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Cientistas "curam" pacientes infectados com HIV: entenda como

ResumoA 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro, anunciou dois novos casos de remissão do HIV. Pacientes de Kansas City e Essen receberam transplante de células-tronco de doadores com mutação genética que bloqueia a entrada do vírus nas células de defesa, resultando na cura aparente da infecção.

Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. Pacientes de Kansas City e Essen receberam transplante de células-tronco de doadores com mutação que bloqueia a entrada do vírus nas células de defesa.

Escrito por Dra. Fernanda Liberato · Atualizado em 30 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Revisado clinicamente porConselho clínico AptareEquipe médica revisora

Resumo rápido

  • Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro.
  • Pacientes de Kansas City e Essen receberam transplante de células-tronco de doadores com mutação que bloqueia a entrada do vírus nas células de defesa.
Cientistas "curam" pacientes infectados com HIV: entenda como

A 26ª Conferência Internacional da Aids, realizada no Rio de Janeiro, trouxe dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV após transplante de células-tronco. Com esses, sobe para 13 o número de pacientes que não tiveram o vírus detectado no sangue após o procedimento. Mas o que realmente acontece no organismo para que o HIV desapareça? E por que os cientistas evitam a palavra "cura"?

O HIV, como qualquer vírus, só se torna ativo quando entra em uma célula. Seu alvo principal é o linfócito T CD4+, peça central do sistema imunológico que ajuda a combater infecções. Ao destruir essas células, o vírus abre caminho para doenças oportunistas. Para entrar na CD4+, o HIV precisa se conectar a três moléculas na membrana celular: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Essa conexão funciona como uma chave que abre a porta para o vírus iniciar seu ciclo de replicação.

Como o transplante de células-tronco bloqueia o HIV

Nos dois novos casos, o "paciente de Kansas City" (Estados Unidos) e o "paciente de Essen" (Alemanha), os doadores das células-tronco hematopoiéticas carregavam uma mutação genética especial: a CCR5 delta 32. Essa alteração produz uma versão modificada do correceptor CCR5, que impede a ligação do vírus com ele. Sem conseguir abrir a porta da célula, o HIV não consegue entrar e se replicar.

As células-tronco hematopoiéticas são aquelas que originam todas as células sanguíneas, incluindo os linfócitos T. Ao receber o transplante, o paciente ganha células capazes de gerar CD4+ resistentes ao HIV. "A mutação em homozigose está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo, infelizmente, muito rara", explica a pesquisadora Carina Elsner, responsável pelo estudo com o paciente de Essen, que também estava infectado por dois tipos diferentes de HIV e pelo vírus da hepatite B (HBV).

Remissão, não cura: o que os números mostram

Após o transplante, a terapia com antirretrovirais foi interrompida nos dois casos para avaliar a resposta. No paciente de Kansas City, que aos 21 anos descobriu a infecção por HIV junto com leucemia mieloide aguda, os exames não detectaram o vírus por 14 meses. No paciente de Essen, o período livre do HIV foi de 12 meses. No entanto, houve uma recidiva do vírus da hepatite B, o que mostra que o transplante não eliminou todas as infecções.

"É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco", afirma Wissam El Atrouni, pesquisador responsável pelo caso de Kansas City. "É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."

O precedente histórico: o paciente de Berlim

O primeiro paciente considerado curado do HIV foi Timothy Ray Brown, conhecido como "paciente de Berlim", que recebeu o transplante em 2007. Ele viveu livre do vírus até 2020, quando morreu vítima de leucemia, a mesma doença que motivou seu transplante. O caso de Brown estabeleceu o protocolo que hoje é replicado, mas os cientistas mantêm a cautela: o termo correto é remissão, uma vez que não é possível afirmar se a infecção retornará depois de algum tempo transplante de medula óssea e HIV.

Por que a mutação CCR5 delta 32 é tão rara?

A mutação CCR5 delta 32 está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, mas é extremamente rara em outras populações. Isso limita a disponibilidade de doadores compatíveis. "A questão principal é se a presença da mutação CCR5 delta 32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV", pondera Carina Elsner. O procedimento, além de depender de doadores raros, envolve riscos elevados, como a doença do enxerto contra hospedeiro, e não é indicado para todos os pacientes com HIV, apenas para aqueles que já precisam de um transplante por outras doenças, como leucemia riscos do transplante de medula.

Perguntas Frequentes

O que significa remissão do HIV?

Remissão significa que o vírus não é detectado no sangue após a interrupção dos antirretrovirais, mas não há garantia de que a infecção não retorne. Por isso, os cientistas evitam o termo "cura".

Quantos pacientes já tiveram remissão do HIV?

Com os dois novos casos anunciados na Conferência da Aids, chega a 13 o número de pacientes que não tiveram o vírus detectado após transplante de células-tronco.

O transplante de células-tronco pode curar qualquer pessoa com HIV?

Não. O procedimento é arriscado e indicado apenas para pacientes que já precisam de transplante por outras doenças, como leucemia. A mutação CCR5 delta 32 é rara, o que limita a disponibilidade de doadores.

Por que o HIV não voltou após o transplante?

As células-tronco transplantadas carregam a mutação CCR5 delta 32, que impede a entrada do HIV nos linfócitos T CD4+. Sem conseguir infectar novas células, o vírus não consegue se replicar.

O paciente de Kansas City ainda está em remissão?

Sim, passaram-se 14 meses sem detecção do HIV, mas os pesquisadores continuam realizando testes mensais para monitorar possível retorno do vírus.

Fontes

  • Conteúdo revisado pela equipe clínica de Aptare.
  • Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
  • Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.

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