Diálogos

“Minha casa é minha trincheira”

Por Renata Costa

Aos 74 anos, o médico Alexandre Kalache, doutor em epidemiologia pela Universidade de Londres, está cumprindo seu distanciamento social bem acompanhado pela imagem do Pão de Açúcar, paisagem que vê da varanda de seu apartamento, em Copacabana, e por um piano, que o ajuda a se distrair nos (poucos) momentos em que não está sendo entrevistado, participando de webinares e lendo. Fundador e presidente do Centro Internacional da Longevidade – Brasil, é a primeira vez que fica tanto tempo sem pisar em um aeroporto depois de muitos anos.

Kalache faz questão de salientar que é idoso e que pretende permanecer por muito tempo em quarentena, já que não há vacina ou cura para a Covid-19. O que lamenta é saber que assim verá muito menos a mãe, que tem doença de Alzheimer e está prestes a completar 102 anos. Desde que começou o isolamento social, Kalache a visitou apenas duas vezes, pois percebeu que suas idas poderiam expô-la ao risco e não valeriam a pena sem poder tocá-la. “As últimas vezes que fui ao apartamento dela, aqui bem perto, não a abracei nem a beijei para não colocá-la em risco. Ela não me reconheceu, porque reconhece o filho pelos carinhos, beijos e abraços. Então temos conversado por telefone”, conta, sem conseguir evitar as lágrimas pela distância.

Considerado um dos maiores especialistas em envelhecimento humano no Brasil e no mundo, Kalache deu uma entrevista para a revista Aptare para abordar a Covid-19 do ponto de vista dos idosos.

Com a pandemia de Covid-19 os idosos se viram vulneráveis e a ideia de finitude se impôs a todos. Como isso terá efeitos em médio e longo prazos?

Muitas pessoas idosas estão se perguntando se, afinal, valeu a pena ter vivido tanto. Estamos diante de uma encruzilhada que colocou a humanidade toda em uma situação de perplexidade. Nunca vimos isso em tamanha escala, pois a última grande pandemia foi a da gripe espanhola, em 1918, ano em que minha mãe nasceu. O contexto era totalmente diferente, não vivíamos em um mundo globalizado.

(Kalache pede licença para mostrar um porta-retratos com a foto de um casal, elegantemente vestido em frente a um DC-3, um dos primeiros aviões de passageiros, com motor a hélice.)

Essa foto é de 1942. Meus pais estavam indo para a lua-de-mel. Minha mãe usava tailleur e salto alto. Meu pai, terno e gravata. Viajar de avião no Brasil era algo excepcional. Já para nós é muito diferente. Posso dizer que passei a vida no avião, seja por causa da OMS (Kalache foi diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde, onde dirigiu o programa global de envelhecimento, de 1995 a 2008), seja pela Escola de Saúde Pública de Londres. De repente, o normal ao qual estávamos acostumados vira de cabeça para baixo e somos obrigados a rever tudo. E, nessa mudança, os idosos ficam com o estigma de “é por causa de vocês que a economia está parada, a gente tem que protegê-los a um custo enorme, estamos perdendo trabalho e renda, e vocês são os culpados”, e vai por aí. É muito cruel. Você teve uma vida longa, sabe que daqui para a frente são poucos os anos que restam. E uma proporção desse tempo que lhe resta será em confinamento. Então o luto, a ideia de finitude, vem não apenas pelas pessoas que se foram com a pandemia, mas pelo medo também, pela perda desses dias e meses de vida com qualidade. O luto é morar a um quarteirão da minha mãe e não saber se vou poder abraçá-la. São perdas.

O senhor foi pego de surpresa pelo isolamento social em Portugal. Como tem analisado a pandemia desde então?

