, os resultados do SABE são muito parecidos com os do ELSI. Fizemos um trabalho mostrando como a família cuida do idoso, pegando aqueles com dependência para atividades da vida diária, com limitação funcional e que, necessariamente, precisariam de um cuidador. Olhamos para a família que supostamente cuida, mas, na melhor das hipóteses, os resultados nos mostraram que ela só supre 50% das necessidades de cuidados de que ele precisa. Porque a família não tem estrutura. E 15,7% dos idosos do SABE moram sozinhos e 8,1% apenas com o neto. Bom, morar com o neto ou sozinho dá no mesmo (risos), não tem cuidado nenhum. Sabendo disso, que as famílias só conseguem dar metade do que o idoso precisa em termos de cuidado, é que o SABE trabalha com saúde pública. Por causa desses resultados, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo criou, em 2005, o PAI – Programa Acompanhante de Idoso, que atende mais de 5 mil idosos. A ideia era ser um piloto e que servisse de inspiração para ser expandido pelo Brasil, porque, em média – e isso é um dado do ELSI –, 11,5% da população idosa não é cuidada, porque não tem quem cuide. Mas o PAI não ganhou escala nacional. Espero que isso mude com as novas gerações de idosos, mais empoderadas e esclarecidas, exigindo seus direitos.

Aptare – Falando em cuidado, você coordenou a pesquisa sobre as ILPIs no censo SUAS, que são as instituições cadastradas no Ministério da Cidadania. Temos ILPIs em número suficiente e de boa qualidade no Brasil?

Yeda – As ILPIs cadastradas no SUAS são 3.548, das quais 235 públicas ou mistas. Elas nem de longe representam o total do país, são apenas as cadastradas. Porque a maioria mesmo das públicas é municipal e, portanto, não está cadastrada em âmbito federal. Encontramos de tudo um pouco, mas em geral o resultado não é bom. Veja bem, as ILPIs nasceram como instituição social, tanto que eram ligadas ao Ministério do Desenvolvimento Social, hoje Cidadania. Ou seja, são consideradas opção de moradia, não de saúde. Mas o perfil das pessoas que dependem de ILPIs foi mudando gradativamente, e o principal problema é que faltam cuidados de saúde para quem vive nelas. Algumas instituições tinham até enfermeiros, mas a legislação não obriga, já que não é uma instituição de saúde. Outras contratam um técnico de enfermagem, mas, sem um enfermeiro para supervisionar, é proibido. Então, se os moradores têm necessidades de medicamentos, quem dá a medicação? A maioria dos cuidadores não tem nem nível universitário! E o presidente vetou a lei para regulamentar a profissão de cuidador. Por outro lado, também existe uma regulamentação de que as instituições precisam de cuidadores para cuidar de pessoas com incapacidade. Mas esse cuidador não existe enquanto profissional.

Aptare – Para além desse problema de cuidados, você e sua equipe encontraram boas instituições? O que as diferenciava das demais?

Yeda – As boas instituições têm gestores realmente interessados e motivados. São eles que fazem com que elas estejam bem organizadas, com bom serviço, trabalhando em prol dos idosos. Essas pessoas são, normalmente, reconhecidas por seu trabalho nas cidades em que estão. A principal queixa dos gestores – e dos idosos entrevistados – é sobre a dificuldade das instituições na prestação de cuidados em saúde.

Aptare – Então os idosos com algum grau de dependência ou necessidade não estão recebendo os cuidados que precisam nessas ILPIs cadastradas no SUAS?

Yeda – Não. E há algo ainda mais grave. Houve o programa de desospitalização dos doentes mentais, certo? Os manicômios fecharam. Há pessoas que viviam nessas instituições há 40 anos e não têm mais família. Elas foram então para as ILPIs, mas têm problemas mentais. Foram colocadas ali sem acompanhamento psiquiátrico. Representam risco para elas mesmas e para os outros.

Aptare – Mas há algo de bom que possamos destacar das instituições do SUAS?

Yeda – Bom, a vacinação funciona bem. Todos os idosos nas ILPIs visitadas são vacinados corretamente. De resto, elas prestam cuidado higiênico, alimentam e só. Ainda assim, há fila de espera, porque muitas vezes é a única opção.

 Aptare – Quais seriam as soluções em médio prazo?

Yeda – Todo esse cenário mostra que há uma carência absoluta de instituições para cuidados de longa duração. Não temos isso de forma pública. As famílias precisam de estruturas intermediárias, como centros-dia, atendimento domiciliar, programas como o PAI. Precisam de cuidadores que de fato ajudem. Sem essas estruturas, as famílias não têm como cuidar e as ILPIs públicas acabam sendo a única solução para quem não pode pagar por esses serviços.