# Como cientistas "curaram" pacientes infectados com HIV em 2026

> A 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro, anunciou dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco. O tratamento eleva para 13 o número de pacientes sem vírus detectado. A mutação CCR5 delta32 impede a entrada do HIV nas células, permitindo a "cura" funcional dos infectados.

*Aptare · Prevencao · 29 de julho de 2026 · Antônio Carlos Drummond*

Dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. Com eles, sobe para 13 o número de pacientes sem vírus detectado após o tratamento. Entenda como a mutação CCR5 delta32 impede a in

## A cena que me trouxe até aqui

Era uma tarde de julho, e eu folheava os anais da 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro, quando me deparei com um anúncio que me fez parar o café na mesa. Dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV após transplante de células-tronco. Não eram números frios de laboratório, eram histórias de pessoas que, depois de décadas de espera, viram o vírus desaparecer do sangue. Eram 13 no total, agora. E eu, que já vi tanta promessa se desfazer em meia notícia, senti que desta vez o chão se movia devagar.

## O que é a remissão do HIV e como ela acontece?

A remissão do HIV, como a anunciada nos casos de Kansas City e Essen, significa que o vírus não é mais detectado no sangue do paciente mesmo após a interrupção dos medicamentos antirretrovirais. Não se trata de cura definitiva, os próprios pesquisadores preferem o termo "remissão", já que não é possível garantir que a infecção não retornará. Mas, para quem viveu sob o peso do diagnóstico, é um sopro de possibilidade.

## Os dois novos casos: Kansas City e Essen

### Paciente de Kansas City

Um homem que, aos 21 anos, descobriu não apenas estar infectado pelo HIV, mas também sofrer de leucemia mieloide aguda, um câncer que afeta a produção de células de defesa. Ele foi submetido a um transplante de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que dão origem a todas as células sanguíneas, inclusive os leucócitos. Após a interrupção dos antirretrovirais, passaram-se 14 meses sem que o vírus fosse detectado em seu organismo.

### Paciente de Essen

O outro caso é de um paciente alemão, infectado por dois tipos diferentes de HIV e também pelo vírus da hepatite B (HBV). Ele recebeu o mesmo tipo de transplante. Após 12 meses sem detecção do HIV, a terapia antirretroviral foi interrompida. Houve uma recidiva do vírus da hepatite B, mas o HIV permaneceu indetectável.

## O segredo está na mutação CCR5 delta32

Nos dois casos, os doadores das células-tronco carregavam uma mutação genética especial: a CCR5 delta32. Para entender por que isso é crucial, é preciso lembrar como o HIV age. O vírus da Aids tem como alvo os linfócitos T CD4+, peças fundamentais do sistema imunológico. Para entrar nessas células, o HIV se conecta a moléculas na membrana externa: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. É como se o vírus precisasse de uma chave para abrir a porta.

A mutação CCR5 delta32 produz uma versão modificada do correceptor CCR5, que impede essa ligação. Sem conseguir entrar na CD4+, o HIV não consegue se replicar. Quando o paciente recebe as células-tronco do doador, suas novas células de defesa herdam essa resistência.

## O que os pesquisadores dizem

A pesquisadora Carina Elsner, responsável pelo estudo com o paciente de Essen, explica que a mutação em homozigose, quando pai e mãe transmitem o gene CCR5 delta32 para o filho, está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo muito rara. "A questão principal é se a presença da mutação CCR5 delta32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV", afirma.

Já Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pelo caso de Kansas City, pondera: "É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco. É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."

## O primeiro caso: Timothy Ray Brown

O primeiro paciente a ser considerado curado do HIV foi Timothy Ray Brown, conhecido como "paciente de Berlim". Ele recebeu um transplante de células-tronco em 2007 e viveu livre do HIV até 2020, quando morreu vítima de leucemia, a mesma doença que motivou seu transplante. Seu caso abriu caminho para todos os outros.

## Por que não podemos falar em cura?

Apesar do entusiasmo, os estudos concluíram que houve remissão, não cura. O termo "cura" aparece entre aspas porque não é possível afirmar se a infecção retornará depois de algum tempo. O HIV pode permanecer latente em reservatórios no corpo, e apenas o acompanhamento de longo prazo dirá se esses pacientes estão realmente livres do vírus.

## Perguntas Frequentes

### O que é a mutação CCR5 delta32?

É uma variação genética que produz uma versão modificada do correceptor CCR5, impedindo a entrada do HIV nas células CD4+. Está presente em cerca de 10% dos europeus do norte.

### Quantos pacientes já alcançaram remissão do HIV?

Com os dois novos casos, chega a 13 o número de pacientes infectados com HIV que não tiveram vírus detectados no sangue após transplante de células-tronco.

### O transplante de células-tronco é uma opção para todos os pacientes com HIV?

Não. O transplante é um procedimento de alto risco, indicado principalmente para tratar cânceres como a leucemia. A mutação CCR5 delta32 é rara, e encontrar doadores compatíveis é um desafio.

### Quanto tempo os pacientes de Kansas City e Essen ficaram sem o vírus?

O paciente de Kansas City ficou 14 meses sem detecção do HIV; o de Essen, 12 meses. Em ambos, os antirretrovirais foram interrompidos para avaliar a resposta ao transplante.

### O que aconteceu com o paciente de Essen após a interrupção dos antirretrovirais?

Houve uma recidiva do vírus da hepatite B, mas o HIV permaneceu indetectável. Isso mostra que o transplante não eliminou todos os vírus do organismo, apenas o HIV.

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Fonte (canonical): https://revistaaptare.com.br/prevencao/saiba-como-cientistas-curaram-pacientes-infectados-hiv-2/
