Especial

Um mãozinha na quarentena

Por Alice Maya

Tão logo o isolamento social se fez obrigatório em São Paulo, a Aptare, núcleo da Dínamo Editora dedicado à longevidade, se mobilizou para organizar um material de orientação para o público idoso. Que estabelecimentos continuariam abertos, quais estariam fechados? O que fazer durante a quarentena, que ainda era uma incógnita para todos? Como verificar se as informações que chegavam pelas redes sociais eram confiáveis?

O Coronavírus: Guia Prático 60+ ficou pronto em tempo recorde, trazendo informações de caráter prático para a população idosa. Com um total de 16 páginas, o material foi disponibilizado no site da Dínamo Editora e compartilhado nas redes sociais e em diversos grupos de WhatsApp formados por idosos, com boa repercussão. Para Maria do Carmo Cunha, 68 anos, especialista em marketing digital, o guia foi uma “iniciativa de responsabilidade coletiva, com muitas informações úteis”. Por isso, ela compartilhou o material em alguns dos grupos sobre envelhecimento que administra no Facebook, algumas com mais de 200 mil seguidores.

“Optamos por lançar o guia porque acreditamos no valor e no impacto da informação correta. Diante de uma situação tão incerta, ter à mão um guia que traga uma lista do que abre ou fecha ou o que muda nos benefícios durante esse período faz uma diferença imensa”, disse Lilian Liang, diretora de redação da revista Aptare e idealizadora da cobertura.

 

Quarentena estendida

O guia, no entanto, foi apenas o ponto de partida para algo maior: a única cobertura da pandemia dedicada inteiramente para o público 60+ no Brasil.

“À medida que os números da Covid-19 subiam, aumentavam também as dúvidas dos idosos em relação à crise. E não eram apenas questões referentes a assuntos práticos, como o funcionamento de teleconsultas, por exemplo, mas também questionamentos mais profundos, como a ética por trás do critério etário usado pelos médicos na Itália para decidir quem receberia os recursos disponíveis nos hospitais”, explicou Lilian.

Nascia assim o Boletim Aptare Coronavírus, um informativo disponível em vídeo e podcast, cujo objetivo era responder às dúvidas mais frequentes dos idosos durante a quarentena, fornecendo informações úteis e, principalmente, de aplicação prática. O primeiro boletim, sobre bioética nos tempos da pandemia, foi ao ar no dia 3 de abril, com uma entrevista com a geriatra Naira Hojaij, médica assistente do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O primeiro boletim da série trazia um tom cauteloso mas otimista, já que o Brasil enfrentaria a Covid-19 já com a experiência e o conhecimento produzidos pelos países que passaram antes por ela.

Os boletins procuravam refletir o momento por que passavam os idosos na quarentena. Assim, as primeiras edições abordaram questões diretamente ligadas à saúde, como melhorar a imunidade e garantir a vitamina D, já que todos estavam dentro de casa. Conforme o período de distanciamento social se estendia, começavam a surgir perguntas de caráter prático, tais como a renovação de prescrição de medicamentos de uso contínuo ou testes de farmácia para detecção do coronavírus. Mais uma extensão de quarentena e as pautas passaram a discutir estratégias para manter a mente ativa e se manter conectado com amigos e familiares. Uma pauta bastante comentada foi o aumento do consumo de álcool durante esse período, já que a happy hour está a apenas um clique de distância. “É preocupante constatar as consequências do confinamento e os riscos que corremos na ânsia de nos conectarmos e nos relacionarmos. Ótimas dicas!”, elogiou a advogada Silvia Triboni, de 62 anos, que acompanhou de sua residência em Portugal a cobertura da pandemia no Brasil.

Em respeito às regras de isolamento, os boletins foram gravados por uma equipe de jornalistas à distância via plataforma Zoom. Todos os informativos – foram 20 ao todo, num período de três meses – contaram com a participação de especialistas, e todo o trabalho de reportagem foi conduzido por telefone ou pelo aplicativo WhatsApp.

“Os boletins tinham o objetivo de ajudar o público 60+, um dos principais grupos de risco, a aguentar firme a quarentena, dando recursos para que eles se mantivessem em casa de forma saudável, tanto física quanto mentalmente”, enfatizou Lilian.

Esperança em dias melhores

A pandemia impediu que datas importantes do calendário fossem comemoradas em família. Para ajudar na situação atípica, o Boletim Aptare Coronavírus lançou edições especiais de Páscoa e Dia das Mães, com dicas para que as ocasiões fossem comemoradas sem a necessidade de quebrar a quarentena. “No Dia das Mães demos ideias de presentes criativos que dispensavam a ida ao shopping. Insistimos muito no ‘Fica em casa’”, contou Lilian.

Os informativos também procuraram trazer notícias de empatia e solidariedade, de iniciativas que surgiram em decorrência da pandemia. Entre elas destacam-se a cartilha “Direitos em tempos de Covid-19: o que há de novo?”, organizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); ações para auxiliar populações mais vulneráveis, como moradores de rua; atendimento psicológico gratuito por telefone para idosos; e um guia para ajudar no novo luto.

Em um formato mais ágil e de menor duração, a cobertura trouxe também o Expresso Aptare – Direto ao Assunto, que contou também com a participação de idosos, com sugestões culturais para enfrentar a quarentena. O episódio de maior destaque foi a entrevista com Alexandre Silva, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, sobre racismo, envelhecimento e Covid-19, motivada pelas discussões que ganharam o mundo depois do assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos. As definições de racismo e a forma como o preconceito coloca em desvantagem a população negra também no contexto da pandemia foram o principal tema da conversa, com exemplos práticos de como isso acontece.

O último informativo foi ao ar em 22 de junho, exatamente três meses depois do início da quarentena em São Paulo. Na edição de encerramento, as jornalistas compartilharam a experiência de cobrir a pandemia para o público 60+, ressaltando de que maneira o convívio com os próprios pais ajudou a definir as pautas mais relevantes.

A principal lição da cobertura da Covid-19, tanto para as jornalistas envolvidas na reportagem quanto para os idosos que acompanharam os boletins, foi a necessidade da resiliência e da adaptação. “Nós precisamos aceitar que a vida é assim, que as crises vêm de repente e que, diante delas, nós temos que nos adaptar”, recomendou a geriatra Luciana Poyatos, que deu dicas de como manter a qualidade de vida na pandemia.

 

#descobrinaquarentena

A Aptare lançou no Instagram a campanha #descobrinaquarentena, em que os idosos poderiam compartilhar suas descobertas durante o período de isolamento social. Foram duas semanas de postagens e revelações que variavam de “Descobri como é bom ter tempo e poder vivenciar diferentes emoções, sem atropelá-las com o ritmo cotidiano” a “Descobri que sinto saudades da padaria e dos papos com meu amigo palmeirense”.

A campanha foi criada com o propósito de levar o público 60+ a refletir sobre os aprendizados da quarentena e a compartilhar suas descobertas para inspirar outras gerações.