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Atendimento global para a mulher

Atendimento global para a mulherSenior woman having a mammography scan at hospital

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Em agosto do ano passado, a Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) realizou mais uma edição do Congresso Paulista de Obstetrícia e Ginecologia. O evento, que acontece anualmente, reuniu especialistas de todo o país em busca de informações sobre a saúde feminina. Mas foi um curso pré- -congresso que chamou a atenção da comissão organizadora. Com o tema climatério, a aula foi a mais concorrida de toda a programação oferecida, reunindo cerca de 900 médicos. Entre os temas abordados estavam rastreamento de comorbidades, transtornos de humor, osteoporose, síndrome geniturinária, além de trombolismo venoso e câncer genital. Essa participação recorde mostra a crescente preocupação da classe médica em lidar com a mulher que já passou da menopausa mas que precisa manter seus acompanhamentos para cuidar da saúde ginecológica.

Essa atenção por parte dos médicos não existia cerca de 30 anos atrás. O cenário mudou, puxado pela nova expectativa de vida da mulher. Hoje, espera-se que ela viva até perto dos 80 anos, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 1970, a expectativa de vida feminina era de 65 anos. Essa diferença tem desafiado os médicos a lidar com as questões do envelhecimento à medida que a vida média da população aumenta, por estar mais bem assistida e ter melhores padrões de saúde, alimentação e higiene. A ginecologista Lúcia Helena Paiva, da Sogesp, lembra que essa maior expectativa de vida muda até mesmo a postura médica. “Hoje, esse profissional precisa ter uma abordagem multifocal, cuidando da saúde física de modo geral e da emocional. Não é mais o médico até a menopausa. Ele é médico da pós-menopausa também”, explica Lúcia, que também é chefe do Ambulatório de Menopausa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de Campinas (SP).

O problema é que a falência da produção hormonal não traz consigo apenas ondas de calor e ausência da menstruação, mas também uma série de consequências que tendem a piorar com o passar dos anos. “É importante que os médicos – ginecologistas, geriatras e médicos da atenção básica – estejam cientes das preocupações ginecológicas comuns e de seu impacto potencial sobre a função e a qualidade de vida das mulheres mais velhas”, diz a geriatra Juliana Junqueira, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), de São Paulo (SP). Ela alerta que, mesmo com o interesse maior da classe médica, a avaliação ginecológica da mulher idosa ainda é negligente. E isso ocorre por diversos fatores, como a dependência de terceiros para o transporte até a clínica médica ou a necessidade de um acompanhante, a redução da mobilidade física com restrição para o exame ginecológico – e o desconhecimento das possibilidades alternativas para essa avaliação. “Há também o constrangimento em expor o corpo e as necessidades ou dificuldades sexuais associadas a mudanças fisiológicas do envelhecimento, a falta de conhecimento das reais necessidades de prevenção e diagnóstico precoce de doenças ginecológicas e alguma experiência negativa em consulta ginecológica prévia, tanto por falta de tato na entrevista clínica como pelo desconforto no exame físico, que deve ser mais cuidadoso e delicado nas pacientes geriátricas”, diz Juliana.

Educação continuada

Diante de tantas novidades, como os médicos devem se preparar para atender essa demanda de maneira adequada? Investir em educação continuada ainda é o melhor caminho. De olho nessa importância, as sociedades médicas cumprem o seu papel realizando eventos anuais de atualização. Além do Congresso da Sogesp, a cada dois anos a Associação Brasileira de Climatério (Sobrac) realiza o seu próprio congresso, que é todo focado nessa fase de vida da mulher. No último evento, realizado em 2018, 1,1 mil pessoas participaram das aulas, palestras e apresentações de trabalho. “Os médicos inovam quando atualizam seus conhecimentos científicos para que sejam aplicados no atendimento à mulher. O importante é sempre enxergar a mulher como um todo, priorizando sua individualidade e sua qualidade devida com segurança no médio e longo prazo”, explica a médica Maria Celeste Osório Wender, membro da diretoria da Sobrac, de Porto Alegre (RS). O próximo Congresso Brasileiro de Climatério e Menopausa, da Sobrac, está previsto para acontecer entre os dias 21 e 23 de maio, em São Paulo (SP).

Seguindo nessa mesma linha de educação continuada, a Sobrac ainda realiza vários workshops ao longo do ano, abordando temas como sexualidade na menopausa e obesidade e menopausa. Também bastante concorridos, chegam a juntar 200 profissionais. Outra preocupação da entidade é manter sempre atualizado o Consenso Brasileiro de Menopausa, publicação que une as evidências científicas sobre diversos temas. Por ser uma leitura de referência para a classe médica, ele é renovado periodicamente .

A Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) é outra entidade que entende a importância de manter os ginecologistas sempre atualizados. A instituição publica vários artigos e materiais científicos direcionados aos médicos e também ao público leigo sobre afecções ginecológicas que podem ocorrer à medida que a mulher entra na fase de senilidade. Os materiais são publicados na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, na revista Femina e também disponibilizados no site da própria organização.

Reuniões semanais entre as equipes

Enquanto as entidades médicas têm a função de oferecer a educação continuada a esses profissionais, cabe aos hospitais e institutos levar essas informações até os médicos e também propor discussões a respeito de diversos temas sobre o envelhecimento feminino.