Eu cheguei ao Brasil em 15 de março, vindo de Lisboa. Tinha chegado lá na véspera. Cancelei todos os meus compromissos e voltei. Desde então, só saí para visitar minha mãe por duas vezes. Veja, é um preço alto para mim e para todos que estão cumprindo o isolamento. Além de nós, idosos, estarmos sendo culpabilizados, há agravantes em relação ao Brasil, porque outros países lidaram com a Covid-19 de uma forma diferente. Estamos estendendo o período de agonia. O que seria só uma pandemia, e já seria muito, virou o que chamo de pandagonia. E por que estamos prolongando a agonia? Sobretudo porque há um analfabetismo científico por parte de quem está lá em cima, que não tem capacidade de compreender o que estamos passando. E, quando não se respeita a ciência, há mais dano, inclusive, à própria economia. No fim das contas, o grande herói da pandemia é o SUS (Sistema Único de Saúde), que vinha sendo dilapidado. Vemos hospitais abandonados, centros de saúde esvaziados, prateleiras sem medicamentos. E ali estão os profissionais de saúde sem proteção adequada, os mesmos que vinham sendo humilhados, abandonados pelo poder público. Alguns deles até voltaram a trabalhar como voluntários, para contribuir com a população. Hoje a classe média está conseguindo ver o que a população pobre sofre há anos com esse abandono ao SUS. Se há algo positivo que pode resultar dessa pandemia, portanto, é revermos valores e sairmos com o SUS fortalecido. Não vou dizer que terá valido a pena, porque o custo de vidas tem sido muito alto.

O senhor tem usado bastante o termo geronticídio nesta pandemia…

Sim, isso porque o SUS não é valorizado, tivemos congelamento dos gastos públicos sociais e com saúde por 20 anos. Agora, vemos um governo que tem uma solução mágica para a Covid-19 chamada hidroxicloroquina, indo contra todas as evidências científicas. As autoridades não respeitam aquilo que tem sido exigido por lei, como o uso de máscaras para se proteger e proteger o outro. Uma farra total! A pessoa que é pobre não está amparada pelo governo. Até meados de junho, 10 milhões de brasileiros não tinham conseguido receber seus miseráveis 600 reais, mas a esposa do Queiroz* recebeu.

(*Fabrício Queiroz é ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro. Foi preso em Atibaia, interior de São Paulo, no dia 18 de junho)

Vemos, no Rio de Janeiro, sete hospitais de campanha sendo construídos e apenas um entregue. E então descobrimos que o dinheiro que era para ter construído e equipado esses hospitais foi parar nas mãos dos corruptos. Que esperança você tem, como idoso, ao olhar para tudo isso e ainda ser considerado culpado? Isso tudo é um geronticídio. Cada hospital e cada vaga que deixam de ser construídos, cada respirador que é roubado têm como consequência a morte de 1, 10, 100 ou mil pessoas. Elas estão sendo sacrificadas nas mãos de gente sem o menor escrúpulo.

O geronticídio então foi agravado com a pandemia?

A Covid apenas escancarou o idadismo, o preconceito etário. Já existia a questão de que pessoas de mais idade e que poderiam responder bem a tratamentos não os recebam apenas por causa do fator idade. Não me refiro tanto, nesse caso, aos equipamentos privados. Ao contrário, em muitos deles, um idoso entra no CTI, fica três meses em agonia, sem a menor chance de recuperar a qualidade de vida em tratamentos que não resolvem nada. Eu tinha uma tia de 92 anos de quem eu gostava muito. Eu morava fora do Brasil e, em uma vinda, fui visitá-la no hospital. E ela me falou: “Meu filho, você sabe que sou uma mulher inteligente. Sei que estou com câncer terminal, prefiro viver apenas seis horas em contato com minha família e morrer em paz a passar aqui mais seis meses e dar lucro a quem quer que esteja lucrando com minha permanência”. Então, veja, não estou dizendo que é preciso tratar todo mundo a qualquer custo. Mas não é o critério idade que deve ser usado para julgar quais são as pessoas que podem ser beneficiadas por um tratamento. Alguém considerar que o idoso “já viveu muito, morrer é o futuro de todos” como critério para escolha de tratamento é geronticídio. Assim como é geronticídio ter recursos e verbas desviados por corrupção. Corrupção mata.

