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A pandemia e o os 60+: uma visão geral

Por Luciana Fleury

Era só uma questão de tempo. Como revela de forma didática o documentário Pandemic – How to prevent an outbreak, exibido pela Netflix, infectologistas, doutores em saúde pública, pesquisadores e diversos outros especialistas de várias partes do globo já sabiam que o mundo reunia as condições perfeitas para vivenciar uma epidemia viral – só faltava saber quando. Não falta mais. O ano de 2020 passa a ocupar um lugar de destaque na história contemporânea pela circulação do SARS-CoV-2, o vírus causador da Covid-19.

Um inimigo desconhecido e que pode se expressar em diversos graus de severidade, tanto de forma inexpressiva, com pacientes assintomáticos que só descobriram que estavam contaminados após realizarem o teste, quanto com muita agressividade, levando rapidamente ao óbito depois dos primeiros sintomas, a Covid-19 se mostrou altamente desafiadora para os profissionais de saúde que atuam na linha de frente do atendimento e para os infectologistas que tentam desvendá-la, mas fez também acender a luz vermelha para geriatras e especialistas em gerontologia, pela alta incidência de casos graves e mortes em pacientes acima dos 60 anos. A doença já não é mais, como no início, considerada muito perigosa somente para pessoas mais velhas (os falecimentos registrados em todas as faixas etárias constatam isso), nem também uma sentença de morte para quem tem mais idade: o noticiário está repleto de histórias de pessoas acima dos 80 anos, e até mesmo de centenários, que se recuperaram. Mesmo assim, no mundo todo, a letalidade entre os idosos se mostra maior. No Brasil, os dados oficiais apontam que as três faixas etárias com maior concentração de óbitos são, pela ordem, de 70 a 79 anos, de 60 a 69 e de 80 a 89.

Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos profissionais que atendem os 60+ é como orientar essa população de maior risco, pelo ainda pouco conhecimento mundial do comportamento do vírus, pela inexistência de um tratamento específico para a doença, e, principalmente, pela falta de uma vacina ou equivalente preventivo. E, para o geriatra Clineu de Mello Almada Filho, professor da disciplina de geriatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essa tarefa se tornou ainda mais complexa no Brasil. “Não há uma orientação homogênea dos vários órgãos governamentais, com uma dissociação muito grande entre governo federal, Ministério da Saúde, governos e secretarias de saúde estaduais e municipais, o que dificulta o entendimento do que está acontecendo. Não se sabe o que é exagero e o que não é, e isso gera uma insegurança muito grande e afeta também os profissionais de saúde”, destaca, lamentando que, na divulgação de informações importantes, tenha predominado a polaridade política. “Especialmente os médicos que estão em regiões mais afastadas, ou que não atuam dentro de universidades e ou em grandes centros, dependem muito dessas informações. Além disso, a maioria das referências está na língua inglesa e muitos não leem inglês”, comenta. “E, embora tenha havido posicionamento da maioria das sociedades de especialidades, foi tudo muito tímido e não conseguiu atingir grande parte dos profissionais. Isso fica visível nas conversas de grupos de WhatsApp que mantenho com colegas de profissão que atuam em diversos locais do país: eu vejo que muitos acabam acreditando em fórmulas mágicas ou replicando informações sem base científica.”

Para contribuir com a disseminação de informações de qualidade, a revista Aptare ouviu especialistas sobre os principais temas envolvendo a população idosa e os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Acompanhe.

O perigo das comorbidades

É considerada um consenso a relação entre presença de comorbidades e desfechos menos favoráveis para pacientes com Covid-19. “Isso é válido para pessoas de qualquer idade, mas essa condição chama atenção para a população mais velha porque o idoso, em geral, tem pelo menos quatro comorbidades”, diz o geriatra João Senger, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Rio Grande do Sul (SBGG/RS). Ele explica que, quanto mais comorbidades, maior o risco de ocorrer o chamado “efeito dominó”, em que o vírus causa uma descompensação, que leva a outra, e assim sucessivamente, promovendo uma “falha geral do sistema”.

