Diálogos

Quarentena Solidária, uma experiência de resistência

Quarentena Solidária, uma experiência de resistênciaEsquina do Mundo

Por Lilian Liang

Há muito tempo admiro o trabalho do Hospital Premier. Dedicado a pacientes em cuidados paliativos, muitos deles sem chances de cura, seria de se esperar na instituição uma atmosfera soturna, de silêncio e melancolia. Aquele ambiente de tristeza ao qual geralmente associamos o final de vida.

Pois o Premier é exatamente o oposto disso. Graças ao pioneirismo de seu superintendente, o médico Samir Salman, o hospital é cheio de cor, vida, música, idealismo – e também de ideias um pouco malucas, mas que Salman não tem medo de pôr em prática. Um exemplo: na cerimônia de encerramento de um evento em 2017, o médico levou uma escola de samba para se apresentar nas dependências do hospital. Uma escola de samba num hospital de cuidados paliativos, com direito a bateria e passistas, penas e paetês. E quem acha que os pacientes reclamaram se engana. Os que tinham condições acompanharam, encantados, aquele espetáculo tão inesperado do terraço no segundo andar.

Pois foi uma outra ideia maluca de Salman que levou o Hospital Premier à primeira página do jornal norte-americano The New York Times. Com o início da pandemia no Brasil, o médico tomou uma decisão drástica para proteger seus pacientes: fechar as portas do hospital por 40 dias. Quem quisesse continuar cuidando dos pacientes teria que se mudar para o hospital. Quem preferisse não participar da quarentena poderia permanecer em casa, sem nenhum prejuízo financeiro. Dos 240 colaboradores do hospital, 90 aceitaram participar da iniciativa, que ficou conhecida como Quarentena Solidária. Não se sabe de nenhuma instituição de saúde no mundo que tenha tomado medidas tão extremas.

A empreitada se transformou inclusive em documentário. Esquina do Mundo, com direção de João Rocha Rodrigues, acompanha a vida dentro do hospital, colhendo depoimentos de profissionais e pacientes, durante o período de quarentena. O filme foi rodado já no final do período, e os profissionais envolvidos tiveram que se manter em isolamento em casa e depois serem testados antes de entrar no hospital.

Nessa entrevista exclusiva para a Aptare, conduzida em dezembro de 2020, Salman conta sobre o processo de decisão, as dificuldades encontradas e a transformação – profissional e pessoal – vivida por todos durante o confinamento.

Aptare – Como veio essa ideia e como foi essa tomada de decisão?

Preciso me remeter ao mês de fevereiro, quando começaram a surgir os boatos de um novo vírus. A gente vinha acompanhando atentamente. No dia 12 de março, a Organização Mundial da Saúde decretou que existia uma pandemia no mundo e no dia 18 montamos um comitê de crise. Diante das notícias que chegavam do mundo todo, esse comitê entrou em desespero. É importante lembrar que hoje se sabe um pouco mais da doença, mas naquela época eu fiquei realmente impactado. Fiquei preocupado não apenas com os pacientes, mas também com nossa equipe, porque 80% de nossos funcionários andam três horas em transporte público diariamente, entre idas e vindas. Pensei: “Não temos vacina nem tratamento, a única coisa que parece funcionar é o distanciamento social”. Comuniquei então ao comitê que fecharíamos o hospital e dormiríamos aqui com os pacientes, para tentar blindar a instituição. No primeiro momento foi um espanto, mas tenho que lembrar que nossos pacientes estão no topo do risco. São pacientes já com muitas comorbidades e corriam um risco absurdo.

A proposta era a seguinte: quem quisesse participar teria que morar no hospital. Quem não quisesse, continuaria recebendo o salário em casa. Era absolutamente voluntário. Para minha surpresa e alegria, quase 100 pessoas aderiram. A partir de 25 de março, ninguém mais entraria ou sairia do hospital.

Aptare – A quarentena tinha um período estabelecido? Havia previsão de saída?

As pessoas foram avisadas de que seria de 25 de março a 10 de maio. A ideia era tão inusitada que imaginávamos que 45 dias seriam suficientes para nos organizarmos e protegermos os pacientes. A decisão de prorrogar foi tomada em abril.

Quando decidimos fechar, tivemos cinco dias para organizar tudo. Foram dias de muito trabalho, tivemos que comprar camas para receber as pessoas dignamente, não dormindo nos corredores. A pessoa tem que dormir num quarto, com banheiro.

No dia 25 de março a gente se internou. O que ajudou nessa ideia foi uma coerência entre o que preconizamos aqui como valores e o que estávamos fazendo. São valores de defesa à vida, de cuidado. Não posso aceitar que alguém se denomine paliativista e não cuide do companheiro do lado, seja ele quem for, pois o cuidar está intrinsecamente ligado à maneira como se vê o mundo. O cuidar é íntegro, é uma proposta de vida isso. Eu estou a serviço, estou preocupado com o outro, e a gente sempre atuou dizendo isso. O ambiente que temos aqui ajudou muito a criar uma situação de convivência. Mas não foi fácil no começo.

