Atualização científica

Terapia ocupacional no cuidado ao idoso com Covid-19 – uma experiência de humanização

Terapia ocupacional no cuidado ao idoso com Covid-19 – uma experiência de humanizaçãoKit Cores - Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo

Isabelle Fernandes Vieira Medeiros – Terapeuta ocupacional pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL/2009); especialização em Terapia ocupacional: uma visão dinâmica em neurologia pela Faculdade Metodista de São Paulo (Famesp/2014); aprimoramento em reabilitação pelo Instituto Lucy Montoro (HCFMUSP/2013); especialização em terapia da mão pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – (IOT HCFMUSP/2018); terapeuta ocupacional das equipes de neurologia e CEAME – Comissão para o Estudo e Assistência ao Menor Excepcional.

 

Luciana Santos Francisco – Terapeuta ocupacional pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp/1999); aprimoramento em terapia ocupacional em gerontopsiquiatria pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo – (HSPE/2001); especialização em terapia da mão pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – (IOT HCFMUSP/2011); terapeuta ocupacional das equipes de ortopedia e reumatologia do Hospital do Servidor Público Estadual.

 

Tatiana Vieira do Couto – Terapeuta ocupacional pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar/2000);  aprimoramento em terapia ocupacional em geriatria e gerontologia pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE/2002); especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG/2020); organizadora do livro  Cuidado Integral ao Idoso Hospitalizado: Abordagem Interdisciplinar e Discussão de Protocolos – Ed Zagodoni, 2015; terapeuta ocupacional das equipes de geriatria e cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual.

 

O Hospital do Servidor Público Estadual atende os funcionários do estado de São Paulo e seus dependentes (cônjuges e filhos até 21 anos), bem como agregados (pais/mães, padrastos/madrastas). Grande parte da população que frequenta nossa instituição pertence a uma faixa etária mais elevada. Não raro encontramos pessoas centenárias entre nossos pacientes.

O idoso tem várias particularidades já amplamente discutidas e conhecidas na literatura que podem se apresentar durante o período de hospitalização, como a quebra de vínculos, os sintomas psicológicos — entre eles podemos destacar a ansiedade e o medo –, a dificuldade de adaptação à rotina institucional, o rompimento dos papéis ocupacionais, além da possibilidade de desenvolvimento do estado confusional agudo ou delirium, que se configura como emergência em geriatria. Outro fator importante a ser considerado seria a perda da funcionalidade, acarretando em diminuição da capacidade funcional, importante marcador de saúde em idosos.

Durante a pandemia de Covid-19, além dos fatores já destacados e que ficam potencializados especialmente pelos fatores psicológicos (como o medo de não poder mais ver a família, em casos de óbito), podemos acrescentar o isolamento social com a restrição de visitas, as regras mais rígidas para os pertences pessoais no hospital, bem como os profissionais “mascarados” e sem identificação.

Visando a contribuir para a melhora da qualidade do atendimento durante a hospitalização, manter e fortalecer vínculos familiares, promover estímulo cognitivo e identificar sentimentos, bem como prevenir o agravamento de fatores como isolamento social e ociosidade durante a hospitalização, a equipe de terapia ocupacional (TO) do hospital começou um intenso trabalho com todos os pacientes internados com diagnóstico de Covid-19. Foram usadas as seguintes técnicas: medidas não farmacológicas para a prevenção do delirium, treino de atividades da vida diária (AVDs), prescrição de tecnologia assistiva (equipamentos, órteses e ajudas técnicas para a realização de AVDs com independência), comunicação alternativa ampliada (CAA), estimulação cognitiva, entre outras.

Para o desenvolvimento desse trabalho é feita toda a paramentação com uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), conforme protocolo institucional segundo a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), além de higienização dos materiais e dos equipamentos utilizados pela equipe de TO a cada uso (aparelhos eletrônicos, celulares e tablets). Como parte do trabalho humanizado, nossa equipe utiliza crachás gigantes com foto (dando preferência para fotos sorridentes), nome, além da nossa função. Esse material é plastificado, possibilitando sua higienização. Todo o protocolo de segurança também está presente nos kits de atividades que são oferecidos, que foi rigorosamente orientado pela CCIH.