Ele diz que, no caso da Covid-19, a comorbidade com maior risco de complicações é a diabetes. “Uma gripe comum já descompensa a diabetes mesmo em pacientes com essa doença controlada. Imagine uma infecção viral tão agressiva como a do novo coronavírus”, diz.  Em segundo lugar, está a hipertensão. A Covid-19 promove uma reação exagerada do sistema imunológico, conhecida como tempestade de citocina, o que favorece o aumento ainda maior da hipertensão, gerando problemas renais (com alguns pacientes precisando, inclusive, de hemodiálise) e problemas neurológicos, como o AVC (acidente vascular cerebral). “Preocupante, também, é a presença de doenças pulmonares, como DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e asma, pois o vírus tem uma predileção pulmonar e vai atacar um pulmão já fragilizado”, complementa.

Por tudo isso, é importante, para os profissionais de saúde que atendem a população idosa, reforçar a atenção para seus pacientes com comorbidades. Senger alerta que as situações trazidas pela própria pandemia podem ter piorado a qualidade de autocuidado dos pacientes, comprometendo até mesmo a manutenção dos tratamentos para as condições crônicas. Entre os diversos exemplos para isso estão receitas vencidas e a dificuldade em obter novas prescrições; alterações drásticas no dia a dia, levando a uma quebra da rotina, menor regularidade nos horários de tomada das medicações e maior possibilidade de pular administrações; ausência ou mudança de quem fazia a função de cuidador, como a doméstica que ajudava na separação dos remédios, por exemplo; idosos que moram sozinhos e não contam com uma rede de apoio e que, por medo de sair de casa e ser contaminados, não adquiriram medicamentos.

Conta, ainda, o grande volume de informações desencontradas em circulação, sejam contraditórias, sejam de pesquisas iniciais, sejam notícias falsas. Senger exemplifica com as reportagens publicadas em diversos veículos da imprensa leiga, logo no início da pandemia, que associaram o uso de remédios para pressão alta, como captropil, a uma maior agravamento da infecção pelo SARS-CoV-2. “Isso se originou de um estudo observacional italiano que apontou que, entre os pacientes graves, de 40% a 50% faziam uso desses remédios — mas isso era porque eles tinham hipertensão, por isso tomavam a medicação. A hipertensão era o problema, não o remédio. No entanto, a informação divulgada foi: melhor não tomar a medicação, e foi isso que ficou gravado pela maioria das pessoas”, afirma.

A recomendação é apoiar o paciente para a retomada de seus tratamentos para as doenças crônicas, abrindo espaço para o entendimento dos motivos que levaram ao abandono e a definição de estratégias para contornar as dificuldades, de acordo com as necessidades de cada paciente.

A busca pelo tratamento

Apesar do grande número de recuperados, o mundo ainda não dispõe de um medicamento para tratar a Covid-19. E isso não acontecerá tão cedo. “Dificilmente teremos, em menos de dois anos, um remédio especificamente desenvolvido para a Covid-19”, diz, categórico, o geriatra João Toniolo Neto, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A explicação para isso está nas fases de desenvolvimento de uma nova droga, que, mesmo que tenha seu tempo encurtado, não podem ser puladas. “Qualquer medicamento precisa passar pela fase 1, para ver a segurança; pela fase 2, para ver se é efetivo e em qual dosagem; e, depois, pela fase 3, para ser usado num contingente maior e ver como funciona. Só depois disso é que se parte para a fabricação. Em condições normais, é algo que normalmente leva de cinco a oito anos”, descreve.

Diante disso, os médicos da linha de frente de atendimento aos pacientes com Covid-19 precisarão continuar da forma como estão agindo diante das principais complicações da doença, ou seja, lançando mão de medicamentos utilizados para outras indicações formais na modalidade de off label (fora da prescrição). Enquanto isso, pesquisadores começam a ter o mínimo de tempo e condições para efetivamente testar esses usos e publicar os resultados. “Até agora, o que tínhamos eram estudos observacionais, aqueles em que se olha para trás e se analisa o que aconteceu, bem diferente de estudos randomizados, duplos-cegos, nos quais são selecionadas pessoas com condições semelhantes: parte delas recebe o remédio, parte delas recebe placebo ou outra medicação, e daí são analisadas causas e efeitos. Estudos como esses vão começar a sair agora, a partir do mês de junho”, diz Toniolo. Ele destaca, inclusive, o trabalho realizado pela Coalizão COVID Brasil, que reúne cerca de 50 hospitais, entre eles o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, cujos resultados de pesquisas devem começar a ser divulgados nos próximos meses.