Aptare – Como foi a experiência?

Os primeiros 15 dias foram de um terror absoluto. Eu dormia duas, três horas por dia, porque, da mesma forma que tudo deu certo, poderia ter dado errado. Imagine se algum de nós que se aventurou a ficar na quarentena estivesse infectado… Com a velocidade da infecção, a gente poderia ter se metido numa belíssima encrenca. Então eu só consegui relaxar a partir do décimo quarto dia.

Mas era muito interessante, pois nós éramos o único lugar na cidade de São Paulo que tinha academia, cinema, onde ninguém andava de máscara, todo mundo se abraçava e onde todos estavam protegidosTodo mundo com dó da gente e nós com dó do mundo, porque nós estávamos aqui, sim, enclausurados, mas as pessoas estavam enclausuradas em seus apartamentos, em suas casas.

Foi uma experiência extraordinária, porque experimentamos um outro nível de solidariedade. Tínhamos uma escala no hall onde comíamos, em que a pessoa poderia se candidatar para o serviço voluntário. Todos trabalhavam de oito a nove horas por dia – lembrando que eram 100 pessoas fazendo o trabalho de mais de 200 – e tinham um dia de descanso absoluto, mas, fora isso, tínhamos que cuidar de nós mesmos. Então dividimos da maneira mais racional, e foi o rompimento de qualquer hierarquia da sociedade como a gente conhece. Foi um fenômeno. Passada a primeira semana da quarentena, havia disputa para ser voluntário. Todos se orgulhavam de ser voluntários, de acordar de manhã e servir café para os outros. Foi algo extraordinário, porque criamos uma comunidade de sobrevivência. Todo mundo esqueceu as contas, os problemas. Nós queríamos ficar vivos, só isso.

Houve também o exercício de ocupar o lugar do outro. Na medida que você faz o serviço do outro, você passa a respeitá-lo mais. Temos histórias de médicos que terminavam de higienizar o paciente e o paciente ter diarreia e ele ter que limpar de novo, duas, três vezes. Aí eles chegavam aqui dizendo: “Olha, nós temos que valorizar as pessoas que fazem esse trabalho”. Então todos tiveram essa integridade, essa dignidade de perceber que só daria certo se houvesse o envolvimento de todo mundo. Nós tínhamos o mesmo uniforme, então você chegava ao refeitório e não tinha como identificar quem era quem. Havia uma mistura absoluta de funções. Viver o que o outro faz foi um aprendizado absolutamente extraordinário.

Com o passar do tempo, estabeleceu-se aqui um clima muito interessante, de prazer, de academia, de música, de ioga, tai chi chuan. Tinham cultos evangélicos, católicos. Era uma minissociedade como toda sociedade – eu imagino – deveria ser.

Tivemos uma passagem muito engraçada sobre a convivência. Numa de nossas reuniões, discutimos uma alegoria de Schopenhauer, que era o dilema do porco-espinho. Segundo a alegoria, uma comunidade de porcos-espinhos naufraga e vai parar no Polo Norte. Chegando em terra firme, eles começaram a viver um dilema: como era muito frio, eles tinham que se aproximar; mas com a aproximação eles se machucavam e tinham que se afastar novamente. Então o dilema para os funcionários era: “você prefere morrer ferido ou de frio?”. E aí vieram várias reflexões muito interessantes.  Teve gente que falou “Eu prefiro morrer de frio, porque eu não quero ferir ninguém”. Outros disseram “Olha, eu quero morrer ferindo, porque eu odeio o frio”. No final, a conclusão dessa alegoria é que realmente todos nós temos nossa gama de espinhos, que são as manias, as vontades. Esses espinhos não vão desaparecer, mas faça de um jeito que eles se entrelacem com os espinhos do seu vizinho e vocês convivam. Não se machuque nem morra de frio. Essa dinâmica passou a acontecer duas vezes por semana. A sociedade acabou criando um mecanismo de peso e contrapeso muito interessante.

Aptare – A Quarentena Solidária é uma iniciativa tão única que se transformou até em documentário. Você pode falar dessa experiência?

O documentário nasceu com a vinda da [jornalista] Juliana Dantas, que tinha feito um podcast no primeiro dia da quarentena. Em uma conversa, ela soube que a gente ia entrar em quarentena, veio pra cá e gravou um podcast. No final, ela perguntou se não poderia entrar no hospital nos últimos dez dias, seguindo todos os protocolos de isolamento. Quando ela viu o que estava acontecendo aqui, nasceu a ideia do documentário, de registrar a experiência. Dei autonomia para que a equipe entrevistasse quem quisesse. Falei “Não vai ter cena gravada aqui, vocês vão tentar captar a essência do que está acontecendo”.

Aptare – Uma das cenas mais icônicas da Quarentena Solidária foi a das visitas no muro de vidro. Como foi explicar para as famílias que o acesso ao hospital não era mais permitido?

