Atualização científica

Perda muscular nos idosos durante a pandemia em virtude do isolamento social

Por Marcelo A. Starling – Graduação em medicina e educação física; especialização em fisiologia do exercício pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); residência médica em medicina física e reabilitação pela Unifesp; especialização em geriatria pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HCUFMG); título de especialista em geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia/Associação Médica Brasileira; professor responsável pelo Ambulatório de Doenças Musculoesqueléticas do Serviço de Geriatria do HCUFMG

 Em 2020, mais de 230 países e territórios tiveram contato com o novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da síndrome respiratória aguda grave, numa pandemia declarada pela Organização Mundial de Saúde em março do mesmo ano. Até o presente momento mais de 8 milhões de pessoas no mundo inteiro foram infectadas com o vírus, resultando em mais de 450 mil mortes.1

Por ser uma doença altamente infecciosa e com alta taxa de transmissão, as sociedades logo se mobilizaram para entendê-la. A SARS-CoV-2 interrompeu o direito de locomoção globalmente, com severas restrições que obrigaram os indivíduos a permanecer isolados em seus domicílios.2  

Esse período de movimento restrito afeta a todos, independentemente de idade, sexo e etnia. Mesmo as pessoas mais jovens e aptas foram obrigadas a se tornar subitamente inativas e a adotar comportamentos mais sedentários.

Trata-se de um quadro preocupante, já que um estilo de vida inadequado como o sedentarismo, aliado ao aumento do consumo de alimentos industrializados de alto teor energético, é fator de risco para a obesidade e outras doenças crônicas.

Nesse cenário, os idosos merecem atenção especial. População que mais cresce nos países desenvolvidos e grupo de maior vulnerabilidade durante a pandemia, as pessoas com mais de 60 anos foram orientadas a seguir rigorosamente as normas técnicas e o posicionamento em relação ao isolamento social, que é, até o momento, a melhor forma de prevenção.

No entanto, uma redução da mobilidade ou dos níveis de atividade física desse grupo acaba se tornando bastante crítico: além de ser um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da sarcopenia, o sedentarismo é responsável por mais de 5 milhões de mortes por ano em todo o mundo.3

O envelhecimento é um processo universal, pelo qual todos passarão. Após os 60 anos, há mudanças marcantes em vários tecidos e órgãos do corpo humano, que juntas compõem a síndrome geriátrica da fragilidade multidimensional. Ela é caracterizada pela “redução da reserva homeostática e/ou capacidade de adaptações às agressões biopsicossociais e, consequentemente, maior vulnerabilidade ao declínio funcional, institucionalização e óbito”.4

Algumas doenças crônicas inflamatórias, como a obesidade e a osteoartrite, estão intimamente relacionadas com o sedentarismo e com a perda da força e massa muscular. Tal perda é bastante prevalente nos idosos, podendo chegar a 50% da população acima dos 60 anos, principalmente nos portadores dessas doenças. A gordura corporal e a massa muscular estão intimamente ligadas, e a própria incapacidade física, com as consequentes limitações funcionais, está também relacionada com o índice de massa corporal (IMC).5

Entre as maiores preocupações em saúde pública nos países desenvolvidos estão o envelhecimento populacional e a obesidade generalizada. Em virtude das tendências demográficas, a população idosa e obesa vem aumentando em taxas sem precedentes, gerando um grande desafio para os sistemas de saúde.6

Com o processo de envelhecimento, o músculo responsável pelo movimento humano, graças à sua capacidade de gerar contrações e por concentrar 60% das reservas de proteínas do corpo, passa por drásticas mudanças. Entre elas inclui-se a perda de força, que é relatada consistentemente como fator de risco independente para alta mortalidade em adultos mais velhos. Como a força muscular também parece ser um componente crítico na manutenção da função física, da mobilidade e da vitalidade na velhice, é fundamental identificar os fatores que contribuem para a perda de força em adultos e, principalmente, em idosos.

Notavelmente, a atrofia muscular é um fenômeno muito rápido e já detectável depois de apenas dois dias de intensa imobilidade, ou com o desuso prolongado.7

Quando estamos diante do envelhecimento patológico, a perda da força e da massa muscular se torna mais acelerada, e isso leva à perda da função física, num processo denominado sarcopenia.8 Essa doença, descrita primeiramente em 1987, ganhou maior notoriedade em 2011, quando foram definidos seus critérios diagnósticos, e em 2018, quando revisado seu consenso. Sabe-se que a sarcopenia está correlacionada com desfechos negativos, como piora da funcionalidade e declínio funcional, piora da qualidade de vida e morte precoce.8 A prevalência de sarcopenia ainda não é muito bem conhecida. Dependendo dos critérios utilizados para a sua definição, as estimativas de prevalência são relatadas entre 10% e 70% em indivíduos com 60 anos ou mais. Mesmo com uma estimativa mais conservadora, a condição pode afetar hoje mais de 50 milhões de idosos, com possibilidade de atingir 200 milhões de idosos nos próximos 40 anos.6

