Cientistas "curam" pacientes com HIV: entenda o avanço | Roberto Vidal
Dois novos casos de remissão do HIV, anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro, elevam para 13 o número de pacientes sem vírus detectado após transplante de células-tronco. Mas o termo "cura" ainda é impreciso.
Resumo rápido
- Dois novos casos de remissão do HIV, anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro, elevam para 13 o número de pacientes sem vírus detectado após transplante de células-tronco.
- Mas o termo "cura" ainda é impreciso.
Saiba como cientistas "curaram" pacientes infectados com HIV
Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados durante a 26ª Conferência Internacional da Aids, realizada no Rio de Janeiro. Com esses resultados, chega a 13 o número de pacientes infectados com HIV que não tiveram vírus detectados no sangue após transplante de células-tronco. Mas o termo "cura" ainda é tratado com cautela pelos pesquisadores.
O que aconteceu com os pacientes de Kansas City e Essen?
Um dos casos é o de um homem chamado de "paciente de Kansas City" (Estados Unidos). Aos 21 anos, ele descobriu que, além de estar infectado com o HIV, sofria de leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer que afeta a produção de células de defesa. O outro caso é conhecido como "paciente de Essen" (Alemanha), infectado por dois tipos diferentes de HIV e pelo vírus da hepatite B (HBV).
Ambos foram submetidos a transplantes de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que originam as células sanguíneas, incluindo os leucócitos, que defendem o corpo. Nos dois casos, os doadores das células-tronco eram indivíduos com uma mutação especial nos genes, que os torna resistentes ao HIV.
Como o transplante de células-tronco bloqueia o HIV?
O HIV, como qualquer vírus, só se torna ativo quando entra em uma célula. No caso do vírus da Aids, seu alvo é o linfócito T CD4+, peça fundamental do sistema imunológico. Para entrar na célula, o HIV se conecta a moléculas na membrana externa da CD4+: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Ao fazer essas conexões, o vírus abre uma "porta" na membrana e inicia seu ciclo de replicação.
Nos doadores das células-tronco, os genes produzem uma versão modificada do correceptor CCR5, chamada de CCR5 delta32, que impede a ligação do vírus. Sem conseguir entrar na CD4+, o HIV não mantém seu processo de infecção. Com o transplante, o paciente ganha células hematopoiéticas munidas do gene produtor de CCR5 delta32, e as novas gerações de linfócitos CD4+ se tornam potencialmente resistentes ao HIV.
Remissão, não cura: por que a diferença importa?
Nos dois casos, a terapia com antirretrovirais foi interrompida para avaliar a resposta ao transplante. Mesmo após vários meses, os pesquisadores não conseguiram detectar o vírus no organismo. No paciente de Kansas City, passaram-se 14 meses sem detecção; no de Essen, 12 meses. No entanto, houve uma recidiva com o vírus da hepatite B no paciente de Essen.
A pesquisadora Carina Elsner, uma das responsáveis pelo estudo com o paciente de Essen, explica: "A mutação em homozigose [quando pai e mãe transferem o gene CCR5 delta 32 para o filho] está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo, infelizmente, muito rara. A questão principal é se a presença da mutação CCR5 delta 32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV."
Os estudos concluíram que houve remissão, não cura, pois não é possível afirmar se a infecção retornará depois de algum tempo. "É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco", afirma Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pela pesquisa com o paciente de Kansas City. "É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."
O precedente do paciente de Berlim
O primeiro paciente considerado curado do HIV, Timothy Ray Brown, conhecido como "paciente de Berlim", recebeu um transplante de células-tronco em 2007. Ele viveu livre do HIV até 2020, quando morreu vítima de leucemia, a doença que motivou seu transplante.
Perguntas Frequentes
O que é a mutação CCR5 delta32?
É uma versão modificada do correceptor CCR5, que impede a entrada do HIV na célula CD4+. Presente em cerca de 10% dos europeus do norte, é rara na população geral.
O transplante de células-tronco é uma cura para o HIV?
Não. Os pesquisadores preferem o termo "remissão", pois não há garantia de que o vírus não retorne. O tratamento é experimental e aplicado apenas em pacientes com câncer que necessitam do transplante.
Quantos pacientes já tiveram remissão do HIV?
Com os dois novos casos, chega a 13 o número de pacientes que não tiveram vírus detectados após transplante de células-tronco.
Por que o paciente de Essen teve recidiva da hepatite B?
Com a interrupção dos antirretrovirais, o vírus da hepatite B (HBV) voltou a ser detectado, mas o HIV permaneceu indetectável.
O tratamento está disponível no SUS?
Não. O transplante de células-tronco com doadores portadores da mutação CCR5 delta32 é um procedimento experimental, restrito a estudos clínicos.
transplante de medula óssea no SUS direitos dos pacientes com HIV
Fontes
- Conteúdo revisado pela equipe clínica de Aptare.
- Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
- Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.