Quero aproveitar essa questão, a da tal “escolha de Sofia”, que seria a situação na qual não há recurso para todos e os profissionais teriam de escolher quem recebe o tratamento. Foi muito comentado o critério da idade para seleção, depois os conselhos de medicina formalizaram protocolos em outro sentido. Temos poucos geriatras e especialistas em gerontologia no Brasil e no mundo. Fez falta ter mais profissionais com essa formação?

Sem dúvida nós precisamos de mais geriatras e mais gerontólogos. Mas nós precisamos realmente é que os profissionais de saúde conheçam mais sobre envelhecimento, porque, se multiplicarmos por 10 ou por 100 o número de geriatras, ainda assim serão poucos. Portanto, todos os profissionais de saúde num país que envelhece muito rapidamente deveriam ter mais conhecimento sobre essa população. Os idosos aqui envelhecem mal, têm doenças que poderiam ter sido prevenidas e não foram e que, quando se complicam, poderiam até ter um curso melhor do que têm, mas isso não acontece por ignorância dos próprios profissionais da saúde. Eu digo isso abertamente. Digo aos estudantes de medicina – e adoro falar com eles – para tomarem cuidado, porque irão matar pacientes na santa ignorância, sem nem desconfiar que estão matando. Se eles não aprenderem coisas básicas, como interação medicamentosa ou fazer diagnóstico de capacidade funcional, seus pacientes serão maltratados. Abracem o que o futuro é: envelhecimento. Eu tenho 50 anos de profissão. Os estudantes que se formarem em 2020 têm grande chance de ainda estarem trabalhando em 2070, quando os idosos no Brasil serão 78 milhões. Eu digo a eles: “Briguem com os diretores de suas escolas, exijam mudança na grade, peçam para introduzir o envelhecimento de forma transversal. Não basta formar geriatras, precisamos que todos – ginecologistas, cardiologistas, neurologistas, psiquiatras, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas – conheçam mais sobre envelhecimento. Não é possível gostar do que não se conhece. E aí, vão tratar muito mal seus pacientes, vão cometer erros crassos e dizer ‘que manhã chata, é o nono velho que eu atendo’”.

O senhor acha que os geriatras, os especialistas em gerontologia e as entidades científicas foram sub-representados na mídia nesse período de pandemia?

Sim, a liderança que os profissionais da área poderiam ter tido foi perdida, com raras exceções de geriatras que têm percepção de saúde pública, algo que vai além das paredes do consultório. Nesse sentido, faltou também o CNDI (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa) atuar. Caberia a ele defender, mais do que nunca, os idosos. Mas há exatamente um ano – e eu gravo essa data com sofrimento – a chapa que havia sido eleita democraticamente foi destituída e substituída por um interventor do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Um ministério em que menino usa azul e menina usa rosa. Ou seja, começou mal. Nesse ministério xiita, acabou o diálogo com a sociedade civil e representantes de outros ministérios, o que é terrível, porque uma política do idoso precisa ser transversal. Mas há outra questão. Nós vemos muitos entrevistados na mídia que são idosos, têm conhecimento profundo em suas áreas, seja economia, infectologia, enfim, mas que nunca se assumem como idosos. O idoso é sempre o outro. É tão importante que se coloquem! Mostrem sua contribuição, vocês são idosos e estão contribuindo ativamente com a sociedade. Sirvam como exemplos. Quando dou entrevista para a TV, eu coloco meu chapéu de idoso. (Kalache coloca um chapéu na cabeça e ri.) Vamos nos mostrar, por empatia, contar que também estamos confinados, com saudade dos netos, sofrendo. Precisamos passar a mensagem aos jovens de que o melhor que pode acontecer a eles é envelhecer. A outra opção é a morte. E, quanto mais cedo começar a pensar e a se preparar para isso, melhor.