Essa procura por alternativas em uma corrida contra o tempo na busca por salvar o maior número possível de pessoas explica, pelo menos do lado médico e científico, por que, a cada momento, um novo remédio ganha destaque como uma nova “esperança” para as principais batalhas dos médicos, que são combater a infecção (impedindo que a doença se torne mais grave) e a inflamação (com efeitos altamente danosos ao organismo) causadas pela Covid-19.

Foi o caso da cloroquina e hidroxicloroquina e da ivermectina. Toniolo explica que experimentos in vitro mostraram que essas substâncias impedem a entrada do novo coronavírus nas células, mas não se verificou, até agora, que isso ocorra da mesma forma no corpo humano. “O problema é que se levantou uma polêmica polarizada, um lado dizendo que esses medicamentos servem para tudo e o outro lado dizendo que não servem para nada. E não é nem uma coisa nem outra”, comenta. “Eles podem até ser utilizados, em fases específicas da doença, sob indicação médica, avaliando inclusive se os efeitos colaterais compensam, mas de modo algum como profilático”, diz.

Como era esperado, outra classe de medicamentos que se destacam são os antivirais, que ou não deixam o vírus entrar na célula ou impedem sua replicação. “Um dos que se mostram mais promissores é o remdesivir, desenvolvido para combater o ebola, sem ter sucesso nesse caso, mas que tem demonstrado funcionar para impedir a reprodução do SARS-CoV-2. A desvantagem é que ele só pode ser usado em uma fase mais avançada da doença, por ser endovenoso, ou seja, de aplicação hospitalar. Outro ponto é que ele ainda não é produzido no Brasil. No entanto, podemos ter como alternativa o tenofovir, cujos estudos e rota para produção em escala estão bem avançados na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto e na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto”, comenta. Mais recentemente, foi a vez de a dexametasona ganhar os holofotes, pelo efeito anti-inflamatório muito potente dos corticoides. “Em fases mais avançadas, quando o pulmão está muito inflamado, a indicação é pela utilização”, destaca o geriatra.

Em resumo, Toniolo aponta que, após um período para uma curva de aprendizagem, os médicos que estão na linha de frente do atendimento de ponta já começam a aprender a manejar melhor essas medicações, com melhor conhecimento de qual delas utilizar, quando utilizar e quando associá-las, sempre de acordo com a condição e a evolução de cada paciente. A grande mensagem, porém, é sobre o uso preventivo. “Não se tem nenhuma evidência de qualquer medicamento que sirva como prevenção à Covid-19. Informações incorretas sobre profilaxia, além de riscos à saúde por possíveis efeitos colaterais, inerentes a qualquer remédio, geram o perigo de que as pessoas relaxem nos protocolos realmente válidos para prevenção, como distanciamento social, lavagem de mãos etc., aumentando o risco de contaminação”, destaca.

Se faltam boas-novas para tratamentos preventivos, mais esperançosas são as notícias sobre vacinas. Já são 130 os estudos em andamento no mundo, dez dos quais estão em estágios avançados e, desse grupo, dois já se encontram na fase 3, inclusive com o Brasil sendo escolhido para participar dos testes em humanos. “A Universidade de Oxford se associou ao laboratório AstraZeneca, que bancou o risco de, paralelamente à fase 3, começar a produção da vacina. Então, existe a perspectiva de os resultados serem anunciados em setembro e, se tudo correr bem, haver vacinas disponíveis já em outubro deste ano”, afirma Toniolo, que menciona também o trabalho desenvolvido pelo Instituto Butantã, com previsão para chegada no mercado no segundo semestre de 2021.

