Diálogos

#QUEMFAZ: Rogério Pedro

#QUEMFAZ: Rogério PedroRogério Pedro

Nasci em Esperantina (PI) e fui criado em Brasília em um lar evangélico. Durante a adolescência deparei com conflitos relacionados à minha sexualidade, e o temor de “ir para o inferno” era tão grande que me fazia reprimir o que sentia. Um dia coloquei tudo numa carta para uma amiga confidente, mas acabei por não enviá-la e minha mãe encontrou a correspondência. Seu comportamento mudou e tivemos inúmeros conflitos.

Acabei fugindo de casa. Peguei um dinheiro que era para pagar a prestação de um computador, fiz minhas malas, fui para a rodoviária e vim parar em São Paulo. Nunca tinha vindo pra cá e não conhecia ninguém, tinha apenas o número do telefone da irmã de uma amiga de Brasília. Na primeira noite vivi meu pior pesadelo: não consegui falar com essa pessoa e acabei dormindo nas escadas do terminal Santo Amaro. Com o tempo, minha vida foi estabilizando, consegui um emprego e segui minha vida. Refiz os laços com a família e os amigos, fiz novas amizades, mas nunca mais quis voltar a morar em Brasília.

Durante todo o tempo, questões sobre sexualidade e velhice eram uma grande preocupação para mim. Por isso, fui atrás de conhecer um pouco mais sobre as pessoas idosas LGBTs e encontrei um campo de muita invisibilidade. Senti a necessidade de fazer algo para essa população como forma de reconhecimento e gratidão. Nascia assim a EternamenteSOU, um coletivo de pessoas que se preocupavam com as velhices LGBT, com o objetivo de dar visibilidade a esse tema e tornar pública a discussão. Através de seminários e outras iniciativas, já impactamos desde nossa fundação cerca de 800 idosos LGBT na cidade de São Paulo. Inauguramos o primeiro Centro de Referência e Convivência LGBT 50+ do Brasil e outros dois núcleos, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Contamos com uma equipe multidisciplinar de mais de 120 voluntários e junto com essa equipe toda conseguimos mudar a realidade do país, trazendo sérias reflexões em todos os campos acerca do envelhecimento da população LGBT no Brasil.