# Dor crônica pode influenciar no tratamento da depressão resistente

> Estudo publicado na Nature Mental Health indica que dores crônicas não avaliadas podem estar por trás de casos de depressão resistente ao tratamento. Especialistas recomendam incluir rastreio de dor na avaliação psiquiátrica, especialmente no SUS, para melhorar o diagnóstico e o manejo da condição.

*Aptare · Saude Mental · 28 de julho de 2026 · Roberto Vidal*

Estudo publicado na Nature Mental Health sugere que parte dos casos de depressão resistente ao tratamento pode, na verdade, estar ligada a dores crônicas não avaliadas. Especialistas defendem incluir rastreio de dor na avaliação psiquiátrica, especialmente no SUS.

## Dor crônica pode influenciar no tratamento da depressão resistente

Parte dos pacientes com depressão resistente ao tratamento pode, na realidade, conviver com uma dor crônica que nunca foi medida de forma adequada. O alerta é de pesquisadores da Harvard Medical School, King's College London e NeuroPsy, em artigo publicado na revista Nature Mental Health nesta terça-feira (28). A falha em avaliar a dor pode levar a diagnósticos imprecisos e tratamentos inadequados.

A dor crônica é comum em quem tem depressão e reduz a resposta aos antidepressivos. Ainda assim, ela não entra na definição oficial de depressão resistente, não aparece nos questionários mais usados na prática clínica e costuma ser excluída dos ensaios que orientam diretrizes. Quando a depressão não responde ao tratamento, médicos se perguntam se a medicação falhou e raramente questionam se a dor crônica foi em algum momento medida.

## O que diz o estudo sobre dor crônica e depressão

Os autores do artigo argumentam que a dor explica toda e qualquer depressão resistente ao tratamento, não no sentido de ser a causa única, mas de que, ao falhar em medir a dor, o tratamento pode ser influenciado. Eles ressaltam que os pacientes não devem mudar ou parar a medicação com base no artigo.

Nilson Mendes Neto, médico e pesquisador na Harvard Medical School, com trabalho voltado à interface entre dor crônica e saúde, explica que existe uma diferença importante entre o médico saber que o paciente sente dor e a dor ser medida e incorporada de maneira estruturada à avaliação da depressão resistente.

"Hoje, a classificação da depressão resistente ao tratamento se baseia principalmente na falha de tratamentos antidepressivos realizados em dose e duração adequadas. A presença, intensidade e impacto funcional da dor não fazem parte formal dessa definição. Além disso, instrumentos amplamente utilizados para avaliar depressão, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, não avaliam diretamente a carga de dor", afirma o pesquisador.

## Por que a dor não é medida na prática clínica

Mesmo quando o médico sabe que a dor existe, muitas vezes não há uma medida padronizada que permita determinar quanto ela pode estar contribuindo para a persistência dos sintomas ou para a aparente falha do tratamento. "Esse é justamente o ponto que levantamos: não estamos dizendo que os médicos simplesmente ignoram a dor. Estamos mostrando que a arquitetura usada para medir e classificar a depressão resistente não exige que ela seja sistematicamente considerada", diz Nilson.

Os autores argumentam que parte dos pacientes classificados como tendo depressão resistente pode, na realidade, ter um problema de dor não identificado. "Não estamos afirmando que a maioria dos casos de depressão resistente seja explicada pela dor, nem que pacientes com dor não tenham uma depressão verdadeiramente resistente", explica o pesquisador.

O que eles defendem é que, em alguns pacientes, uma condição dolorosa não medida pode estar contribuindo para a aparente resistência ao tratamento. A dor pode tanto modificar a resposta ao antidepressivo quanto interferir na maneira como interpretamos a persistência dos sintomas. Ainda não se sabe qual proporção dos pacientes pode estar nessa situação, justamente porque a dor não é medida de maneira sistemática.

## Implicações para o SUS e a atenção primária

Sobre o contexto brasileiro e o Sistema Único de Saúde (SUS), o médico vê implicações importantes. A primeira é que o problema não exige necessariamente uma tecnologia cara para começar a ser enfrentado. Na atenção primária, nos ambulatórios de saúde mental e nos centros de Atenção Psicossocial (CAPS), uma avaliação estruturada sobre presença, duração e impacto da dor poderia ajudar a identificar pacientes em que esse componente merece ser investigado antes de concluir que a depressão é realmente resistente ao tratamento.

"Isso é especialmente relevante para o SUS, porque muitos pacientes com depressão também convivem com condições dolorosas crônicas, como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias. Muitas vezes esses problemas são acompanhados em serviços diferentes, embora o paciente seja o mesmo. Nosso argumento reforça a importância de integrar melhor saúde mental e cuidado da dor", pondera Nilson.

## Como melhorar a avaliação antes de escalar o tratamento

Segundo ele, há também uma questão de eficiência. Antes de escalar para tratamentos progressivamente mais especializados e mais caros, faz sentido garantir que fatores clínicos potencialmente modificáveis tenham sido avaliados de maneira sistemática. Isso não significa atrasar ou negar tratamentos eficazes para depressão resistente. Significa aumentar a precisão da classificação para que o tratamento certo seja oferecido ao paciente certo.

Ainda de acordo com o pesquisador, no Brasil isso poderia começar de maneira relativamente simples: incluir rastreio de dor na avaliação de pacientes cuja depressão não responde ao tratamento, registrar essa informação de forma padronizada e fortalecer a integração entre atenção primária, psiquiatria e cuidado da dor. "Em resumo, a implicação para o SUS é bastante concreta: antes de tornar o tratamento mais complexo, precisamos ter certeza de que a avaliação não deixou de medir algo importante e potencialmente tratável."

Também assinam o artigo Brendon Stubbs do King's College London e Jessika Mendes (NeuroPsy).

## Perguntas Frequentes

### A dor crônica pode causar depressão resistente?

Segundo o artigo da Nature Mental Health, a dor crônica não medida pode contribuir para a aparente resistência ao tratamento, mas não se afirma que seja a causa única da maioria dos casos.

### Quais instrumentos não avaliam a dor na depressão?

O PHQ-9 e a escala de Hamilton, amplamente usados para avaliar depressão, não avaliam diretamente a carga de dor, segundo os pesquisadores.

### O que o SUS pode fazer para melhorar a avaliação?

Incluir rastreio de dor na avaliação de pacientes com depressão que não responde ao tratamento, registrar a informação de forma padronizada e integrar atenção primária, psiquiatria e cuidado da dor.

### Devo parar a medicação com base nesse estudo?

Não. Os autores ressaltam que os pacientes não devem mudar ou parar a medicação com base no artigo.

### Quem assina o estudo?

Nilson Mendes Neto (Harvard Medical School), Brendon Stubbs (King's College London) e Jessika Mendes (NeuroPsy).

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Fonte (canonical): https://revistaaptare.com.br/saude-mental/dor-cronica-pode-influenciar-tratamento-depressao/