O senhor realmente tem se colocado como idoso em suas apresentações e entrevistas. O que mudou para o pesquisador do envelhecimento quando se assumiu um idoso?

Para mim, nada. O envelhecimento sempre esteve imbuído em mim. Tive o privilégio e a sorte de ter abraçado o envelhecimento como vocação ainda quando jovem, aos 29 anos. Comecei a ver os dados demográficos e fui estudar na Inglaterra. Em uma primeira pesquisa do mestrado, entrevistei os membros da Sociedade Britânica de Geriatria e inseri uma pergunta que foi crucial para entender o que fazia um geriatra se sentir satisfeito ou não com o trabalho. E esse diferencial era ter tido contato com idosos na infância e na adolescência. De preferência, morando sob o mesmo teto. E aí lembrei da minha própria história. Quando eu tinha 15 anos, minha avó materna, que morava em Belo Horizonte, veio morar conosco no Rio. Minha mãe me chamou de canto e contou que vovó estava com câncer e o prognóstico não era bom. E perguntou se eu ajudaria a cuidar dela. Fiz isso por três anos e não deixei de ser jovem. Tocava piano para a minha avó relaxar, dava comida ao final da vida e até morfina injetável. Aprendi muito. Com ela e toda a minha família – que tinha muitos idosos. Eram imigrantes e cheios de histórias fantásticas.

Então falta convivência dos jovens com os idosos?

Isso. Na minha segunda pesquisa de mestrado, fui para uma escola de medicina que havia colocado geriatria no currículo. Depois dos dois anos básicos, um grupo de oito alunos vinha para a geriatria, enquanto outros grupos iam para outras disciplinas. E depois rodiziavam. Eu media a atitude desses estudantes em relação ao envelhecimento, se gostavam ou não de velhos, se haveria perspectiva de se tornarem geriatras. Em todos os grupos, a receptividade deles era melhor ao início do programa do que ao fim. Nos grupos focais eu comentava que não entendia… que a intenção era fazê-los gostar de geriatria, mas isso não acontecia. Os alunos me diziam que a resposta era simples – eles saíam do glamour das outras áreas, em que havia cura, para enfrentarem a geriatria, que era o fim da linha, pacientes demenciados, com úlcera de decúbito e incontinência. Reclamavam até do cheiro da enfermaria. Contavam que haviam crescido apenas com pai e mãe, sem muito contato com os avós. Então nós decidimos mudar o programa. Assim que os jovens entravam na faculdade, nós apresentávamos a eles seis idosos. E eles se tornavam amigos. Ao longo dos anos do curso, esses idosos iam a festas, jantares, tinham ocasionalmente problemas de saúde ou até havia algum óbito. Mas eles deixaram de ser, para os jovens, meros pacientes, para serem vistos como amigos. O resultado me animou. A partir daí, tive certeza de que o futuro era da área do envelhecimento. Fui para Oxford fazer meu doutorado, lecionei lá por sete anos, voltei para a Escola de Saúde Pública em Londres. Eu dei certo e não tinha concorrente. Quando me chamaram para a OMS, não havia ninguém falando de envelhecimento global. Era só eu.

O senhor está sendo modesto…

Tudo isso que vivi, os projetos marcantes, o Marco Político do Envelhecimento Ativo, Cidades Amigas do Idoso, tudo tem como princípio minha avó. Minha inspiração. Desde os cuidados com ela, meu propósito, minha missão, nada mudou. Mas agora que estou velho tenho ainda mais obrigação de me colocar dessa maneira. Vou ficar em casa em isolamento, mas minha casa é uma trincheira. Vou deixar de ser ativista agora que fiquei velho? Quando esta pode ser minha última batalha? A barba é branca, não tenho cabelo. E nem por isso sou feio (diz, em meio a risos).