Bem-estar

Projeto leva atendimento médico a comunidades ribeirinhas do Amazonas

Moradores da comunidade ribeirinha de Boa Vista, no Amazonas, enfrentavam longas jornadas para atendimento médico. Com novos postos de saúde, a realidade muda, trazendo esperança e acesso facilitado para as consultas.

Escrito por Antônio Carlos Drummond · Atualizado em 26 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Revisado clinicamente porConselho clínico AptareEquipe médica revisora

Resumo rápido

  • Moradores da comunidade ribeirinha de Boa Vista, no Amazonas, enfrentavam longas jornadas para atendimento médico.
  • Com novos postos de saúde, a realidade muda, trazendo esperança e acesso facilitado para as consultas.
Projeto leva atendimento médico a comunidades ribeirinhas do Amazonas

Projeto leva atendimento médico a comunidades ribeirinhas do Amazonas

Aldeniza Silva e Silva, grávida de sete meses, reside na comunidade ribeirinha de Boa Vista, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, no Médio Rio Juruá, em Carauari (AM). Para consultas médicas, ela precisava viajar até a zona urbana do município, um trajeto que poderia levar de dois a três dias de rabeta, uma pequena embarcação. A única opção de deslocamento é fluvial, pois muitas áreas do interior do Amazonas não possuem rodovias.

Aldeniza só conseguia realizar seu pré-natal na cidade, onde até agora teve apenas três consultas, quando o ideal, segundo o Ministério da Saúde, é que as gestantes tenham um acompanhamento mínimo de seis.

Essa realidade é comum a milhares de ribeirinhos em Carauari, uma cidade com cerca de 28 mil habitantes, conforme o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Localizada a mais de 1,6 mil quilômetros de distância da capital do Amazonas, Manaus, a viagem até lá leva cerca de 36 horas de lancha expressa, em condições de rio seco. A zona rural é composta por diversas comunidades ribeirinhas, muitas das quais estão dias distantes da zona urbana.

Maria Valkiane Freitas e Silva, moradora da comunidade de Bauana, também enfrentava um longo percurso de cerca de 12 horas para chegar à cidade. "Para ir, o preço é uma botija, R$ 160. Mas para voltar, é duas ou três", ela compartilha.

Após a inauguração de dois pontos de atendimento à saúde nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em Campina e Bauana, essa distância foi diminuída. Aldeniza agora pode realizar seu pré-natal no posto de Campina. "Agora a distância é só de uma praia", comemorou. Ela também trouxe sua filha de seis anos para ser atendida, pois a criança não estava bem de saúde.

As novas estruturas são adaptadas à realidade local, focando no apoio às equipes de saúde, atendimentos presenciais e telessaúde. Cada unidade é equipada com consultórios, sala de triagem, consultório odontológico, internet e áreas para as equipes de saúde.

Os serviços são integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), embora o projeto tenha sido desenvolvido através de uma parceria público-privada. O modelo, chamado de SUS na Floresta, é resultado de um edital do programa Juntos pela Saúde, executado pela FAS, em colaboração com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas.

Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, ressalta que "um princípio fundamental deste projeto é reforçar a estrutura do SUS, não criar uma paralela. Os pontos de atendimento são implantados em colaboração com as prefeituras e secretarias municipais de Saúde, e os profissionais são vinculados à rede pública e à Estratégia Saúde da Família."

Logo após a inauguração, rumores sobre a instalação de um ponto de saúde mais próximo das comunidades já circulavam. Na comunidade de São Francisco, próxima ao posto da FAS em Campina, a população estava se preparando para procurar atendimento. "Caso a gente adoeça, tem um meio melhor para a gente ser atendido porque é perto daqui. Não tem nem comparação de ir na cidade, que é muito longe", afirmou Cecília Bispo de Lima, da comunidade São Francisco.

Os novos postos visam não apenas oferecer tratamentos, mas também ajudar na prevenção de doenças e na vacinação. Luana do Carmo da Gama expressou sua satisfação ao levar seu filho, Antonio Pedro, de quatro anos, para ser imunizado. "Vai ser ótimo para nós. Qualquer coisa, a gente pode vir aqui", disse.

Antes, os moradores da zona rural e das comunidades ribeirinhas precisavam enfrentar longos percursos para acessar o atendimento básico de saúde, muitas vezes utilizando lanchas para chegar ao posto mais próximo na zona urbana.

Em situações de emergência, a prefeitura disponibiliza ambulanchas para resgatar ribeirinhos, levando-os às cidades em viagens que podem durar horas ou dias, dependendo da localização da comunidade e das condições do rio.

Na semana passada, os dois novos pontos de saúde foram inaugurados mais próximos das comunidades ribeirinhas da RDS Uacari. O primeiro, na comunidade de Bauana, recebeu o nome de Raimundo Ribeiro de Lima, em homenagem a um líder comunitário local. O segundo, na região de Campina, foi batizado em homenagem à líder comunitária Laice Santos do Nascimento.

Essas unidades devem atender 56 comunidades ribeirinhas, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas. "O SUS na Floresta busca adaptar e fortalecer a Atenção Primária à Saúde em comunidades ribeirinhas e tradicionais da Amazônia, considerando os grandes deslocamentos e a sazonalidade dos rios", explicou Guilherme Sylos.

Na semana de inauguração, os pontos já evitaram diversas chamadas para as lanchas de resgate. No posto de Campina, foram evitadas cinco chamadas, incluindo uma de Thiago Freitas Andrade, da comunidade Xibuauzinho, que se feriu ao pisar em um prego. "Estava doendo muito, passei duas noites sem dormir", contou Thiago.

Ele foi atendido no posto de saúde, onde recebeu injeções e orientação para repouso. "Eles cuidaram do meu dedo e me deram medicamento para desinflamar." Além de Thiago, uma criança que se feriu com um anzol também foi atendida.

"Chegamos aqui em Campina no dia 12 de julho e já começamos a atender as pessoas. Atendemos desde ferimentos graves até pré-natal, além de casos de hipertensão e gripes, que são frequentes entre crianças", disseram os profissionais de saúde que atuam nas novas unidades.

Fontes

  • Conteúdo revisado pela equipe clínica de Aptare.
  • Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
  • Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.

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