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“Toda pessoa idosa institucionalizada importa”

“Toda pessoa idosa institucionalizada importa”Idoso e cuidadora em ILPI

Por Silvia Sousa

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2012 e 2017 o número de idosos deu um salto no país, passando de 25,4 milhões para mais de 30 milhões, um aumento de 19,5%. Nesse mesmo período, cresceu também o número de pessoas com mais de 60 anos alojadas em albergues públicos. Se em 2012 eles eram 45,6 mil, em 2017 chegaram a 60 mil. Mas, se somarmos a eles aqueles que vivem em instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) privadas, o número deve chegar a 300 mil idosos. O cálculo é estimado, pois esse setor ainda é pouco organizado, o que faz com que haja muito desencontro de informações em relação à gestão e ao manejo com os idosos. Foi olhando para essa situação que a Frente Nacional de Fortalecimento às Instituições de Longa Permanência para Idosos (FN-ILPI) nasceu.

Para entender essa história é preciso voltar um pouco no tempo. Em março deste ano, após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a Covid-19 uma pandemia, o Brasil ainda via sua curva de número de casos começar a subir, mas na Europa a situação já era bem preocupante. As cenas de corpos sendo acumulados em contêineres chocaram o mundo. E a situação era ainda mais preocupante entre os idosos, principalmente aqueles que viviam em ILPIs. A taxa de mortes chegava a 50%, ou seja, de todos os idosos que moravam em uma instituição, metade morria por causa da doença. O diretor-geral assistente da OMS, o italiano Ranieri Guerra, especialista em saúde pública, definiu o cenário como um massacre.

Segundo o Instituto Nacional de Saúde da Itália, os principais desafios na gestão da Covid-19 dentro das ILPIs eram a falta de informação sobre como proceder para conter a infecção, a falta de dispositivos de proteção pessoal e as dificuldades para isolar os casos positivos ou para realizar exames que confirmassem o diagnóstico.

Essa situação acendeu um farol vermelho para o Brasil, mostrando que algo muito grave – e parecido com o que ocorria na Itália e em outros países europeus – poderia acontecer aqui também. Como lá, faltavam informações para que os profissionais que cuidavam de idosos pudessem lidar com o problema. Mas o que fazer? Como fazer? Ninguém sabia, mas algo precisava ser feito. E muito rápido.

Durante uma audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos do Idoso, na Câmara dos Deputados, em Brasília, em 7 de abril veio o alerta: se o Estado brasileiro não fizesse nada, viveríamos uma tragédia tal como a Itália. Na plateia, entre outros representantes da causa do envelhecimento no Brasil, estava a médica geriatra Karla Giacomin, de Belo Horizonte (MG). “Já saímos dali criando um grupo de WhatsApp. Nossa intenção era apoiar a comissão da Câmara para que ela pudesse atuar nesse âmbito da Covid-19”, conta. Mas o grupo foi crescendo e daí nasceu a Frente Nacional de Fortalecimento às Instituições de Longa Permanência para Idosos (FN-ILPI). De acordo com Karla, que se tornou coordenadora da Frente, trata-se de um movimento social composto por voluntários das cinco regiões do país. “É uma reação à falta de respostas durante a pandemia, principalmente entre os idosos”, explica ela.

O grande triunfo da Frente foi expor as fragilidades do setor e se organizar para oferecer informação segura, ainda que de forma genérica, para que as ILPIs pudessem se adaptar e trabalhar de forma correta na pandemia. “Havia a necessidade de um movimento que trouxesse dados, informações e orientações fidedignas, baseadas em dados científicos, e que pudesse unir profissionais e estudiosos de diversas áreas para somar nos cuidados e proteção ao idoso institucionalizado de todo o país”, explica a especialista em inclusão digital Aline Sala Carvalho, coordenadora do grupo de comunicação da Frente. Ela mora na Itália e presenciou de perto todos os problemas que a Covid-19 trouxe para a população idosa daquele país.

A Frente está organizada em oito grupos de trabalho, com mais de 1,2 mil voluntários. “São profissionais de todas as áreas de conhecimento, com competência técnica e embasamento científico, atuantes em setores governamentais e universidades, que contribuem no suporte às ILPIs diante do abismo existente entre as instituições e o Estado”, explica Natalia de Cassia Horta, coordenadora da pós-graduação em gerontologia da PUC-Minas, Na FN-ILPI, ela coordena um grupo de trabalho de elaboração de materiais educativos. Entre os voluntários há médicos geriatras, fisioterapeutas, nutricionistas, enfermeiros, assistentes sociais, advogados, promotores, entre outros especialistas.

 Cartilhas, lives e treinamentos

Para ajudar as instituições, a Frente elabora materiais de apoio e cartilhas e ainda colabora na capacitação dos profissionais no âmbito da Covid-19. O primeiro trabalho foi a criação do Relatório Técnico para Comissão de Defesa dos Direitos do Idoso, com orientações sobre como agir, como cuidar, como detectar casos da doença, recomendações para internações, orientações no caso de óbitos, segurança dos funcionários. O material foi distribuído para ILPIs públicas, filantrópicas e particulares de todo o país. “Todas são carentes de informações, em níveis diferentes, mas necessitam ser mais bem capacitadas. Por isso, para nós não importa se a instituição é gratuita ou paga, nós oferecemos ajuda a quem precisar. Os idosos são diferentes, as doenças são diferentes e os processos precisam ser muito bem definidos”, explica o geriatra João Toniolo Neto, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Frente.