Vitamina D: no meio das controvérsias

            Entre as diversas controvérsias relacionadas a tratamento e profilaxia da Covid-19 se destaca a que envolve a vitamina D. As atenções voltaram-se para ela porque médicos italianos, em estudos observacionais, correlacionaram a hipovitaminose D com maior risco de aumento de agravamento ou de mortalidade pelo novo coronavírus. No Brasil, a Associação Brasileira de Harmonização Orofacial (ABRAHOF) chegou a recomendar o uso de altas doses de colecalciferol como estratégia de otimização de imunidade diante do SARS-Cov2, uma posição repudiada, em nota pública, pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “A vitamina D sempre foi vista como uma grande aliada da osteopenia e da osteoporose quando os níveis de 25-hidroxi-vitamina D estão acima de 30 ng/mL, por isso, ela deve ser mantida em níveis adequados. Mas não existe qualquer comprovação de que níveis maiores sejam benéficos para combater qualquer infecção, inclusive a Covid-19”, afirma a geriatra Maisa Kairalla, coordenadora da Comissão Especial Covid-19 da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Para ela, a suplementação só deve ser realizada mediante testagem que indique insuficiência ou deficiência, com posologia definida pelo médico de acordo com cada paciente, e sempre visando ao benefício ósseo muscular.

Já o ginecologista Odair Albano, consultor da área de saúde, defende que há outros aspectos a serem considerados sobre a vitamina D, que, segundo ele explica, possui “propriedades amplas”. Uma dessas propriedades está relacionada ao fato de pesquisas terem indicado a presença de receptores de vitamina D tanto nos macrófagos, responsáveis pela imunidade nata, quanto nos linfócitos, responsáveis pela imunidade adquirida, ou adaptativa. “Em resumo, a vitamina D estimula os macrófagos e modula a ação dos linfócitos. Então, quem tem bons níveis dessa vitamina tem maior possibilidade de proteção à replicação viral, pela ativação dos macrófagos, e maior condição de se defender de uma liberação exagerada de citocina, pela modulação do linfócitos”, comenta. Apesar de não haver estudos que relacionem essas proteções especificamente ao Covid-19, Albano comenta que pesquisas mostram que, em quadros respiratórios inflamatórios por influenza, há uma maior proteção quando os níveis de vitamina D do paciente estão adequados.

Para ele, a suplementação de vitamina D é recomendada pela dificuldade da reposição natural, já que 80% dela ocorre por meio da exposição regular à luz solar de qualidade, o que depende de índice de radiação, da ausência do uso de filtro solar e, ainda, de condições específicas da pele para boa absorção, entre outros aspectos. “Os idosos são considerados grupo de risco para a hipovitaminose D, porque, em geral, têm pele do tipo fina, com baixos teores de gordura, e costumam ter menores índices de exposição solar”, ressalta.

Albano defende uma dosagem de reposição nutricional visando à manutenção de níveis adequados de vitamina D. “A Anvisa, em sua Instrução Normativa 28/2018, classifica dosagens entre 1.000 UI/dia e 2.000 UI/dia como alimento, ou seja, a venda acontece sem prescrição médica, diferente das dosagens maiores, consideradas tratamento e que exigem receita”, explica. O alerta é com relação ao uso indiscriminado de altas doses. “A informação de que a vitamina D teria uma forte ação muscular levou alguns praticantes de atividade física, de maneira condenável, a usar doses elevadíssimas, como de 50 mil UI por dia. Isso pode gerar uma grave intoxicação pela vitamina D e é absurdo”, destaca. Ele complementa dizendo que, no geral, o risco de toxicidade é baixo e que, na dosagem de 1.000 UI/dia e 2.000 UI/dia, o risco não existe. “Este é o recomendado para que a concentração no sangue se mantenha adequada, ou seja, 25-hidroxi-vitamina D em níveis que variam entre 30 ng/mL e 60 ng/mL; a toxicidade só acontece acima de 90 ng/mL, nível a que com essa reposição não se chega”, finaliza.

Grupo de risco na pandemia, vulnerável no mundo pós-pandêmico

            Os profissionais que lidam com a população 60+ precisam estar preparados. A expectativa é de muitos desafios nos próximos atendimentos, com grande possibilidade de profundas alterações nos pacientes pelos efeitos colaterais da pandemia e do distanciamento social adotado para reduzir a curva de contágio. A primeira consequência esperada é a chamada “terceira onda”, que deve pressionar o sistema de saúde, como consequência do impacto da interrupção da busca por atendimento médico regular. “Houve uma grande falha na orientação que foi passada no começo da pandemia, de que as pessoas só deveriam buscar os serviços de saúde para situações graves, devido ao risco de contaminação. Parecia que ir a um hospital significava ser contaminado, o que não é verdade. Há triagem, separação de pacientes, toda uma série de protocolos. No entanto, com isso, muita gente, com medo, simplesmente deixou de ir ao médico, mesmo precisando”, diz o geriatra João Senger. Assim, o que se verificou foi o abandono de tratamentos, até em condições graves, como câncer, e pessoas com diversos sintomas que não buscaram ajuda médica. A consequência é que doenças que poderiam ter sido identificadas precocemente terão diagnóstico tardio, com maior possibilidade de complicações ou necessidade de tratamentos mais agressivos.

