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#QUEM FAZ: Mayra Tofanetto

#QUEM FAZ: Mayra Tofanettomayra tofanetto

Gerontóloga, graduada na primeira turma da Universidade de São Paulo. Atualmente é responsável técnica e proprietária do Cari Nonni Centro-Dia para Idosos e do Anni Azzurri Vida e Lar para Idosos

Além de proprietária, como gerontóloga eu também sou responsável técnica das duas instituições e respondo por toda a parte operacional e de cuidado, que envolve contato com as famílias, coordenação da equipe multidisciplinar, planejamento e monitoramento de atividades. De segunda a sexta-feira fico no centro-dia até as 14 horas e depois sigo para a ILPI, onde fico até as 20 horas, aproximadamente. Dessa forma, garanto que nenhum dos locais fique descoberto, porque as famílias demandam essa atenção.
Com a pandemia, eu me vi primeiro num cenário de ansiedade, porque a mídia trouxe muito a questão do velho e da mortalidade. À medida que as coisas iam ficando mais complicadas no Brasil, vimo-nos na condição de mudar nossa estratégia.
Por segurança, a primeira atitude foi fechar o centro-dia, e digo isso com uma certa emoção. Tem sido meses difíceis, não apenas pela questão financeira, mas por causa de todo o carinho construído durante os cinco anos de Cari Nonni. Tenho clientes que estão conosco desde o começo. Decidimos fechar, continuando o atendimento à distância, mas continuava a questão: “O que vai ser dessas pessoas em casa, dos familiares que precisam desse suporte? Como vamos conduzir isso?”. Fechamos o Cari Nonni no dia 15 de março. Passamos a fazer os atendimentos on-line, entregando materiais em casa, sempre disponíveis em caso de necessidade, mas é um contato à distância, de que eu não gosto. Ficamos longe das pessoas. Hoje temos que entender uma dinâmica familiar à distância. Usamos muito o WhatsApp, mas mesmo o uso da tecnologia às vezes é difícil, porque muitos familiares são idosos que cuidam de idosos.
Não temos previsão de volta, mas estamos atentos diariamente aos anúncios feitos pelo governador e pelo prefeito. Sabemos que teremos que retornar de maneira diferente, com cuidado e atenção redobrados. Aprendemos que somos muito vulneráveis e que tudo pode mudar a qualquer momento.
Em relação à ILPI, do dia para a noite criamos os POPs (procedimentos operacionais padrão), para tratar de protocolos de isolamento, de higiene, como agir caso tivéssemos alguma ocorrência. Foi muito angustiante fazer um documento pensando num caso de óbito, no caso de a pandemia invadir sua ILPI e dizimar metade dos moradores, mas tínhamos que estar preparados.
Mudamos toda a rotina. Antes as funcionárias chegavam, higienizavam as mãos, trocavam de roupa e iam trabalhar. Com a pandemia, passamos a ter cuidado redobrado, com tapete sanitizante, pontos de álcool em gel, a equipe precisa tomar banho, trocar de roupa, usar as EPIs da maneira com que foram treinadas, já que isso pode impactar o índice de contaminação. Essas coisas vão ficar, porque entendemos que isso não beneficia só numa situação de Covid-19, mas de qualquer outro tipo de doença. Um dos desafios é sensibilizar nossos idosos em relação ao que está acontecendo. Trabalhamos com idosos com demência moderada, demência avançada, demência frontotemporal, e temos que explicar a situação diariamente, pois muitos deixaram de receber visitas, por exemplo, porque tivemos que fechar a instituição.
Todos os dias esbarramos em desafios, com notas técnicas específicas. Reforço que temos recebido muito apoio da Vigilância Epidemiológica e da Vigilância Sanitária, no sentido de entender o contexto e juntos enfrentar a pandemia. Ao invés de nos julgar, eles estão conosco nessa luta.
Até o momento não retornarmos e entendemos que é necessário um planejamento para isso. Os desafios são tremendos, é uma briga contra um inimigo invisível, que não sabemos quando vai embora, mas precisamos ficar otimistas, porque os residentes dependem do nosso fio de esperança de que vai ficar tudo bem, de que isso vai passar e de que as pessoas vão volta a se abraçar.
No meio desse processo fiz um contato com a doutora Karla Giacomin (geriatra e consultora da Organização Mundial da Saúde para o envelhecimento) e ingressei na Frente Nacional de Fortalecimento das ILPIs para trabalharmos em prol desses idosos, pensando de que maneira poderíamos nos dedicar como rede de fortalecimento. Hoje sou voluntária dessa rede na região Sudeste.
A pandemia me ensinou que, mais do que gestores, nós precisamos ser líderes. Ela me ensinou também quão frágil é nossa população idosa e quanto a nossa sociedade a marginaliza. Esse período me mostrou que, como profissionais da gerontologia, nossos olhos trazem uma sensibilidade e uma luta que não são de todos. Enquanto estamos tentando manter a vida dos idosos, essa luta é descartada pelo estado.
Todos os dias acordo com a esperança de que vamos voltar a nos abraçar. A pandemia nos ensinou o lugar que ocupamos e a responsabilidade que temos na vida dessas famílias.