A receptividade ao primeiro relatório elaborado foi tão boa que o trabalho da Frente cresceu e virou um canal de comunicação. “Criamos uma relação de confiança”, diz a coordenadora Karla. Um dos motivos dessa aproximação foi conseguir chegar ao maior número de ILPIs possível e com informações rápidas e simples. Além do relatório técnico, já foram redigidas nove cartilhas distribuídas por meio eletrônico. Também foram realizadas 18 lives até o mês de setembro (com média de 11,8 mil visualizações) e capacitações virtuais. Um desses treinamentos – o de Manejo de Casos Suspeitos e Confirmados de Covid-19 em ILPI – já teve 23 edições, somando 5 mil participantes. Tudo gratuito e com distribuição de certificado para comprovar a capacitação.

“Recebemos constantemente feedbacks de pessoas que atuam nas instituições nos agradecendo, pois não se sentem sozinhas nesta batalha diária contra a pandemia”, conta Aline. A Frente ainda conta com as redes sociais (Instagram e Facebook) e WhatsApp para manter contato com profissionais de todo o país.

Outro braço da Frente cuida das políticas públicas. Uma das ações em que teve participação foi a aprovação da Lei 14018, de 29 de junho de 2020, que disponibilizou uma verba de 160 milhões de reais para as ILPIs filantrópicas. “Ficamos felizes com a nossa atuação, mas ainda estamos lutando para ampliar esse auxílio a todas as instituições, sejam públicas ou privadas”, explica a advogada Ariane Angioletti, de São José (SC), especialista em gestão jurídica de ILPIs e membro do grupo de questões jurídicas da Frente. Ela lembra que há muitas instituições que, apesar de serem particulares, são muito pequenas e não possuem verbas para contratar um profissional para orientá-las perante a lei e as regulamentações. Daí a importância desse grupo na Frente. Um dos assuntos abordados durante esse período, por meio de lives e cartilhas, foi o direito do idoso, assim como o direito de as famílias visitarem seus familiares, que foi restringido na pandemia. “Passamos informações para as casas tomarem decisões mais assertivas, diminuindo os impactos da gestão”, diz ela. Além de ajudar na elaboração das cartilhas, a advogada acompanha os projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional ligados à causa do envelhecimento.

Conseguir esse alcance foi um trabalho de formiguinha, pois não existe no Brasil um cadastro único de ILPIs. Os voluntários precisaram procurar prefeituras, Ministério Público, secretarias de assistência social, comissão de idosos e até indicações das próprias instituições para mapear essa rede. Esse é um setor que ainda carece de organização. “Para isso buscamos capilaridade em todos os estados do país, de modo a termos multiplicadores que façam com que o apoio chegue à maior parte das instituições”, diz Natalia, da PUC-Minas.

Novos horizontes

Com o trabalho realizado, a Frente ganhou o apoio da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), que ajuda a revisar as cartilhas e as disponibiliza em seu site. O trabalho também chamou a atenção do programa Todos pela Saúde, do Banco Itaú. Junto com a FN-ILPI, a instituição bancária realizou entre setembro e outubro o Fórum Retomar, com o objetivo de orientar a comunidade institucional sobre a retomada das atividades de rotina nas instituições. As temáticas discutidas no Fórum foram produzidas pelos membros da Frente e as lives foram transmitidas simultaneamente no Facebook e no canal de YouTube do grupo.

Com toda essa repercussão a Frente já se prepara para a fase 2, passando a atuar em outras áreas no âmbito do envelhecimento. “Temos que pensar em uma política nacional de cuidados com essa população no nosso país. As ILPIs sempre são vistas como última opção, mas isso tende a mudar. Nossa população está envelhecendo e as famílias ficando menores. As ILPIs precisam estar preparadas para receber esses idosos”, alerta a geriatra Karla. Ela completa: “Ainda vivemos no nosso país o etarismo, que é o preconceito contra o envelhecimento. Não dá mais para aceitar coisas desse tipo. A velhice não é um problema, é uma conquista”. Já a advogada Ariane lembra que as ILPIs têm que ser vistas como um local de apoio e convivência. “As pessoas vão para viver e receber atenção, não para morrer”, diz ela.

A Covid-19 foi o gatilho desse movimento social, mas ainda há muito o que discutir e melhorar nesse segmento – e a Frente está se organizando para os próximos desafios. “A FN-ILPI pretende prosseguir no esforço de capacitar gestores e colaboradores de ILPIs públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos, alertar sobre a urgência de pesquisas de diagnósticos das ILPIs e colaborar com instrumentos de monitoramento da qualidade do cuidado e de financiamento da política de cuidados”, explica Aline Sala, do grupo de comunicação da Frente. Até agora, a geriatra Karla, coordenadora da Frente, mostra-se satisfeita com o trabalho que vem sendo realizado: “Estou convencida de que fizemos a diferença no âmbito da Covid-19”.