O Hospital Pérola Byington, centro de referência da saúde da mulher, em São Paulo, promove reuniões semanais no setor de ginecologia geral. Nesses encontros são discutidos vários tópicos, entre eles a mulher idosa. Além disso, uma vez por ano o hospital realiza o Curso de Diretrizes para atualização de profissionais já formados. A ideia dessas medidas é ofertar atendimento de qualidade às pacientes.

A realização de reuniões clínicas semanais também acontece no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (Iamspe). De acordo com Reginaldo Guedes Lopes, diretor do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Iamspe, tanto o corpo clínico como os residentes participam desses encontros. “As reuniões em geral são feitas com convidados de outros serviços e o tema climatério e cuidados está presente todos os meses”, afirma Lopes. A preocupação com a mulher pós-menopausa é tanta que o Serviço de Ginecologia criou há 60 anos um setor de climatério que atende cerca de 60 pacientes por semana. “Procuramos lhes oferecer atenção global, com recomendações médicas específicas sobre as mais diversas possibilidades de terapias clínicas, e informações quanto a dietas, atividades físicas e cuidados higiênicos”, explica o médico.

Novos protocolos e abordagens

Essas atualizações são tão importantes que, graças a elas, alguns protocolos médicos vêm sendo mudados. Um exemplo é o exame de Papanicolau, que antes era colhido até os 65 anos. “Hoje sabemos que isso não é suficiente. Recomendamos, por precaução, repetir o exame todos os anos”, alerta a ginecologista Eliana Aguiar Nahas, membro da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo, de Botucatu (SP). O mesmo ocorre com a mamografia, que detecta alterações na mama. Ela deve ser feita anualmente. Antes, preconizava-se o exame somente até os 69 anos.

Outro fator a que os médicos também prestam muita atenção nos dias atuais é a questão do ganho de peso. Antigamente, não era praxe dentro do consultório pesar a paciente em toda consulta ginecológica. Hoje, sabe-se que ela precisa ser pesada e que o médico deve traçar a curva de ganho de peso para fazer a abordagem correta e as intervenções necessárias. Isso porque, junto com os quilos a mais, a paciente tem aumentado o risco de desenvolver doenças como diabetes e hipertensão e problemas cardiovasculares. “Sabemos que, no Brasil, a principal causa de morte entre as mulheres de faixa etária avançada é a doença cardiovascular ou infarto ou derrame”, salienta a médica Maria Celeste Osório Wender, da Sobrac.

Por outro lado, os debates e as pesquisas também ajudam a encarar com cuidado as novas abordagens terapêuticas. A chamada medicina antienvelhecimento e a terapia de modulação hormonal, por exemplo, foram alvo de um posicionamento público da Febrasgo, pois ainda existe uma série de dúvidas importantes com relação às evidências científicas e ao real benefício para as pacientes.

O mesmo foi feito em relação ao uso de dosagens hormonais em saliva e terapias associadas. A Febrasgo se posicionou com o objetivo de mostrar aos ginecologistas e ao público leigo que, sem as devidas evidências científicas, nãoé possível fazer o uso desses recursos sem pôr em risco a vida e a saúde da paciente.

Formação de novos médicos

E não é só com os médicos veteranos que essa preocupação em lidar com a ginecologia geriátrica acontece. Os centros de ensino também estão preparando residentes para essa nova realidade. No Iamspe, por exemplo, todos os residentes do serviço de ginecologia realizam estágio obrigatório no setor de climatério e saem da residência médica com formação global em assistência à mulher nessa fase.

Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) são realizados seminários sobre o climatério para alunos, residentes e estagiários, além de rodas de conversa e discussão de casos clínicos. “Estamos elaborando um Programa Integral de Atendimento no Climatério para estender o Programa de Ginecologia Personalidade Funcional para um número maior de mulheres”, alerta o professor José Maria Soares Júnior, chefe do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMUSP e um dos autores do livro Envelhecimento Feminino (Editora Atheneu). No Programa de Ginecologia Personalidade Funcional as mulheres atendidas recebem orientações sobre os cuidados da saúde em geral e informações sobre alimentação, atividade física e atendimento psicológico.

Já o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de

Minas Gerais (UFMG) criou, em 2015, o Ambulatório de Ginecologia

Geriátrica, que funciona em Belo Horizonte e atende cerca de 20 pacientes, uma vez por semana. Lá, os residentes têm a oportunidade de aprender na prática a lidar com os cuidados no atendimento da mulher idosa. Para a ginecologista Rogéria Werneck, responsável pelo ambulatório e mestre em saúde da mulher, não basta para o futuro médico ginecologista saber tratar dos problemas pertinentes à sua especialização. “A paciente da geriatria tem outras demandas. Ela pode não ouvir direito, ter dificuldade para se locomover com agilidade, apresentar algum quadro de demência, e o ginecologista precisa aprender a lidar com isso”, explica a médica. E vai além. “A geriatria ginecológica vai ser a realidade do consultório muito em breve. Cada vez mais o médico terá pacientes nessa faixa etária”, alerta.