Para os pacientes internados em enfermaria são oferecidos kits de cuidados com atividades, entregues semanalmente a cada paciente. Verificamos que, em geral, são entregues cerca de três kits por paciente (o que significa três semanas de hospitalização). O kit 1 contém atividades que favorecem a expressão de sentimentos, reflexão e planejamento acerca da rotina, promovendo uma ressignificação do cotidiano. O kit 2 contém elementos mais práticos para o planejamento da rotina e uma atividade para proporcionar bons pensamentos. O Kit 3, pensando que o paciente já está mais próximo da alta hospitalar, inverte a relação de cuidado, e ele pode entregar palavras de cuidado e agradecimento à equipe. Em todos os kits foram contempladas atividades de estimulação cognitiva. Além dos kits de atividades, são oferecidos os “Kits Cores”, que contêm materiais de pintura e desenhos significativos. Ainda para esses pacientes são oferecidos livros de leitura e até alguns itens de higiene.

Adicionalmente, se esses pacientes estiverem sem aparelho celular para contato com as famílias, são feitas chamadas de vídeo, melhorando assim a comunicação entre os familiares e trazendo tranquilidade para o paciente.

Um dos destaques da intervenção nas enfermarias, que tem muito impacto inclusive com a equipe multidisciplinar, é a comemoração de aniversários, altas e outras datas. Essas ações favorecem a estimulação temporal e possibilitam um cuidado mais humanizado.

Foco em comunicação

A intervenção na UTI tem focado na comunicação e no envio de mensagens para os pacientes. Duas vezes por semana, a equipe de TO entra em contato com a família e pede que ela envie mensagens de áudio para os pacientes, mesmo para aqueles que estão sedados, a fim de estimular reações.

Foi desenvolvida também uma prancha de comunicação específica para pacientes com Covid-19, a fim de facilitar a comunicação dos pacientes com traqueostomia, que fazem uso do respirador ou mesmo daqueles com máscara inalatória que apresentam dificuldade para falar. Nessa prancha estão contemplados o alfabeto, números, os sintomas físicos, emocionais, psicológicos, atividades de interesse, bem como perguntas sobre o tratamento e sobre familiares, além de aspectos espirituais, religiosos, últimos desejos e morte. Esse material foi disponibilizado em todas as enfermarias e UTI que atendem os pacientes com Covid-19 e está encadernado e plastificado para facilitar a higienização.

Como resultado de todo esse trabalho, os pacientes referem que as atividades estão ajudando a amenizar a solidão desse período e estimulando questões cognitivas e orientação de tempo. Eles também relatam que as atividades auxiliam não só a desviar o foco de preocupação com a respiração e complicações da doença, mas também a pensar em projetos futuros. Muitos deles gostam tanto das atividades, especialmente as com componente mais lúdico, que percebemos que isso promoverá uma relação intergeracional no momento da alta, quando poderão fazer as atividades com os netos.

Na UTI, os pacientes têm ficado mais orientados e sentem-se acolhidos ao ter notícias de suas famílias e, principalmente, ao saber que não foram abandonados, pois a ausência de visitas faz parte do protocolo institucional. Já os familiares estão tendo a oportunidade de expressar sentimentos que talvez nunca tivessem sido revelados e podem sentir-se mais “perto” do seu ente querido. Gravar as mensagens de voz e vídeo e saber das reações do seu ente querido faz com que a família tenha a sensação de que está ajudando na sua recuperação.

Todas essas ações da terapia ocupacional têm contribuído para um atendimento mais humanizado e com mais qualidade tanto para os pacientes quanto para seus familiares. Temos percebido que essas ações contribuem também para a melhora da sensação de sofrimento por parte da equipe, pois o cuidado na instituição tem extrapolado o cuidado físico e todos fazem parte dessa construção.

 

Referências bibliográficas:

  1. Ventura MM, Mendonça LP, Couto TV. Cuidado Integral ao Idoso Hospitalizado – Abordagem Interdisciplinar e Discussão de Protocolos. 2015. Ed. Zagodoni
  2. Domingues MA, Lemos ND. Gerontologia – Os Desafios nos Diversos Cenários de Atenção. 2010. Editora Manole
  3. COUTO, Tatiana Vieira do; CANON, Mariana Boaro Fernandez. Uma proposta de atuação da Terapia Ocupacional junto a idosos hospitalizados. Cad. Ter. Ocup. UFSCar, São Carlos, v. 22, n. 2, p. 373-382, 2014
  4. ZINN, Gabriela Rodrigues; SILVA, Maria Júlia Paes da; TELLES, Sandra Cristina Ribeiro. Comunicar-se com o paciente sedado: vivência de quem cuida.Rev. Latino-Am. Enfermagem,  Ribeirão Preto ,  v. 11, n. 3, p. 326-332,  June  2003 .
  5. COSTA, Jaquilene Barreto da et al . Sedação e memórias de pacientes submetidos à ventilação mecânica em unidade de terapia intensiva.Rev. bras. ter. intensiva,  São Paulo, v. 26, n. 2, p. 122-129,  June  2014 .