Salman – Houve uma surpresa geral quando avisamos sobre a restrição da permanência de familiares acompanhantes. As famílias foram comunicadas que eles só poderiam ficar se morassem aqui, e nós demos a oportunidade de a família transferir o doente se ela não concordasse. Mas houve uma adesão de 80% das famílias, e as que ficaram um pouco resistentes se convenceram na segunda semana.

A questão da janela é uma daquelas coisas que acontecem sem querer. As pessoas queriam ver seus familiares e alguém sugeriu ir até a parte da frente do hospital, onde existe um grande muro de vidro. O engraçado é que aconteceu uma visita no muro no momento em que uma equipe da [agência internacional de notícias] Associated Press estava aqui – aquelas coisas que a gente chama de coincidência. Fotografaram e, para minha surpresa, a foto saiu em 25 países.

Na verdade, as soluções foram sendo construídas. Não houve planejamento. No início do documentário a Juliana perguntou o que iria ser… Se você me perguntasse isso no dia 25 de março, eu diria “Eu não sei o que vai ser”. O que eu tinha claro era a intenção de salvar vidas. Então eu tinha que tomar uma atitude naquele momento, não adiantava depois construir retóricas. Eu não aceitava perder ninguém. Sob a minha responsabilidade, não. Eu sabia que tinha que fazer isso pela gravidade dos meus pacientes e também pelos meus funcionários, porque começamos a receber relatos que colaboradores estavam sendo agredidos onde moravam e ofendidos no transporte público.

Aptare – Como foi a transição para o modo convencional de trabalho?

A gente fez a quarentena até o dia 10 de maio, depois prorrogamos até julho e completamos 100 dias aqui. Num primeiro momento de flexibilização, metade não quis sair, e eu não me achei no direito de romper isso. Mas o regime foi se afrouxando com o tempo. Então em julho, por exemplo, havia visita monitorada uma vez por semana de família, aí aumentou para duas. Todas as medidas eram tomadas pelo comitê de crise, que estava antenado com a OMS, com a Anvisa, com o FDA, com o que tem de melhor em termos de prevenção e práticas. Paramos de dormir aqui em setembro, quando as pessoas começaram a poder ir e vir. E temos um checklist na entrada: se a pessoa apresenta algum sintoma e, a depender da história clínica, ela já não entra no trabalho. Não importa a escala nem nada. Mantivemos o rigor, continuamos vigilantes. Tem sido uma trabalheira tremenda, porque, às vezes, você desorganiza a escala. A escala tem seis no andar, mas três você não deixa entrar. E eu autorizei o comitê de crise a não se interessar pela escala. Falei: “Na dúvida, errem pelo excesso de zelo, não facilitem”. Não tivemos nenhum caso de Covid-19 aqui.

E você percebe quanto as pessoas amadureceram depois disso. A cumplicidade, o olhar entre nós hoje, é muito mais profundo.

Aptare – Hoje o senhor tem 60 anos, portanto também se encaixaria no grupo de risco. Como foi pessoalmente essa decisão de passar a quarentena no hospital?

Eu nunca imaginei nada disso, mas acho que a providência divina acontece quando você tem uma intenção genuína. Eu acredito na intencionalidade. Às vezes eu não tinha certeza do ponto final da viagem, mas tinha certeza do que teria que ser feito.

Mas não foi simples. Eu tenho 60 anos, tenho hipertensão e meus cinco filhos não queriam me deixar ir, diziam que eu não estava pensando na família. Respondi: “Mas que exemplo eu vou deixar para vocês se no momento de maior aflição eu sair do barco?”. Tenho dois filhos que fazem residência na Santa Casa, um deles pegou a doença. A minha vontade era arrancá-los de lá, porque estava o maior pandemônio. Então nós também estávamos vivendo o drama da Covid-19 pessoalmente.

Mas se nessa hora a gente, que está na liderança, fugir da responsabilidade, quem é que vai assumir? Teve um dia que eu caí doente aqui e fiquei isolado no meu quarto por três dias. Isso foi depois do décimo quarto dia, eu estava exaurido porque não dormia, baixou a adrenalina e eu dormi dois dias seguidos. Minha família ficou desesperada, mas, no frigir dos ovos, eles passaram a entender a minha atitude. No documentário, um dos nossos diretores cita um poeta italiano que diz “Onde é o endereço do homem? É onde o coração está”. O Premier vem escrevendo sua história na contramão de algumas coisas e por isso estávamos preparados para enfrentar o que enfrentamos. Precisa haver coerência entre o que você fala e o que você faz.

Quando saí do hospital foi um misto de alegria e preocupação, porque só vou considerar que deu certo quando chegarmos ao final dessa história. Vivemos momentos de enfrentamento, sofremos muitas críticas, inclusive de cárcere privado – quando você se expõe da maneira que fizemos, você corre o risco de apanhar, e nós apanhamos. Mas é um prazer indescritível poder olhar para seus filhos, para as pessoas e perceber que está ajudando a enxergar o mundo de uma maneira diferente. E que é possível o mundo de uma maneira diferente.