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HIV: como transplante de células-tronco gerou remissão

ResumoHIV: transplantes de células-tronco com células doadoras portadoras da mutação CCR5-delta32 induziram remissão prolongada em dois novos pacientes, apresentados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. O procedimento elimina células infectadas e impede nova infecção, mas não representa cura universal. A técnica exige doador compatível e alto risco, limitando uso a casos graves.

Dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio. Entenda o mecanismo e os números.

Escrito por Roberto Vidal · Atualizado em 31 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Revisado clinicamente porConselho clínico AptareEquipe médica revisora

Resumo rápido

  • Dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio.
  • Entenda o mecanismo e os números.
HIV: como transplante de células-tronco gerou remissão

Remissão do HIV: novos casos após transplante de células-tronco

Dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV após transplante de células-tronco foram anunciados durante a 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. Com isso, chega a 13 o número de pacientes infectados com HIV que não tiveram vírus detectados no sangue após esse tipo de tratamento.

Um dos casos é o de um homem chamado de "paciente de Kansas City" (Estados Unidos). Aos 21 anos, ele descobriu que, além de estar infectado com o HIV, sofria de leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer que afeta a produção de alguns tipos de células de defesa humanas.

O outro caso é conhecido como o "paciente de Essen" (Alemanha), infectado por dois tipos diferentes de HIV e pelo vírus da hepatite B (HBV).

Como o transplante de células-tronco age contra o HIV?

Ambos foram submetidos a transplantes de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que originam nossas células sanguíneas, incluindo aquelas que defendem o corpo humano de invasores, como os leucócitos.

Nos dois casos, os doadores das células-tronco eram indivíduos com uma mutação especial em seus genes, que os torna resistentes ao HIV.

O HIV, como qualquer vírus, só se torna ativo quando entra em uma célula. No caso do vírus da Aids, seu alvo é o linfócito T CD4+, peça fundamental do nosso sistema imunológico que ajuda a combater infecções.

É justamente matando nossas células de defesa que o vírus provoca tanto dano ao organismo humano. Sem uma quantidade suficiente de CD4+, nos tornamos mais suscetíveis a doenças infecciosas.

Para entrar na célula, o HIV se conecta a moléculas localizadas na membrana externa da CD4+: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Ao fazer essas conexões, o vírus abre uma "porta" na membrana e consegue entrar na célula, iniciando seu ciclo de replicação.

No caso dos doadores das células-tronco, seus genes produzem uma versão modificada do correceptor CCR5, que impede a ligação do vírus com ele, chamada de CCR5 delta32. Sem conseguir entrar na CD4+, o HIV não é capaz de manter seu processo de infecção.

Com o transplante, o paciente infectado ganha células hematopoiéticas munidas do gene produtor de CCR5 delta32. Como são as células que dão origem às CD4+, as novas gerações desses linfócitos serão potencialmente resistentes ao HIV.

O que os estudos mostraram após a interrupção dos antirretrovirais?

Nos dois casos, na terapia com antirretrovirais, os remédios de controle das infecções por HIV foram interrompidos para avaliar a resposta ao transplante. E em ambas situações, mesmo passados vários meses desta interrupção, os pesquisadores não conseguiram detectar o vírus no organismo dos pacientes.

"A mutação em homozigose [quando pai e mãe transferem o gene CCR5 delta32 para o filho] está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo, infelizmente, muito rara. A questão principal é se a presença da mutação CCR5 delta32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV", conclui a pesquisadora Carina Elsner, uma das responsáveis pelo estudo com o paciente de Essen.

No caso do paciente de Kansas City, passaram-se 14 meses sem que fossem detectados vírus no seu organismo. No caso de Essen, foram 12 meses. No entanto, como a terapia com antirretrovirais foi interrompida, houve uma recidiva com o vírus da hepatite B.

A partir disso, os estudos concluíram que houve remissão da infecção pelo vírus HIV. Apesar do caso estar sendo tratado como "cura", o correto é dizer que houve remissão, uma vez que não é possível afirmar se a infecção retornará depois de algum tempo.

"É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco", afirma Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pela pesquisa com o paciente de Kansas City. "É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."

O histórico da remissão do HIV

O primeiro paciente a ser considerado curado do HIV, Timothy Ray Brown, conhecido como "paciente de Berlim", recebeu um transplante de células-tronco em 2007. Ele viveu livre do HIV até 2020, quando morreu vítima de leucemia, justamente a doença que motivou seu transplante.

Perguntas Frequentes

O que é remissão do HIV?

Remissão é quando o vírus não é detectado no organismo após a interrupção do tratamento, mas não se pode afirmar que a infecção não retornará. É diferente de cura, que implica eliminação definitiva.

Como a mutação CCR5 delta32 protege contra o HIV?

A mutação produz uma versão modificada do correceptor CCR5 na superfície das células CD4+. Sem essa conexão, o HIV não consegue entrar na célula e não inicia seu ciclo de replicação.

Por que o transplante de células-tronco é considerado um tratamento de risco?

O transplante é um procedimento complexo, geralmente indicado para tratar doenças como leucemia. A mutação CCR5 delta32 é rara, presente em cerca de 10% dos europeus do norte, o que limita a disponibilidade de doadores compatíveis.

O que aconteceu com o paciente de Essen após a interrupção dos antirretrovirais?

Após 12 meses sem HIV detectado, houve recidiva do vírus da hepatite B, mas não do HIV. O caso segue em acompanhamento contínuo com testes mensais.

Quem foi o primeiro paciente considerado curado do HIV?

Timothy Ray Brown, conhecido como "paciente de Berlim", recebeu o transplante em 2007 e viveu livre do HIV até 2020, quando morreu vítima de leucemia.

Fontes

  • Conteúdo revisado pela equipe clínica de Aptare.
  • Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
  • Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.

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