“Sou palhaço, o que eu chamo da arte do fracasso e da vulnerabilidade.

Pratico isso na vida há mais de 45 anos, e no trabalho há mais de 30, especialmente como palhaço terapêutico. Mas não atuo apenas com crianças hospitalizadas. Há mais de 20 anos também visito semanalmente idosos institucionalizados vivendo com a doença de Alzheimer e outras formas de demência. Acredito que, com o palhaço, os idosos não se sentem julgados pelas dificuldades e pelos fracassos que a doença provoca. Na verdade, são eles que ajudam o palhaço!

Comecei a praticar em Montreal, no Canadá, onde cresci. Cofundei a Fundação Dr. Clown, a maior organização de palhaços profissionais trabalhando na área de saúde do país. Numa parceria com o Instituto Universitário de Geriatria de Montreal, encontrei o psicólogo Christian-Paul Gaudet, especialista do comportamento da pessoa com demência, que me ajudou a entender o impacto da doença do ponto de vista do portador e como entender melhor a potência do palhaço terapêutico para se relacionar com ele.

Adaptei uma metodologia criada por Magdalena Schamberger, aplicada na Escócia, e preparei uma equipe de palhaços terapêuticos dedicada à demência. Nomeei o projeto de “Uma Bela Visita”. A equipe é composta por personagens elegantes das décadas de 1930 a 1950, que oferecem visitas como se fossem familiares, levando cantorias, afetos e pequenos melodramas. E por que essa época? Porque através de pesquisas e experiências pessoais foi demonstrado que o portador se percebe, geralmente, com um self de 20 a 25 anos. Por isso, os palhaços se caracterizam como se estivessem naquele tempo. Às vezes, os palhaços terapêuticos parecem, para o portador, as criaturas mais “normais” na instituição.

Em 2012 me mudei para o Rio de Janeiro. Cofundei o Teatro do Sopro, para explorar vários caminhos de transformação pessoal e social pela empatia e pela arte do palhaço: o “Empatilhaço”. Em parceria com o Dr. Jerson Laks, psiquiatra, especialista em demência, rapidamente entendi que o poder do palhaço para se relacionar com a pessoa com demência não precisa ficar apenas com esse artista. Por ser uma prática em comunicação não cognitiva, empática e lúdica, qualquer um pode aprender a desenvolver uma relação completamente outra, e enriquecedora, com a pessoa com demência.

Acredito que, mesmo que a inteligência cognitiva seja fortemente afetada pela demência, a inteligência emocional pode continuar a se desenvolver até o final. Essa dedicação e entrega depende da vontade da parte do cuidador, familiar ou profissional, em inverter os papéis, aceitar se vulnerabilizar e saber pedir ajuda para a pessoa demente.”

Olivier-Hugues Terreault – é empreendedor social, palhaço terapêutico, formador, palestrante internacional e professor de meditação. Tem mais de 20 anos de experiência com pessoas vivendo com demência. Através do seu programa Abrace a Demência, trouxe um olhar positivo sobre a relação com o portador, tendo sido nomeado fellow da Ashoka, Líder da BrazilFoundation, trabalhando em parceria com o Lab60+ e o Indepp.