Além disso, toda a reclusão imposta pelo distanciamento social tornou muito complexo colocar em prática, com qualidade, os já consagrados pilares do envelhecimento ativo (exercício físico, sociabilidade, aprendizagem contínua e propósito). As consequências serão visíveis. “Os idosos estão ficando menos funcionais”, comenta Senger ao observar pacientes e conversar com colegas de profissão sobre isso. “Uma colega comentou que percebeu que a mãe, que antes da pandemia subia e descia as escadas de casa com desenvoltura, passou a usar o corrimão para se apoiar; é um efeito da redução drástica de atividades que antes ela fazia, como hidroginástica, passeios, ida a bailes”, exemplifica.

Outro ponto é a saúde mental. “Podemos esperar quadros de transtorno de estresse pós-traumático, além do surgimento de fobias e da agudização de problemas emocionais anteriores e que já estavam sob controle, como ansiedade e depressão. Para muitos idosos, o isolamento vivido pela pandemia reativou isolamentos vividos por outras questões, como abandonos, separações e potencializou vivências traumáticas e lutos não elaborados”, descreve a psicóloga Valmari Cristina Aranha, membro diretoria da SBGG e docente do Centro Universitário São Camilo. Por isso, ela defende uma postura mais acolhedora por parte dos profissionais que trabalham com essa população, que devem estar mais abertos e ser mais respeitosos e atentos aos comportamentos que podem surgir. “É preciso sensibilidade para perceber que a dor relatada pode talvez não ser algo que se justifique do ponto de vista funcional, mas uma forma de expressar um sofrimento emocional”, destaca, defendendo a importância de se abrir espaços de fala, de escuta e de troca e de compreensão de limitações. “Não será o momento de começar dietas, de parar de fumar; o esforço deve ser reunir forças para lidar com todos os contratempos vivenciados”, diz.

 

 Restrições menos rígidas

Os primeiros a entrar, os últimos a sair. Essa é a realidade, pela condição de grupo de risco, dos 60+ com relação ao distanciamento social. Diante das iniciativas de relaxamento da quarentena, com a abertura do comércio e de escritórios, como ficam as orientações para os idosos? Para o geriatra Clineu de Mello Almada Filho, professor da disciplina de geriatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os profissionais de saúde precisam medir os prós e os contras de recomendações muito restritivas, exatamente pelas consequências causadas pelo isolamento social muito prologado na cognição e na saúde mental das pessoas acima dos 60 anos. “Para uma senhora de 90 anos, cuja única atividade social é ir ao supermercado, ser privada disso é muito angustiante e pode levar a prejuízos físicos e mentais sérios”, afirma.
Por isso, ele defende uma conversa tranquila e transparente sobre as formas de transmissão da doença e das estratégias de prevenção, como o uso de máscaras (cobrindo a boca e o nariz), o cuidado para evitar tocar a boca, o nariz e os olhos antes de higienizar as mãos com água e sabão ou álcool em gel, evitar aglomerações e manter a distância de um metro das outras pessoas. “É preciso dizer que a transmissão só acontece pelo contato desprotegido e reforçar que se trata de uma doença séria, grave e que é preciso procurar ajuda médica diante de qualquer sintoma”, diz. A ideia é possibilitar a retomada de algumas atividades, como dar uma volta no quarteirão ou ir à padaria, mas de forma segura.

 

Preconceito etário: a principal marca da pandemia

Apesar de a população idosa ter sido identificada, desde o início, como o grupo de maior risco dentro do contexto da pandemia do novo coronavírus, ela foi a menos considerada no momento de se definir as estratégias para o enfrentamento da crise sanitária.