A sarcopenia aumenta o risco de quedas e fraturas e prejudica a independência e a autonomia, acelerando o declínio funcional, associado a doenças cardiorrespiratórias e neurodegenerativas.8

Alguns aspectos do envelhecimento afetam a propensão ao desenvolvimento da sarcopenia, como a ingestão reduzida de proteínas, o aumento da infiltração gordurosa no músculo esquelético, a diminuição da energia muscular e as alterações do metabolismo muscular, assim como a redução nas secreções de hormônios anabólicos e o aumento do catabolismo muscular.9

Constatou-se durante a atual pandemia de Covid-19 que o isolamento social, levando a uma redução da atividade física entre idosos, exacerba a perda muscular relacionada à idade e aumenta o risco de desfechos como quedas e fraturas. Estudos têm demonstrado que a redução do número de passos diários em 75% reduz a força muscular em 8%, principalmente nessa população de maior risco.10

Uma recente publicação de dados de uma empresa de relógios inteligentes que controlam o número de passos diários de quase 30 milhões de indivíduos demonstrou que, conforme as comunidades se adaptaram ao isolamento social, usuários chegaram a diminuir em quase 38% a contagem de passos durante uma semana.

Observações relevantes demonstram que apenas alguns dias de redução de passos podem alterar o metabolismo e induzir o aumento da resistência e alterações na sensibilidade à insulina, que promovem alterações na composição corporal como atrofia muscular. A redução no número de passos e o aumento do repouso também interferem na capacidade aeróbia, assim como no resultado do VO2máx, sendo duas vezes maior nos idosos quando comparado a indivíduos mais jovens. Essa redução do VO2máx está associada a um aumento da taxa de mortalidade.7

Contrariamente, indivíduos mais velhos com melhor aptidão cardiovascular apresentam melhores respostas às vacinas, menor inflamação e marcadores imunológicos melhorados.3

Assim, uma importante orientação nesse período de isolamento social e de restrição da liberdade de locomoção, principalmente para os idosos, é manter uma rotina com exercícios, mesmo que domiciliares, além de uma alimentação balanceada com consumo proteico adequado – dentro das intervenções contra o processo da sarcopenia, essa é a combinação mais efetiva. Nessa população, os músculos são menos responsivos aos estímulos anabólicos quando comparada aos jovens, mas, diante de estímulo adequado, há uma clara resposta com melhora da força muscular e da função física.

O cuidado ideal para os idosos que já desenvolveram a sarcopenia ou apresentam os principais fatores de risco após o isolamento social é essencial, já que essa condição apresenta não apenas altos ônus pessoais, mas também sociais e econômicos, o que já vem sendo observado na maioria das sociedades nesta época de pandemia.

Referências bibliográficas:

  1. WHO. Coronavirus disease 2019 (COVID-19) situation report – 113. World Health Organization, Geneva. May 12,2020.
  2. Coronavirus Disease 2019 (COVID-19). CDC Centers for Disease Control and Prevention 2020.
  3. Roschel H, Artioli GG, Gualano B. Risk of Increased Physical Inactivity During COVID-19 Outbreak in Older People: A Call for Actions. JAGS 00:1-3, 2020.
  4. Moraes EN, Moraes FL, Jansen AK, Viana BM, Silva DF, Bicalho MAC, Cintra MTG, Starling MA, et al. Avaliação Multidimensional do Idoso. 5 ed. Belo Horizonte: Folium, 2016.
  5. Zoico E, Francesco V Di, Guralnik JM, Mazzali G, et al. Physical disability and muscular strength in relation to obesity and different body composition indexes in a sample of healthy elderly women. Internation Journal of Obesity (2004) 28, 234-241.
  6. Kalinkovich A, Livshits. Sarcopenic obesity or obese sarcopenia: A cross talk between age-associated adipose tissue and skeletal muscle inflammation as a main mechanism of the pathogenesis. Ageing Research Reviews 35 (2017) 200-221.
  7. Narici M, Vito GD, Franchi M, Paoli A, Moro T, Maganaris C, et al. Impact of sedentarism due to the COVID-19 home confinement on neuromuscular, cardiovascular and metabolic health: Physiological and pathophysiological implications and recommendations for physical and nutritional countermeasures. European Journal of Sport Science, 2020.
  8. Cruz-Jentoft AJ, Bahat G, Bauer J, Boirie Y, Bruyere O, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing 2018; 0:1-16.
  9. Burton LA, Sumukadas D. Optimal management of sarcopenia. Clinical Interventions in Aging. 2010:5 217-228.
  10. Reidy PT, McKenzie AI, Mahmassani Z, et al. Skeletal muscle ceramides and relationship with insulin sensitivity after 2 weeks of simulated sedentary behaviour and recovery in healthy older adults. J Physiol. 2018; 596:5217-5236.