Saiba como cientistas "curaram" pacientes infectados com HIV - Remissão após transplante
Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio. Pacientes de Kansas City e Essen não tiveram vírus detectado após transplante de células-tronco com mutação CCR5 delta32. Mas especialistas evitam o termo "cura".
Resumo rápido
- Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio.
- Pacientes de Kansas City e Essen não tiveram vírus detectado após transplante de células-tronco com mutação CCR5 delta32.
- Mas especialistas evitam o termo "cura".
A cena que me trouxe até aqui
Eu estava no consultório do meu médico, há alguns anos, quando ele me disse que um amigo comum, já nos seus 60 anos, havia recebido um diagnóstico de HIV. Lembro do silêncio que se fez. Na época, o tratamento já era avançado, mas a palavra ainda carregava um peso de sentença. Ontem, lendo os anúncios da 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro, me vi pensando naquele amigo. Dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV foram apresentados, elevando para 13 o número de pacientes que, após transplante de células-tronco, não tiveram o vírus detectado no sangue.
Saiba como cientistas "curaram" pacientes infectados com HIV: o mecanismo da remissão
A palavra "cura" aparece entre aspas por um motivo. O que os pesquisadores anunciaram é, tecnicamente, uma remissão. Não é possível afirmar se a infecção retornará depois de algum tempo. Mas o caminho percorrido até aqui é fascinante.
O que acontece no corpo
O HIV, como qualquer vírus, só se torna ativo quando entra em uma célula. No caso do HIV, o alvo é o linfócito T CD4+, peça fundamental do sistema imunológico. Para entrar, o vírus se conecta a moléculas na membrana da CD4+: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Ao fazer essas conexões, abre uma "porta" e inicia a replicação.
A mutação que bloqueia a entrada
Os doadores das células-tronco, nos dois casos, tinham uma mutação especial nos genes, chamada CCR5 delta32. Essa mutação produz uma versão modificada do correceptor CCR5, que impede a ligação do vírus. Sem conseguir entrar na CD4+, o HIV não mantém a infecção.
O transplante como estratégia
Ambos os pacientes, um homem chamado "paciente de Kansas City" (EUA) e o "paciente de Essen" (Alemanha), foram submetidos a transplantes de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que originam as células sanguíneas, incluindo as de defesa. O paciente de Kansas City descobriu aos 21 anos que, além do HIV, tinha leucemia mieloide aguda. O de Essen estava infectado por dois tipos diferentes de HIV e pelo vírus da hepatite B (HBV).
Após o transplante, o paciente ganha células hematopoiéticas com o gene produtor de CCR5 delta32. Como essas células dão origem às CD4+, as novas gerações de linfócitos se tornam potencialmente resistentes ao HIV.
Os números da remissão
Nos dois casos, a terapia com antirretrovirais foi interrompida para avaliar a resposta. No paciente de Kansas City, passaram-se 14 meses sem detecção do vírus. No de Essen, foram 12 meses. No entanto, houve uma recidiva com o vírus da hepatite B no paciente alemão.
"A mutação em homozigose está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo, infelizmente, muito rara", explica Carina Elsner, pesquisadora responsável pelo estudo com o paciente de Essen. "A questão principal é se a presença da mutação CCR5 delta32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV."
Wissam El Atrouni, responsável pela pesquisa com o paciente de Kansas City, completa: "É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco. É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."
O primeiro caso e o que aprendemos
O primeiro paciente a ser considerado curado do HIV, Timothy Ray Brown, conhecido como "paciente de Berlim", recebeu o transplante em 2007. Viveu livre do HIV até 2020, quando morreu vítima de leucemia, a mesma doença que motivou o transplante.
Perguntas Frequentes
O que significa remissão do HIV?
Remissão significa que o vírus não é detectado no sangue após a interrupção dos antirretrovirais. Não é possível afirmar que a infecção não retornará, por isso o termo "cura" é evitado.
Quantos pacientes já tiveram remissão após transplante?
Com os dois novos casos, chega a 13 o número de pacientes que não tiveram HIV detectado após transplante de células-tronco.
A mutação CCR5 delta32 é comum?
Não. A mutação em homozigose está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo muito rara em outras populações.
O transplante de células-tronco é uma opção para todos com HIV?
Não. O procedimento é complexo e arriscado, indicado principalmente para pacientes que também têm câncer hematológico, como leucemia.
O que aconteceu com o paciente de Essen após a remissão do HIV?
Houve uma recidiva com o vírus da hepatite B, mas o HIV permaneceu indetectável por 12 meses.
Quanto tempo o paciente de Kansas City ficou sem o vírus?
Foram 14 meses sem detecção do HIV, com acompanhamento contínuo e testes mensais programados.
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Fontes
- Conteúdo revisado pela equipe clínica de Aptare.
- Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
- Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.