A explicação para isso, na opinião de Egídio Lima Dórea, coordenador da USP 60+, diretor do Aging 2.0 São Paulo e da Ativen, está no idadismo, o preconceito etário, estruturado em uma sociedade centrada na juventude e que ganhou contornos ainda mais evidentes nesse período. Segundo Dórea, a raiz do idadismo está na visão estereotipada dos idosos, apontados como vulneráveis, de saúde fragilizada, não produtivos, com papel social pouco relevante e de menor contribuição para a sociedade. Essa construção negativa se reflete no mercado de trabalho, com pessoas acima dos 50 anos tendo maior dificuldade de permanência e recolocação profissional, e até mesmo no âmbito da saúde, com pesquisas mostrando, por exemplo, que a consulta de um idoso tem menor duração que a de um jovem. Uma cristalização de preconceitos que não é vencida nem pela realidade, que, como frisa Dórea, é completamente diferente. Há muitos idosos independentes, responsáveis pelo próprio sustento e que, em muitos casos, são arrimo de família. A longevidade é diversa, produtiva e detentora de conhecimentos.

Na pandemia, o ponto mais visível do preconceito etário foram as discussões iniciais — com a perspectiva de falta de equipamentos diante de uma demanda imprevista — de estabelecer critérios baseados na idade para definir quem seria elegível aos recursos (algo que depois foi alterado para uma avaliação geral das condições de cada paciente e respectivo prognóstico). No entanto, para Dórea, o que mais se destaca como idadismo é a falta de criação de protocolos específicos para a população idosa. Segundo ele, faltou de tudo. Do ponto de vista de tratamento, não foram desenvolvidas abordagens que considerassem o fato de que alguns medicamentos podem, pelo próprio envelhecimento do indivíduo, ter efeitos adversos e graves mais frequentes nessa população. “Vimos situações de convênios médicos distribuindo cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina para tratamento indiscriminado de pessoas idosas, sabendo-se que o os riscos de efeitos adversos desses medicamentos, potencializados, inclusive quando utilizados de forma associada, são maiores na população longeva”, exemplifica.

Além disso, as autoridades públicas, ao detectarem que era preciso estabelecer uma quarentena e o distanciamento social, não observaram as necessidades dos 60+ e como elas seriam atendidas. “Simplesmente propuseram o isolamento sem considerar que muitos idosos vivem sozinhos e não têm nenhum suporte social; que muitos não tem acesso digital, como mostra pesquisa da PNAD 2017, apontando que somente 30% dos idosos brasileiros têm acesso à internet; e que, ainda, a grande maioria é portadora de doenças crônicas e ficou sem orientação e atendimento. Essas desigualdades ficam ainda mais evidentes quando se considera um idoso de estrato social mais baixo”, destaca o coordenador da USP 60+. “É obvio que eles deveriam ficar isolados como estratégia para o achatamento da curva de contágio, mas o suporte básico para isso deveria ter sido contemplado, por meio de uma busca ativa das demandas e do atendimento a elas”.

A mensagem principal de Dórea é para o papel de todos no combate ao idadismo, com uma maior sensibilização e atenção para atitudes e posturas, inclusive por parte dos profissionais de saúde. “É preciso ter consciência de que o preconceito etário pode ser praticado de forma inconsciente, sem que se note. A primeira coisa a fazer para evitar isso é perceber cada idoso como um ser individual. Não se pode homogeneizar e achar que tudo decorre do processo de envelhecimento, ou seja, que uma determinada queixa não precisa ser mais bem investigada, associando-a simplesmente à velhice”, alerta. Outra expressão de idadismo é, em uma consulta na qual o idoso comparece acompanhando por um cuidador ou um filho, ocupar-se em passar as recomendações e orientações dirigindo-se ao acompanhante e não ao paciente. Também é preconceito etário a infantilização, que ocorre quando se adota uma postura paternal ou maternal, tratando a pessoa idosa como uma criança. “Finalmente, é preciso lembrar que as pessoas idosas têm anseios e desejos, que devem ser preservados. As duas formas mais profundas de idadismo é quando se elimina a capacidade de um idoso de produzir e quando se desconsidera a capacidade de um idoso de amar”, destaca Dórea.