Diálogos

#QUEMFAZ: Diego Félix Miguel

#QUEMFAZ: Diego Félix Migueldiego

Mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo; especialista em Gerencia de Salud para Personas Mayores (OPAS – OMS); docente em cursos de pós-graduação em gerontologia e saúde pública. Atua hoje como gerente institucional do Convita, serviço gerido pelo Patronato Assistencial Imigrantes Italianos e voltado para atendimento socioassistencial de pessoas idosas imigrantes

O Convita atende em duas frentes: centro de convivência, voltado para a prevenção e o estímulo do envelhecimento ativo por meio de uma programação diversificada com mais de 15 cursos e diversos eventos mensais, com palestras, bate-papos, workshops, passeios e festas; e atendimento assistencial, um programa destinado a pessoas idosas, crianças e famílias em situação de vulnerabilidade. O serviço social realiza, através de um atendimento personalizado, composto por cadastro e avaliações individuais, a identificação das necessidades de cada usuário e acompanha ciclicamente os assistidos, promovendo a sua inserção na rede socioassistencial ou em outras políticas setoriais, visando ao fortalecimento de seus vínculos afetivos e à ampliação da rede de suporte social.

Na primeira semana de março iniciamos uma campanha interna com orientação e prevenção do coronavírus e adotamos novas posturas para as atividades presenciais, como distanciamento social e utilização de espaços abertos para as atividades em grupos. Com o avanço de casos, cancelamos as atividades presenciais e estruturamos emergencialmente novas estratégias de atuação. Os idosos foram orientados quanto às condutas de prevenção e informados sobre os acompanhamentos por teleatendimento, no qual compartilhamos um contato de referência, caso precisassem de algum auxílio.

Foram inúmeros ajustes para continuar nosso trabalho. Nos atendimentos do centro de convivência, adaptamos todas as atividades para o WhatsApp, como forma de priorizar o acesso da maioria dos idosos participantes das nossas atividades. Criamos um grupo específico para a realização das oficinas e palestras, com horário de abertura e fechamento das atividades, e organizamos programações quinzenais, que são revistas periodicamente e adaptadas de acordo com as percepções e solicitações dos idosos, realizadas por meio da pesquisa de satisfação. Também desenvolvemos campanhas para esse período, com ações intergeracionais que estimulam o protagonismo dos 60+.

Nos atendimentos assistenciais, a atualização cadastral está sendo realizada por telefone, assim como a inserção das pessoas idosas nos benefícios que oferecemos. Criamos um protocolo de teleatendimento, no qual nossa equipe contata os idosos para apresentar as atividades virtuais e acolher possíveis demandas oriundas do isolamento social. Além disso, organizamos uma logística que permite que idosos e famílias assistidas recebam as cestas básicas, medicamentos e fraldas em domicílio, e dessa forma reforçamos a orientação para que cumpram a quarentena de modo seguro e sem exposição aos riscos oferecidos pela pandemia.

Uma das dificuldades foi favorecer o acesso dos idosos às atividades e manter um canal de contato eficiente e eficaz. Ligar e conversar com eles foi a melhor decisão que tomamos, pois muitos vivem sozinhos e parte das demandas que percebemos vem da sensação de solidão e da ansiedade pelas incertezas do momento.

Outro aspecto desafiador foi a limitação ao acesso tecnológico, tanto pela falta de conhecimento quanto em função dos aparelhos. Mas muitos idosos perceberam a importância do acesso tecnológico, por isso acredito que haverá uma maior cobrança dos serviços em ofertar cursos que favoreçam esse processo. Por outro lado, há uma necessidade de os serviços manterem seu compromisso com o atendimento das pessoas idosas, mesmo diante de uma crise sanitária como a que vivemos.

Essa experiência me remete ao reforço a tecnologia aplicada ao cuidado, não apenas pela perspectiva médico-assistencial, mas também para amenizar os efeitos do isolamento social, fortalecer os vínculos afetivos, a produção, seja ela intelectual, cultural, afetiva ou até mesmo financeira, como oportunidade de novas aprendizagens.

A pandemia me mostrou que somos resilientes! Sentimos na pele diariamente que, apesar de tudo, há muita gente precisando de nós. Aprendi que quando a criatividade se esgota é hora de reforçar nossas parcerias e vínculos com aqueles que nos inspiram, conhecer outras práticas e se permitir experimentar novas percepções do fazer. Aprendi que não estamos no mesmo barco, e que as oportunidades de uns não são as mesmas de outros, porém, podemos nos reinventar e criar oportunidade de acesso, atenção e cuidado considerando essa diversidade que é o envelhecer.